O comércio entre Brasil e Estados Unidos vive um momento de redefinição. As tarifas impostas, em 2025, pela administração norte-americana sobre produtos brasileiros já pesam sobre o setor, enquanto a possibilidade de uma nova alíquota adicional de 25% amplia as incertezas para as exportações nacionais. Embora a medida ainda não tenha sido implementada, a ABRA antecipou o debate junto ao Governo Federal para buscar apoio institucional e defender que os produtos da reciclagem animal, especialmente o sebo bovino, sejam preservados de eventuais restrições comerciais.

Nesta terça-feira (9), esse cenário chegou ao gabinete do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, trazido pela indústria que mais tem a perder com ele.

Representada pelo presidente do Conselho Diretivo, Pedro Bittar, e pelo presidente Executivo, Decio Coutinho, a ABRA se reuniu no Palácio do Planalto para apresentar o setor de reciclagem animal ao vice-presidente e levar uma solicitação objetiva: que o sebo bovino e os demais produtos da reciclagem animal integrem a lista brasileira de exceções, caso as novas tarifas propostas pelos Estados Unidos sejam efetivamente implementadas.

A reunião resultou em três encaminhamentos estratégicos para o setor. O primeiro foi o compromisso do Governo Federal de incluir a reciclagem animal, com destaque para o sebo bovino, entre os pleitos prioritários da relação de exceções a ser negociada junto aos Estados Unidos, caso a nova alíquota entre em vigor.

O segundo encaminhamento envolveu uma demanda central para a competitividade do produto brasileiro. Durante o encontro, Geraldo Alckmin entrou em contato com a Secretaria de Desenvolvimento Industrial, Inovação, Comércio e Serviços para tratar do protocolo relacionado à revisão da classificação fiscal (NCM) do sebo bovino. O vice-presidente solicitou acompanhamento prioritário e celeridade na análise do processo, considerado fundamental para fortalecer a posição do setor nas discussões comerciais em andamento.

A terceira definição trouxe uma sinalização positiva para as empresas exportadoras. Alckmin informou que a nova fase do Plano Brasil Soberano ampliará o acesso aos instrumentos de apoio às empresas afetadas pelas medidas tarifárias. Na versão inicial do programa, o acesso aos financiamentos estava condicionado à comprovação de queda superior a 5% no faturamento bruto das exportações para os Estados Unidos. Na nova etapa, esse percentual foi reduzido para 1%, ampliando significativamente o número de empresas elegíveis. A ABRA já avalia os requisitos e mecanismos previstos no programa e compartilhará orientações com seus associados.

Ao comentar a situação da reciclagem animal no contexto das negociações tarifárias, Alckmin destacou que o Governo acompanha os setores mais impactados pelas medidas norte-americanas. Segundo ele, após conhecer os dados apresentados pela ABRA, a reciclagem animal passou a ocupar posição de destaque entre as prioridades acompanhadas pelo governo federal.

 

De líder a sexto lugar em menos de um ano

O contexto que levou o setor ao Planalto tem data precisa. Em agosto de 2025, o sebo bovino brasileiro passou a ser taxado em 50% nos Estados Unidos, enquanto Canadá e México, concorrentes diretos dos produtos nacionais, permaneceram isentos. O impacto foi imediato: o Brasil, que era o principal fornecedor de sebo bovino ao mercado norte-americano em 2025, caiu para a sexta posição em 2026.

Agora, uma investigação conduzida sob a Seção 301 propõe uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, aprofundando a incerteza para as exportações.

Os números ajudam a dimensionar o que está em jogo. Em 2025, o Brasil exportou 424 mil toneladas de produtos da reciclagem animal para os Estados Unidos, sendo 389 mil delas em sebo bovino, o equivalente a 91,8% de tudo que o setor embarcou para o país. Mais do que isso: 42% de toda a exportação do setor brasileiro para o mundo foi sebo bovino destinado ao mercado norte-americano.

Do outro lado, os EUA também dependem desse produto. Em 2025, importaram 1,07 milhão de toneladas de sebo bovino, correspondendo a 83% de suas importações de gorduras animais. No primeiro trimestre de 2026, essa fatia subiu para 88%.

É esse desequilíbrio que a ABRA levou à reunião com Alckmin: um produto estratégico para os dois países, taxado de forma assimétrica e que traz fortes impactos para a reciclagem animal do Brasil. A ABRA segue acompanhando os desdobramentos das negociações tarifárias e suas implicações para a indústria nacional.

 

Fotos: Cafu Gomes/VPR

Fonte: Assessoria de Comunicação ABRA
Luísa Schardong, jornalista, MTB/RS 0018094