Apesar da disparada dos preços do milho no mercado doméstico, impulsionada pelo câmbio, as vendas antecipadas da safra 2015/16 do grão desaceleraram em Mato Grosso, principal produtor nacional. Preocupados com os rumos da atual colheita de soja, que precede o plantio do milho de segunda safra (a safrinha), muitos agricultores colocaram o pé no freio das negociações com receio de não terem os volumes comprometidos para entrega nesta temporada.
Até o início de janeiro, os agricultores de Mato Grosso comercializaram 55,4% da produção de milho esperada para este ano, de 19,36 milhões de toneladas, estima o Instituto Mato­grossense de Economia Agropecuária (Imea). Há um ano, eram 22,3%. Mesmo bem à frente do mesmo período de 2015, as vendas perderam fôlego no último mês. Segundo o Imea, o avanço da comercialização em dezembro (de 1,9 ponto percentual) foi o menor desde o início das negociações, em julho. 
"O produtor vem de uma posição grande de comercialização, e com os atuais problemas de seca na soja e o dólar o  ilando bastante, as vendas futuras cabaram travando", afirma Ramicés Luchesi, da MT Corretora de Grãos, do município de Nova Mutum (MT). 
Com o milho em queda na bolsa de Chicago nos últimos meses, resultado da abundante oferta mundial, os preços da commodity no Brasil vêm sendo sustentados pelo dólar valorizado ante o real. A saca de 60 quilos está atualmente na casa de R$ 40, mais de 50% acima de um ano atrás, de acordo com o indicador Esalq/BM&FBovespa. 
Luchesi, que atua mais fortemente no médio­norte de Mato Grosso, afirma que a saca de milho para entrega futura está sendo negociada entre R$ 20 e R$ 20,50, bem acima dos R$ 17 do mesmo período de 2014. 
Na região, uma das mais atingidas pela escassez de chuvas no Estado, a produtividade das primeiras lavouras de soja tem frustrado os agricultores. Os rendimentos oscilam bastante, de 15 a 50 sacas por hectare, e enchem o mercado de dúvidas sobre o real tamanho da safra e as condições em que o milho se desenvolverá na sequência. 
"Com os altos custos de produção do cereal, os agricultores investiram menos em fertilizantes", observa o Imea, em boletim. A instabilidade climática também põe o potencial produtivo do milho à prova: o instituto já revisou para baixo o rendimento do grão em 2015/16, de 98,1 para 95,5 sacas por hectare. Se o número for confirmado, o recuo será de 10,6% ante 2014/15. 
A continuidade das chuvas escassas ou o excesso de precipitações pode diminuir a janela para o plantio de milho em Mato Grosso ­ já apertada pelos atrasos da soja ­ e aumentar o risco à produtividade. 
Ainda não está muito claro se a área da safrinha de milho em Mato Grosso cairá em função de uma provável quebra na safra de soja, mas o sinal amarelo está aceso. "Os produtores por aqui não descartam uma redução da área na safrinha. Pode ser até que não seja uma queda tão expressiva, mas tudo depende de como ficar o clima", diz Cleida Zilio, gerente comercial de um condomínio que reúne 16 produtores em Campo Novo do Parecis (MT), no oeste do Estado. 
A colheita de soja ainda não começou no município, e Cleida acredita que quando as primeiras sacas da oleaginosa saírem do campo, o produtor se sentirá mais seguro para decidir se volta às negociações ou permanece à espera.
Do lado dos compradores, também já houve uma redução do interesse pelas compras antecipadas de milho. O mesmo não se pode dizer do milho disponível, colhido na safrinha passada. "Geralmente, as tradings tomam posição [de compra] até dezembro, no máximo, e estamos vendo isso acontecer até agora em janeiro", afirma Luchesi. Mas os volumes são pequenos: em Mato Grosso, restam pouco menos de 4% da colheita passada de milho para ser negociada, conforme o Imea.
A perda de força do real em relação à moeda americana tornou o milho brasileiro mais barato, e portanto, mais atraente para os compradores estrangeiros nos últimos meses. Com isso, o país fechou 2015 com exportação de 30,74 milhões de toneladas do produto, 46,7% acima do ano anterior, segundo a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec). 
"Houve inclusive registros de exportação de milho para os Estados Unidos [maior exportador mundial do grão], com frete médio de US$ 10 por tonelada para a Carolina do Norte, saindo do Tegram. Extremamente competitivo", diz Luiz Aguiar, CEO da CGG Trading, que opera o Terminal de Grãos do Maranhão em parceria com NovaAgri/Toyota, Glencore e Amaggi/Louis Dreyfus Commodities. O Brasil encaminhou milho também ao Japão, tradicionalmente atendido pelos EUA.
A CGG aproveitou esse movimento e fechou 2015 com o embarque de 1,7 milhão de toneladas de milho, 26% mais que em 2014. Neste ano, Aguiar diz que a companhia avança no ritmo dos produtores. "Quando eles param, também paramos. Quando começam a fixar [preços], também fixamos",  afirma.
 
Fonte: Valor Econômico