No mesmo dia em que o tema chegou ao Palácio do Planalto, ele também entrou na agenda diplomática do governo brasileiro. Na tarde desta terça-feira (9), a ABRA se reuniu com o ministro de Estado das Relações Exteriores, Mauro Vieira, no Palácio do Itamaraty, em Brasília, para apresentar o setor de reciclagem animal e discutir os impactos das medidas tarifárias norte-americanas sobre as exportações brasileiras.
A agenda teve início com Lucas Leitão, da Divisão de Política Agrícola (DPAGRO) do Ministério das Relações Exteriores, que recebeu a Associação e encaminhou as demandas do setor para a audiência com o ministro. A ABRA e seus associados foram representados pelo presidente do Conselho Diretivo, Pedro Bittar, e pelo presidente Executivo, Decio Coutinho.
O pedido central foi o mesmo levado ao longo do dia às mais altas esferas do governo: que o sebo bovino e os demais produtos da reciclagem animal sejam incluídos em uma lista de exceções, caso a proposta de novas tarifas norte-americanas seja efetivamente implementada.
A resposta do ministro foi imediata. Após ouvir as preocupações apresentadas pela ABRA, Mauro Vieira determinou que as informações fossem compartilhadas com a Embaixada do Brasil em Washington e levadas a uma reunião já prevista para a próxima semana com a representação diplomática brasileira nos Estados Unidos.
Outro ponto discutido foi a revisão da classificação fiscal (NCM) do sebo bovino, medida relevante para fortalecer a posição do setor em futuras negociações comerciais. Mauro Vieira concordou com a avaliação apresentada pela ABRA de que esse é um dos caminhos mais promissores para acelerar soluções relacionadas ao tema e comprometeu-se a apoiar diretamente o avanço das tratativas dentro do Governo Federal. Com isso, a pauta passou a contar com o respaldo de mais uma das principais autoridades envolvidas na articulação econômica e diplomática do país, somando-se ao apoio já manifestado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin.
O encontro aconteceu em momento particularmente oportuno. Vieira informou que há expectativa de uma reunião entre os presidentes Lula e Trump na próxima semana — e, como as discussões técnicas sobre o tema tarifário ainda estão em fase inicial, o setor chegou ao Itamaraty a tempo de contribuir para a construção das posições que o Brasil levará às negociações.

Um produto estratégico dos dois lados
O argumento do setor passa por um dado que poucos setores exportadores podem apresentar com a mesma clareza: o Brasil e os Estados Unidos são mutuamente dependentes quando o assunto é sebo bovino. Em 2025, 96,8% de todo o sebo bovino exportado pelo Brasil teve como destino o mercado norte-americano. No sentido inverso, o produto respondeu por 83% de todas as importações americanas de gorduras animais, fatia que cresceu para 88% no primeiro trimestre de 2026.
Essa interdependência torna o cenário tarifário particularmente delicado. Desde agosto de 2025, o sebo bovino brasileiro é taxado em 50% nos Estados Unidos, enquanto Canadá e México operam em condições amplamente isentas. O resultado já aparece nas estatísticas: o Brasil saiu da liderança entre os fornecedores do produto ao mercado norte-americano em 2025 para a sexta posição em 2026. Agora, uma investigação sob a Seção 301 propõe uma tarifa adicional de 25%, ampliando a pressão sobre as exportações.
Com a agenda diplomática como palco natural para esse tipo de negociação, a ABRA segue acompanhando os desdobramentos e buscando canais para preservar a competitividade do setor no principal mercado comprador do país.
Fonte: Assessoria de Comunicação ABRA
Luísa Schardong, jornalista, MTB/RS 0018094








