Uso de Farinhas e Gorduras de Origem Animal no Mercado Pet para Cães e Gatos

O mercado global de alimentos para animais de companhia apresenta crescimento contínuo impulsionado principalmente pela humanização dos pets, aumento da expectativa de vida dos animais e maior preocupação dos tutores com saúde, nutrição e bem-estar. O setor pet food movimenta bilhões de dólares anualmente e os segmentos premium e super premium vêm apresentando expansão acelerada devido à crescente demanda por alimentos nutricionalmente mais completos, digestíveis e seguros.

Nesse contexto, os ingredientes de origem animal possuem importância central na formulação de alimentos destinados a cães e gatos, especialmente devido às características fisiológicas dessas espécies. Os cães são classificados como carnívoros facultativos, possuindo relativa capacidade de utilização de carboidratos e proteínas vegetais, enquanto os gatos são considerados carnívoros obrigatórios, apresentando elevada dependência metabólica de nutrientes oriundos de tecidos animais, como taurina, ácido araquidônico, vitamina A pré-formada e elevados níveis protéicos.

As principais matérias-primas de origem animal utilizadas na indústria pet incluem farinha de carne e ossos bovina e suína, farinha de vísceras, farinha de penas hidrolisadas, farinha de sangue e gorduras animais. Tais ingredientes são produzidos a partir do aproveitamento de subprodutos oriundos da cadeia frigorífica e representam importantes fontes de proteína, energia, minerais e compostos responsáveis pela elevada palatabilidade dos alimentos.

Além da relevância nutricional, o uso desses ingredientes apresenta significativo impacto ambiental positivo devido ao reaproveitamento de resíduos industriais. A reciclagem animal reduz o descarte de subprodutos e contribui diretamente para economia circular e sustentabilidade da cadeia produtiva.

Entretanto, a qualidade dessas matérias-primas depende diretamente do processamento industrial, controle microbiológico, estabilidade oxidativa e padronização bromatológica. Ingredientes inadequadamente processados podem comprometer digestibilidade, biodisponibilidade de aminoácidos, estabilidade lipídica e segurança alimentar.

Internacionalmente, entidades como a Association of American Feed Control Officials (AAFCO) e a European Pet Food Industry Federation (FEDIAF) estabelecem parâmetros nutricionais e regulatórios amplamente utilizados pela indústria pet. No Brasil, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) regulamenta inspeção, produção, transporte e utilização de ingredientes destinados à alimentação animal.

Dessa forma, esta revisão bibliográfica objetiva discutir de maneira robusta o uso das farinhas e gorduras de origem animal na alimentação de cães e gatos, abordando composição bromatológica, digestibilidade, níveis de inclusão, diferenças fisiológicas entre espécies, regulamentação e tendências do mercado pet food.

As diferenças fisiológicas entre cães e gatos influenciam diretamente a utilização de ingredientes de origem animal nas formulações comerciais.

Os cães apresentam maior flexibilidade metabólica e conseguem utilizar parcialmente nutrientes de origem vegetal. Segundo a AAFCO, alimentos para cães adultos devem conter no mínimo 18% de proteína bruta e 5,5% de gordura à base de matéria seca. Para crescimento e reprodução, os níveis mínimos aumentam para 22,5% de proteína e 8,5% de gordura.

Já os gatos apresentam exigências proteicas significativamente superiores devido ao metabolismo estritamente carnívoro. Possuem baixa capacidade de sintetizar taurina, niacina e ácido araquidônico, tornando indispensável o fornecimento desses nutrientes por meio de ingredientes de origem animal.

Estudos demonstram que gatos mantêm vias metabólicas permanentemente direcionadas ao catabolismo proteico, mesmo em condições de baixa ingestão de proteína. Dessa forma, alimentos felinos normalmente apresentam maiores concentrações de proteínas animais e gorduras quando comparados às formulações caninas.

Além disso, ingredientes animais apresentam maior biodisponibilidade de aminoácidos essenciais, especialmente lisina, metionina, taurina e triptofano, fundamentais para manutenção metabólica dos felinos.

Farinha de carne e ossos bovina e suína

A farinha de carne e ossos (FCO) é uma das principais fontes proteicas utilizadas na indústria pet devido ao elevado teor de proteína e minerais, além da ampla disponibilidade comercial.

Sua composição bromatológica pode variar conforme matéria-prima e processamento industrial, apresentando normalmente:

Componente Valores médios
Proteína bruta 35–55%
Extrato etéreo 8–18%
Matéria mineral 20–35%
Cálcio 5–12%
Fósforo 3–6%

A digestibilidade da proteína da farinha de carne e ossos varia entre 70% e 85%, dependendo principalmente da quantidade de ossos presentes e da intensidade do tratamento térmico.

