Prestes a confirmar o posto de maior produtor e exportador mundial de soja em grão, o Brasil é um dos países que mais deverão avançar nesse mercado na próxima década, conforme projeções de longo prazo divulgadas na segunda-feira pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). A soja já é o carro-chefe do agronegócio brasileiro tanto em valor bruto da produção agrícola quanto em exportações.

 
Segundo o estudo do órgão americano, que tem status de ministério, as exportações de soja em grão do Brasil poderão alcançar 63,8 milhões de toneladas na safra 2022/23, quase 76% a mais que em 2011/12 (36,3 milhões). Esse estudo em especial prevê as exportações brasileiras neste ciclo 2012/13, em fase de colheita, em 37,4 milhões de toneladas, mas em outras projeções, como as do relatório mensal de oferta e demanda de grãos divulgado na sexta, o USDA já considera 38,4 milhões.
 
Se confirmado o cenário de longo prazo traçado, a participação do Brasil nas exportações globais de soja em grão em 2022/23, estimadas em 144,3 milhões de toneladas, chegará a 44,2%. Em 2011/12, a fatia do país em um total de 89,3 milhões de toneladas foi de 40,6%. No horizonte desenhado pelo USDA, haverá quedas na participação brasileira nos embarques globais de farelo de soja (de 24,9% em 2011/12 para 22,9% em 2022/23) e de óleo de soja (de 22,4% para 22,2% na comparação).
 
De acordo com o estudo do USDA, a Argentina também tende a experimentar ganhos consideráveis no tabuleiro da oleaginosa, mas os EUA, com sua vocação para a produção de milho em alta – em larga medida por causa da política americana para os biocombustíveis – tendem a perder importância nesse mercado, exceto no caso do óleo.
 
Paralelamente, a China tende a seguir firme como o grande mercado a ser atendido. As importações chinesas de soja em grão poderão somar 102,9 milhões de toneladas em uma década e representar 71,3% do volume total previsto (144,3 milhões de toneladas). Em 2011/12, as compras do país asiático somaram 59,2 milhões de toneladas, ou 66,3% do total. Com incentivos ao processamento do grão em seu território, a China deverá continuar a ser um exportador "secundário" de farelo de soja e deverá perder importância como país importador de óleo de soja.
 
Apesar do recente incremento das exportações de milho do Brasil, que produziu mais e aproveitou o espaço deixado pela queda da oferta dos EUA devido a uma seca severa, as projeções do USDA sinalizam que o avanço brasileiro nesse mercado será limitado na próxima década, em grande medida graças à tendência de incremento da demanda doméstica para a produção de rações.
Os embarques brasileiros do cereal poderão chegar a 18,6 milhões de toneladas em 2022/23, ou 13,4% de um volume global de exportações estimado em 138,7 milhões. Em 2011/12, diz o estudo de longo prazo, as exportações do Brasil chegaram a 21 milhões de toneladas – em outro levantamento, divulgado na sexta-feira, o próprio USDA estima 24 milhões -, quase 19% de um total calculado em 110,8 milhões. Em 2012/13, o país "briga" pela liderança com os EUA e a Argentina.
 
Em um cenário que prevê que a Argentina vai manter sua fatia nas exportações mundiais em pouco mais de 14%, o destaque é a previsão de avanço do predomínio dos EUA. Com uma política que privilegia a produção do cereal, até por conta de sua política para biocombustíveis – o etanol americano é fabricado a partir do milho -, os EUA poderão exportar 63,5 milhões de toneladas em 2022/23 (45,8% do total), ante 39,2 milhões em 2011/12 (35,4%).
 
No quadro das importações do cereal, o destaque também é a China. Outrora exportador, o país deverá comprar no exterior 19,6 milhões de toneladas em 2022/23 (14,1% do total projetado), ante 5,2 milhões em 2011/12 (4,7%). Entre outros fatores, a mudança de cardápio proporcionada por ganhos de renda vem impulsionando o consumo de carnes no mercado chinês, elevando a demanda por milho para rações.
 
