
A ABRA esteve em Foz do Iguaçu (PR) acompanhando a 8ª edição do IFC Brasil – International Fish Congress & Fish Expo Brasil, realizada de 2 a 4 de setembro. O encontro reuniu diferentes elos da cadeia do pescado da América Latina em uma programação marcada por anúncios de investimentos, avanços regulatórios, cooperação internacional, novas tecnologias e discussões sobre os caminhos para ampliar a produção e a presença do pescado brasileiro nos mercados internacionais.
Ao longo do evento, a Associação acompanhou debates que conectaram produtores, indústria, pesquisadores, empresas de tecnologia e representantes institucionais. Entre os temas de maior destaque estiveram a produção de tilápia no reservatório de Itaipu, novos investimentos industriais, aproveitamento de coprodutos, nutrição de precisão, rastreabilidade, sanidade e sustentabilidade.

Brasil e Paraguai avançam em produção conjunta no reservatório de Itaipu
Um dos movimentos estratégicos apresentados durante o IFC Brasil foi o avanço das discussões entre Brasil e Paraguai para viabilizar a produção coordenada de tilápia no reservatório de Itaipu, cujo potencial produtivo é estimado em 400 mil toneladas.
O Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), representantes do governo paraguaio e da Itaipu Binacional participaram de um workshop dedicado à construção das regras de governança, biosseguridade e organização sanitária da atividade. A proposta envolve a criação de mecanismos compartilhados entre os dois países e a estruturação de um modelo que também possa favorecer a atuação conjunta nos mercados das Américas.
Associada da ABRA anuncia R$ 268 milhões em investimentos
A expansão da produção também ganhou dimensão concreta com o anúncio da Cooperativa Lar, associada da ABRA, de um plano de R$ 268 milhões em investimentos na piscicultura.

Entre os projetos está a construção de uma nova Unidade Industrial de Peixes em Missal (PR), que receberá aporte inicial de R$ 100 milhões. A implantação começa ainda em 2026, com previsão de entrada em operação em 2028 e capacidade inicial para abater 35 mil peixes por dia. A expectativa é atingir 90 mil peixes diários até 2031.
A cooperativa também anunciou R$ 18 milhões para otimizar sua estrutura de processamento em São Miguel do Iguaçu, reforçando um movimento de ampliação da capacidade industrial que acompanha o crescimento da piscicultura brasileira.
Industrialização, aproveitamento integral e novos mercados
O desenvolvimento da indústria de pescado foi outra frente importante da programação. Os debates abordaram novas tecnologias de processamento, automação de frigoríficos diante da menor disponibilidade de mão de obra e estratégias para elevar o aproveitamento das matérias-primas dentro das plantas industriais.
Nesse contexto, o aproveitamento integral do peixe e de seus coprodutos, incluindo a produção de ingredientes como farinhas, óleos e colágeno, aproximou diretamente as discussões do IFC da agenda da reciclagem animal. Além de ampliar a eficiência industrial, essa abordagem permite transformar materiais que não seguem para o consumo humano em novos produtos e ingredientes destinados a diferentes cadeias produtivas.
A busca por novos mercados também esteve presente, com discussões sobre a ampliação das exportações de filés frescos e congelados para os Estados Unidos e oportunidades de abertura e crescimento no Oriente Médio.
Nutrição de precisão e eficiência na produção
A alimentação dos peixes ocupou espaço relevante na programação. O painel “Rações Aquícolas para um Futuro Sustentável” contou com a participação de Albert Tacon, da AquaHana LLC, dos Estados Unidos, referência internacional em nutrição aquícola.
As discussões abordaram formulações de alta performance, fontes alternativas de proteína, aminoácidos e estratégias para aumentar a eficiência alimentar e reduzir a dependência de determinados ingredientes tradicionais.
Também foram apresentados trabalhos relacionados aos efeitos de micotoxinas e ficotoxinas sobre o desempenho de tilápias e ao uso de pré e probióticos e outros aditivos naturais para modulação do trato gastrointestinal. O objetivo é ampliar a resistência dos animais a doenças e a situações de estresse térmico ou de manejo, contribuindo para reduzir a necessidade de antibióticos.
Novo cenário para o licenciamento ambiental
No campo regulatório, o Ministério da Pesca e Aquicultura destacou a aprovação, pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), da revisão da Resolução nº 413/2009, que estabelece procedimentos relacionados ao licenciamento ambiental da aquicultura.
A mudança foi apresentada durante o encontro como um avanço para simplificar os processos de licenciamento, inclusive para a produção de espécies exóticas, como a tilápia, adotando critérios relacionados ao volume e às características da produção.
Inteligência artificial, rastreabilidade e novas tecnologias
A terceira edição do Fórum Aquicultura 4.0 levou ao evento discussões sobre transformação digital, inteligência artificial e rastreabilidade aplicadas à produção de pescado.
Entre as soluções apresentadas estiveram sensores conectados e algoritmos para automatizar o manejo alimentar, uma área especialmente relevante diante do peso da alimentação nos custos da piscicultura. Sistemas de rastreabilidade baseados em blockchain também entraram em pauta, com o acompanhamento das etapas produtivas desde a origem até o produto final como ferramenta para atender mercados internacionais cada vez mais exigentes em relação à procedência e à sustentabilidade.
Pesquisa e inovação também tiveram espaço com a apresentação de tecnologias do BRS Aqua, projeto desenvolvido em conjunto com a Embrapa e apoiado pelo BNDES e pela Secretaria Nacional de Aquicultura. Durante o IFC foram apresentadas 12 soluções voltadas à produtividade e à sanidade aquícola.
A programação ainda reuniu conteúdos sobre manejo de tambaqui e espécies nativas, protocolos para produção intensiva de juvenis de tilápia em sistemas de bioflocos (BFT) e o Aquisys, sistema informatizado desenvolvido pela Embrapa para apoiar produtores na aplicação de boas práticas de manejo e gestão ambiental em viveiros escavados de tilápia.
Outro eixo abordou o bem-estar animal e o manejo pré-abate, relacionando procedimentos adotados antes do processamento a fatores como qualidade da carne, rendimento de carcaça e qualidade do filé. Entre as discussões esteve ainda a possibilidade de mecanismos de identificação de boas práticas de manejo humanitário na cadeia.
Reciclagem animal integra o debate sobre o futuro do pescado
Para a edição deste ano, a ABRA preparou um material especial sobre a relação entre a reciclagem animal e o setor de pescado, distribuído durante o encontro. A publicação apresenta dados da atividade, aplicações dos ingredientes de origem animal e informações sobre farinhas e gorduras, incluindo farinha e óleo de peixe, além de aspectos ligados à segurança, rastreabilidade e sustentabilidade.
O material também dimensiona a reciclagem animal no Brasil: em 2025, foram processadas 14,5 milhões de toneladas de resíduos do abate, com produção de 3,9 milhões de toneladas de farinhas e 2,2 milhões de toneladas de gorduras.
Em uma edição marcada pela perspectiva de crescimento da piscicultura e da capacidade de processamento, temas como aproveitamento integral das matérias-primas, eficiência nutricional, rastreabilidade e agregação de valor aos coprodutos reforçaram pontos de convergência entre a cadeia do pescado e a reciclagem animal.







