O economista Raul Velloso, especialista em contas públicas, não poupa críticas à presidente Dilma Rousseff, devido às manobras fiscais que têm minado a confiança dos investidores e derrubado o crescimento econômico do país. Para ele, o legado que ela deixará a quem for conduzir o país a partir de 2015 não será nada bom. “A herança ruim é pouco dinheiro para gastar, má gestão, baixa eficiência e um viés estatal, que não abre espaço para o setor privado fazer o que o governo não faz”, afirma.

Na avaliação de Velloso, a perda de credibilidade demora a aparecer, mas, quando ela se torna evidente, fica difícil revertê-la. “Agora, se o governo apresenta um número para valer, ninguém acredita mais”, afirma. Para ele, a imagem da “gerentona” da presidente, que botaria ordem na casa, ruiu, e o que se vê é inexperiência, falta de tato e ineficiência de uma equipe incapaz de melhorar a qualidade dos serviços públicos. Veja, a seguir, os principais pontos da entrevista que o economista concedeu ao Correio Braziliense.
 
O governo anunciou um corte  adicional de R$ 10 bilhões no Orçamento, mas a maior parte parece ser revisão de despesas. Existe algum efeito prático desse arrocho?
É preciso entender qual é a motivação de fazer esse corte. Pelo que tinha entendido, era para recuperar a credibilidade da política fiscal. Mas não convenceu. A perda de credibilidade demora a aparecer, mas quando ela se torna evidente, fica difícil revertê-la. O fato é que ninguém mais acredita no que o governo fala.
 
Por que tanto descrédito?
Por uma série de contabilidade criativa. Com a crise mundial, era mais do que natural que o superavit primário (economia para o pagamento dos juros da dívida pública) previsto pelo governo caísse. Mas, em vez de o Tesouro Nacional aceitar esse fato e dar transparência aos números, muita coisa esquisita ocorreu. Os analistas perceberam as mágicas, como dívida virando receita e dividendos antecipados por estatais, e a confiança acabou. Não era preciso fazer isso. Todo mundo estava com problema.
 
Como recuperar a credibilidade?
Com esse novo corte, de R$ 10 bilhões, acho muito difícil. Ele é pouco crível. O governo deveria acabar com a fase das mentiras, fazer uma mea-culpa, explicando tudo o que fez de errado e comprovar essa boa intenção fechando 10 ministérios e reduzindo cargos. Isso, sim, seria um sinal inequívoco de mudança de postura. Mas não acredito que isso será feito. Portanto, não dá para acreditar em ajuste fiscal com corte de passagens aéreas, diárias e energia elétrica. Isso não vai recuperar a confiança de ninguém.

Quais são os grandes erros do governo Dilma?
Há vários, mas o maior deles foi jogar no chão a credibilidade de um país sem precisar. Uma coisa é perder a credibilidade porque foi levado a isso. Não é o caso do atual governo. O que vemos é resultado de um processo que culminou, no fim do ano passado, com a divulgação de truques contábeis. Se o ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi o autor desse negócio, parece que ele vive em um mundo que não é no que estamos vivendo. É um mundo do faz de conta. Há uma percepção muito ruim em relação à qualidade da política fiscal brasileira. A relação entre a dívida líquida em relação ao PIB ainda é baixa, de 35%. Mas, por falta de credibilidade, os especialistas passaram a usar o conceito de dívida bruta, de 58%, pelos cálculos do BC. Essa série de trapalhadas colocou o país diante da ameaça implícita de perda do grau de investimento. Se isso ocorrer, será um desastre, pois haverá uma fuga maciça de recursos estrangeiros do Brasil.

O governo acredita que há um excesso de pessimismo, que tudo caminha bem.
Isso é discurso de quem não aceita seus erros. Não bastasse a maquiagem das contas públicas, o governo não soube lidar com os problemas da indústria, que, mesmo com a desoneração da folha de pagamento e outros incentivos, continua patinando. Ou seja, o governo consumiu recursos da sociedade sem resolver o problema da produção. Agora, fala em um programa de concessões de infraestrutura. Mas quer definir os ganhos, com retornos baixos. Isso não existe. O setor privado não trabalha por filantropia. Ele atua para obter a melhor rentabilidade que estiver ao seu alcance. Caso contrário, vai para outro setor ou para outro país. É por esse tipo de postura que a taxa de investimento do país caiu e ficou estagnada em 18% do PIB.

O que esperar daqui para frente? 
Juros altos, baixo crescimento e aumento do desemprego. Teremos um período difícil pela frente, em que o Banco Central fará um esforço redobrado para manter a inflação sob controle. A herança que o próximo governante encontrará, seja quem for o vencedor, será ruim, com pouco dinheiro para gastar, má gestão, baixa eficiência e um viés estatal, que não abre espaço para o setor privado fazer o que o governo não faz.
 
 
Fonte: Correio Braziliense