Já um tradicional grande importador global de trigo, o Brasil não verá sua carência diminuir nos próximos dez anos, conforme as projeções de longo prazo do USDA. O país tende a comprar no exterior 7,7 milhões de toneladas do cereal em 2022/23, ou 4,7% de um total projetado em 163,7 milhões de toneladas. Em 2011/12, foram 7,3 milhões de toneladas, também 4,7% do total. O Brasil só "perdeu" em importações de trigo em 2011/12 para o Egito. Em 2022/23, tende a ficar atrás de Egito e Indonésia.
 
Outro segmento onde o Brasil já se destaca e poderá brilhar ainda mais na próxima década é o de carnes, conforme as projeções de longo prazo do USDA. Um dos maiores exportadores globais de carne bovina, o Brasil tende a seguir com participação expressiva nesse mercado. Os embarques brasileiros do produto poderão somar 1,887 milhão de toneladas (equivalentes-carcaça) em 2022, ou 19,8% do total que deverá ser exportado pelos principais "players" desse segmento. O USDA calcula as vendas do Brasil em 2012 em 1,394 milhão de toneladas, ou 19,7% do total embarcado pelos maiores exportadores do mundo.
 
Conforme as estatísticas do USDA, o Brasil encerrou o ano passado como o segundo maior exportador de carne bovina do mundo, atrás da Índia (1,680 milhão de toneladas) e à frente de Austrália (1,380 milhão de toneladas) e EUA (1,120 milhão). Em 2022, tende a seguir abaixo da Índia (2,865 milhões de toneladas) e à frente de seus principais atuais "concorrentes".
 
No caso da carne de frango, o Brasil tende a ampliar sua liderança nas exportações globais na próxima década. De acordo com o órgão americano, os embarques brasileiros do produto pronto para consumo poderão chegar a 4,765 milhões de toneladas em 2022, ou quase 42% de um volume total de 11,420 milhões de toneladas que deverão ser vendidas pelos principais países exportadores no ano. O USDA calcula os embarques do Brasil em 2012 em 3,633 milhões de toneladas, ou 38,6% de um total de 0,419 milhões de toneladas.
 
Se nas contas do ano passado a liderança brasileira foi ameaçada de perto pelos EUA, que exportaram 3,616 milhões de toneladas (38,4% do total), em dez anos essa "sombra" tende a ser mais "vacilante", já que a participação dos embarques americanos no volume global tende a recuar para 34%. Outros exportadores que deverão avançar nessa ponta do comércio são China e Tailândia. No lado das importações, os destaques das projeções do USDA são as previstas quedas nas compras de Rússia e Japão e os aumentos nos casos de União Europeia, México, China, Oriente Médio e norte da África.
 
Em linha com as perspectivas do setor produtivo nacional, o Brasil poderá ganhar espaço nas exportações mundiais de carne suína na próxima década, de acordo com o cenário de longo prazo traçado pelo USDA. Aqui, os embarques brasileiros poderão chegar a 778 mil toneladas em 2022, ou quase 10% de um volume total estimado em 7,864 milhões de toneladas para os principais países exportadores do segmento. O USDA calcula as vendas externas do Brasil em 2012 em 605 mil toneladas, ou 8,7% de um total de 6,911 milhões de toneladas. O incremento previsto reforça a expectativa de aumento da demanda doméstica brasileira por milho para a produção de rações.
 
À frente do Brasil entre os principais exportadores destacados pelo USDA em 2012 estão, pela ordem, EUA (2,471 milhões de toneladas), União Europeia (2,280 milhões), Canadá (1,250 milhão). Essa ordem não deverá mudar nos próximos dez anos. No quadro dos importadores, os destaques são os previstos avanços das importações chinesas, de 775 mil toneladas em 2012 para 1,220 milhão em 2022, e mexicanas, de 675 mil para 913 mil toneladas. Já o volume importado pela Rússia deverá diminuir – de 975 mil toneladas em 2012 para 812 mil em 2022.
 
Fonte: Valor