Em um momento de reorganização das prioridades do agronegócio brasileiro, a reciclagem animal buscou ocupar espaço no centro das discussões institucionais do país. Na tarde desta terça-feira (26), a ABRA e 22 associados representantes do setor estiveram no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), em Brasília, para uma reunião com o novo ministro da pasta, André de Paula.

O encontro tinha tudo para ser protocolar. Mas não foi. Parte do trabalho da comitiva, conduzida pelo presidente do Conselho Diretivo da ABRA, Pedro Bittar, foi simplesmente revelar a dimensão real do rendering no país. “O Brasil já construiu uma das cadeias de reciclagem animal mais fortes do mundo. Estamos aqui para garantir que o governo conheça essa realidade e possa caminhar junto com o setor”, afirmou.

Em pouco mais de uma hora, a ABRA desdobrou diante do ministro, do secretário de Defesa Agropecuária, Carlos Goulart, e do secretário de Comércio e Relações Internacionais, Luis Rua, um setor que processa 13,6 milhões de toneladas de resíduos por ano, exporta volumes crescentes para quatro continentes e, ainda assim, carrega uma legislação que remonta a 2008. A distância entre o que a cadeia é hoje e o que as normas enxergam nela foi, talvez, o argumento mais poderoso da tarde.

Foto: Percio Campos/MAPA

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Uma agenda regulatória em transformação

Se a primeira parte da reunião apresentou ao novo ministro a dimensão da reciclagem animal brasileira, a segunda mergulhou nas fragilidades regulatórias que atravessam o setor.

A ABRA levou ao MAPA uma avaliação detalhada sobre os efeitos da mudança promovida pelo Decreto nº 10.468, de agosto de 2020, quando o setor deixou a estrutura tradicional do Serviço de Inspeção Federal (SIF) e passou a integrar a área de Alimentação Animal do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (DIPOA). Desde então, parte dos procedimentos segue sem consolidação operacional clara, criando insegurança jurídica ao rendering.

Entre os pontos apresentados ao ministro André de Paula estiveram a necessidade de definição sobre a comunicação de alterações de habilitação aos países importadores, a padronização dos procedimentos durante o período de duplo registro e a uniformização da atuação do Ministério diante de eventuais recusas de habilitação por mercados compradores.

A discussão avançou também sobre a Instrução Normativa nº 34/2008. Com defasagem normativa de quase 20 anos, a norma já não acompanha o estágio técnico atual da reciclagem animal no Brasil nem a complexidade sanitária exigida pelo comércio internacional. A ABRA informou ao MAPA que uma proposta de atualização normativa já foi encaminhada via Sistema Eletrônico de Informações (SEI), contemplando a realidade produtiva das indústrias. O pedido ao ministro foi que essa proposta encontre o ritmo que o setor necessita.

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Foto: Percio Campos/MAPA

Exportações, habilitações e abertura de mercados

A internacionalização da reciclagem animal brasileira apareceu como outro eixo central da reunião. A ABRA mostrou ao ministro que, em três anos consecutivos, o setor expandiu sua participação nas exportações de forma expressiva: de 574 mil toneladas em 2023 (correspondentes a 9,65% da produção) para 718 mil em 2024 (12,35%) e 926 mil toneladas em 2025, já equivalentes a 15,1% do total produzido. Essa progressão foi usada para demonstrar a consolidação uma agenda exportadora própria, deixando de exercer apenas um papel de suporte dentro da cadeia pecuária.

Para avançar nessa direção, a Associação solicitou apoio direto em negociações prioritárias. O mapa de mercados a conquistar inclui China e Vietnã, para abertura às farinhas e gorduras de ruminantes; Equador, para farinhas, gorduras e hemoderivados suínos; Peru, para farinhas e gorduras suínas; e Honduras e Guatemala, para todos os produtos da reciclagem animal brasileira. As tratativas com a África do Sul, voltadas à exportação de produtos destinados à alimentação de animais de criação, também foram mencionadas.

Outro ponto sensível levado à mesa foi a demora na emissão de Certificados Sanitários Internacionais (CSIs), com atrasos que aumentam custos operacionais e portuários, afetam cronogramas de embarque e acabam reduzindo competitividade diante de concorrentes internacionais.

O biodiesel também apareceu como uma das pautas estratégicas levadas ao MAPA. Segundo a ABRA, a participação das gorduras animais na produção nacional de biodiesel alcançou 844 mil metros cúbicos em 2025, mantendo participação próxima de 8,5% da produção total de gordura animal do país. A Associação destacou ao MAPA que a previsibilidade da mistura de biodiesel é hoje um fator importante para garantir estabilidade regulatória, planejamento industrial e segurança de investimentos em toda a cadeia.

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Associados presentes

A comitiva que esteve em Brasília representou o conjunto mais amplo e diversificado já reunido pela ABRA em uma audiência ministerial. As empresas presentes foram:

  • Auri: representada por Renato Lopes
  • Boi Jales Nutrição Animal: representada por Mateus Rocha Ribeiro
  • BR Render: representada por João Bittar
  • Unifrango Cia: representada por Carlos Pelc
  • GranVitória Alimentos: representada por Tiago Couto Gavioli Villa
  • Grupo BR Render: representada por Murilo Rodrigues de Oliveira
  • Grupo Rendering: representada por Murilo Nogueira Santana
  • GTF: representada por Edson Fernandes e Kendi Okumura
  • Hemoprot: representada por Michelle Ramos Speltz Derine
  • JBS e Seara Alimentos: representada por Marcelo Luís Garcia e João Tavares
  • LPX Agroindustrial: representada por Fernando Peró
  • MARS: representada por Kátia Souza
  • MBRF: representada por José Roberto C. R. Gonçalves
  • Minerva Foods: representada por Mariane Crespolini
  • Nutriforte: representada por Roger Matias Pires
  • Ossovale: representada por Sergio Alves Ferreira
  • Semix: representada por Rodrigo Soria
  • Spironelli Reciclagem Animal: representada por Fabio Spironelli
  • São Salvador Alimentos: representada por Vinicius Magno e Rimarck Carvalho

Foto: Percio Campos/MAPA

As palavras do ministro

Essa ampla comitiva, reflexo de um setor articulado e coeso, não passou despercebida. Com trajetória de sete mandatos como deputado federal e passagem pelo Ministério da Pesca, o ministro André de Paula comentou que poucas vezes havia recebido, em uma única audiência, uma entidade com tamanho nível de representatividade setorial.

O ambiente construído ao longo da reunião também entrou na conversa. Diante dos associados da ABRA e dos secretários Carlos Goulart e Luis Rua, André de Paula destacou a dinâmica do encontro e a forma como as pautas foram apresentadas pela entidade.

Na reta final, o ministro direcionou à equipe técnica do MAPA a necessidade de avançar sobre os temas levados pela ABRA, um encerramento que reforçou a abertura de diálogo entre o novo comando do Ministério e o setor de reciclagem animal brasileiro.

 

Fotos: Percio Campos/MAPA

Fonte: Assessoria de Comunicação ABRA
Luísa Schardong, jornalista, MTB/RS 0018094