Estudos conduzidos por Kawauchi (2012) demonstraram que temperaturas excessivas reduzem significativamente a disponibilidade de lisina e digestibilidade protéica devido à ocorrência de reações de Maillard e desnaturação estrutural.

A farinha de carne e ossos apresenta importante contribuição mineral, especialmente cálcio e fósforo, sendo frequentemente utilizada em alimentos standard e premium. Entretanto, elevados níveis de cinzas podem comprometer a digestibilidade e aumentar o volume fecal.

Em cães, os níveis de inclusão variam normalmente entre 5% e 20% da formulação total. Em gatos, os níveis tendem a ser menores devido à maior exigência por proteínas altamente digestíveis e menor tolerância a elevados conteúdos minerais.

Do ponto de vista econômico, a FCO apresenta excelente relação custo-benefício, sendo amplamente empregada em formulações econômicas e standard.

Sob o aspecto regulatório, o MAPA estabelece rígidos controles sanitários relacionados ao uso de subprodutos de origem animal na alimentação animal, especialmente após as regulamentações internacionais associadas à encefalopatia espongiforme bovina (EEB).

Farinha de Vísceras

A farinha de vísceras é considerada uma das matérias-primas de maior valor biológico utilizadas pela indústria pet food.

Produzida a partir de órgãos internos como fígado, coração, pulmões e moela, apresenta elevada digestibilidade, excelente perfil aminoacídico e alta palatabilidade.

Sua composição média inclui:

Componente Valores médios
Proteína bruta 55–68%
Extrato etéreo 10–18%
Matéria mineral 10–15%
Digestibilidade proteica 85–92%

A farinha de vísceras apresenta digestibilidade superior à farinha de carne e ossos devido ao menor teor mineral e maior concentração de tecidos musculares e orgânicos.

Em gatos, esse ingrediente assume importância ainda maior devido ao fornecimento natural de taurina e elevada concentração de aminoácidos essenciais.

Além disso, o fígado presente na farinha fornece vitaminas lipossolúveis importantes, especialmente vitamina A e vitaminas do complexo B.

Nos segmentos premium e super premium, a farinha de vísceras frequentemente constitui a principal fonte proteica devido à elevada aceitação pelos animais e melhor percepção do consumidor.

Estudos de digestibilidade demonstram que dietas contendo farinha de vísceras promovem menor volume fecal, maior aproveitamento proteico e melhor escore fecal quando comparadas às formulações contendo maiores níveis de farinha de carne e ossos.

Os níveis de inclusão variam normalmente entre 10% e 30% nas formulações secas extrusadas.

Farinha de Penas Hidrolisadas

A farinha de penas hidrolisadas é produzida por meio da quebra térmica e hidrolítica da queratina presente nas penas de aves.

A queratina possui estrutura altamente resistente à digestão enzimática, sendo necessário processamento sob alta pressão e temperatura para aumento da digestibilidade.

Sua composição média apresenta:

Componente Valores médios
Proteína bruta 75–90%
Digestibilidade 60–80%
Cistina Elevada
Lisina Baixa

Apesar do elevado teor proteico, a farinha de penas apresenta limitações relacionadas ao perfil aminoacídico desequilibrado e menor biodisponibilidade proteica.

Quando adequadamente hidrolisada, pode atingir digestibilidade superior a 75%. Entretanto, o processamento inadequado reduz significativamente o aproveitamento nutricional.

Os níveis de inclusão normalmente variam entre 2% e 8% da formulação total, sendo utilizada principalmente em alimentos econômicos e standard.

Em formulações premium, sua utilização tende a ser reduzida devido à percepção negativa do consumidor e à busca por proteínas consideradas de maior qualidade biológica.

Ainda assim, do ponto de vista ambiental, a farinha de penas representa importante alternativa sustentável para aproveitamento de resíduos avícolas.

Farinha de Sangue

A farinha de sangue apresenta um dos maiores teores protéicos dentre os ingredientes de origem animal utilizados na indústria pet.

Sua composição média inclui:

Componente Valores médios
Proteína bruta 80–92%
Digestibilidade 70–90%
Lisina Elevada
Isoleucina Baixa

O ingrediente destaca-se principalmente pela elevada concentração de lisina, aminoácido essencial frequentemente limitante em formulações vegetais.

Entretanto, a farinha de sangue apresenta limitações relacionadas à baixa palatabilidade e desequilíbrio aminoacídico, especialmente baixos níveis de aminoácidos sulfurados e isoleucina.

Seu uso ocorre normalmente em níveis moderados, variando entre 1% e 5% das formulações.

Métodos de secagem influenciam diretamente a qualidade nutricional. Processos excessivamente agressivos reduzem a digestibilidade e provocam degradação proteica.

Além disso, a farinha de sangue exige rigoroso controle microbiológico devido à elevada atividade biológica do sangue fresco.

Gorduras animais

As gorduras animais desempenham funções nutricionais, tecnológicas e sensoriais fundamentais nos alimentos pet.

As principais fontes utilizadas incluem gordura bovina, gordura suína e gordura de aves.

Sua composição energética elevada fornece aproximadamente 8,5 kcal/g, representando importante fonte de energia metabolizada.

Além disso, os lipídios contribuem para:

  • absorção de vitaminas lipossolúveis;
  • fornecimento de ácidos graxos essenciais;
  • manutenção da integridade da pele e pelagem;
  • melhora da resposta inflamatória;
  • aumento da palatabilidade.

Nos gatos, as gorduras animais assumem papel ainda mais importante devido à exigência metabólica por ácido araquidônico, nutriente encontrado principalmente em tecidos animais.

Os níveis de inclusão normalmente variam entre 8% e 20% nas formulações comerciais secas.

Entretanto, a oxidação lipídica constitui um dos principais desafios tecnológicos associados às gorduras animais.

A formação de peróxidos compromete qualidade sensorial, estabilidade e segurança do alimento. Dessa forma, antioxidantes como tocoferóis, BHA e BHT são amplamente utilizados pela indústria.

Característica Econômico Premium Super Premium
Fonte proteica principal FCO e penas Vísceras + FCO Vísceras selecionadas
Digestibilidade média 70–78% 80–86% 86–92%
Inclusão de gordura animal Moderada Elevada Elevada e funcional
Qualidade das matérias-primas Variável Controlada Alta padronização
Uso de farinha de penas Frequente Moderado Baixo
Uso de farinha de sangue Moderado Baixo Muito baixo
Palatabilidade Média Alta Muito alta
Volume fecal Maior Moderado Menor
Custo Baixo Intermediário Elevado
Controle oxidativo Básico Moderado Rigoroso

A utilização de ingredientes de origem animal na alimentação pet é regulamentada por diferentes órgãos nacionais e internacionais.

No Brasil, o MAPA regulamenta inspeção, fiscalização, produção, transporte e utilização de ingredientes destinados à alimentação animal. O Decreto nº 12.031/2024 atualizou os procedimentos regulatórios relacionados à inspeção e fiscalização de produtos para alimentação animal.

Além disso, o MAPA estabelece normas específicas para trânsito e certificação sanitária de subprodutos animais não comestíveis utilizados na alimentação animal.

Internacionalmente, a AAFCO estabelece perfis nutricionais mínimos para cães e gatos, determinando níveis obrigatórios de proteína, gordura, minerais e vitaminas para diferentes fases fisiológicas.

A FEDIAF também publica diretrizes nutricionais amplamente utilizadas pela indústria europeia de pet food.

Os controles de qualidade incluem:

  • digestibilidade;
  • atividade de água;
  • índice de peróxidos;
  • perfil aminoacídico;
  • contagem microbiológica;
  • estabilidade oxidativa.

As farinhas e gorduras de origem animal permanecem fundamentais para formulação de alimentos destinados a cães e gatos devido à elevada qualidade nutricional, fornecimento de aminoácidos essenciais, alta digestibilidade e superior palatabilidade.

A farinha de vísceras destaca-se como ingrediente de maior valor biológico, enquanto a farinha de carne e ossos apresenta excelente relação custo-benefício e importante contribuição mineral.

As farinhas de penas hidrolisadas e sangue atuam como ingredientes complementares, sendo utilizadas principalmente em formulações econômicas e standard.

As gorduras animais exercem papel essencial na densidade energética, saúde dermatológica e aceitação dos alimentos comerciais.

As diferenças fisiológicas entre cães e gatos reforçam a importância dos ingredientes de origem animal, especialmente para os felinos, que apresentam metabolismo estritamente carnívoro e elevada dependência de nutrientes específicos encontrados em tecidos animais.

Além da importância nutricional, essas matérias-primas contribuem significativamente para sustentabilidade ambiental e economia circular por meio do aproveitamento de resíduos da cadeia frigorífica.

Por fim, a crescente exigência do mercado consumidor e das regulamentações nacionais e internacionais reforça a necessidade de rigoroso controle de qualidade, rastreabilidade e padronização industrial dos ingredientes utilizados pela indústria pet food.

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