Três anos após o anúncio da união entre Perdigão e Sadia, a empresa de alimentos resultante, a BRF-Brasil Foods, está mostrando que entre suas especialidades está a matemática, além de carnes de aves e suínos, pratos prontos e embutidos, entre outros produtos. A companhia que surgiu da união das duas rivais vale hoje o dobro do que eram avaliadas as empresas juntas antes da combinação. O valor de mercado do negócio está próximo de R$ 30 bilhões – o dobro dos R$ 15 bilhões marcados ao fim do primeiro pregão após a Perdigão incorporar o controle da Sadia, em 8 de julho de 2009.

Embora ainda existam desafios à gigante – cada vez mais e maiores -, a percepção do mercado sobre o negócio indica que as companhias tinham mesmo é que se juntar, desde os tempos em que o apelido dessa união era "Sadigão".

A BRF está se apropriando dos pontos positivos de cada uma: o prêmio que os investidores atribuíam na bolsa à governança da Perdigão e o prêmio que os consumidores pagavam pela marca Sadia no supermercados.

Nem sempre fusões resultam numa conta positiva. Muitas vezes, as diferenças culturais praticamente impedem a criação de valor, pois dificultam a combinação.

A BRF também se beneficiou de um momento positivo da economia doméstica. O aumento da demanda interna reduziu o impacto do enfraquecimento do mercado internacional. A crise financeira deixou consequências profundas e duradouras nas economias dos países desenvolvidos.

No mesmo período da combinação das companhias, o Índice Bovespa saiu de 49.177 pontos para os atuais 55.887 pontos, alta de 13,64%. Já o Índice do Setor de Consumo saltou de 976 pontos para 1.949 pontos, indicando a concentração do apetite dos investidores por companhias ligadas à economia interna.

Apesar de fruto de um cenário extremo – a quebra da Sadia após as perdas de R$ 2,55 bilhões com derivativos cambiais em 2008 -, a BRF deixou as dificuldades financeiras para a história. Já alcançou a nota de grau de investimento pelas três principais agências de classificação de risco de crédito.

Os múltiplos de negociação da BRF estão muito mais para Perdigão do que para Sadia, que mesmo antes dos derivativos sofria os descontos atribuídos pelos investidores sob argumentos de preocupação com uma gestão familiar.

Não surpreende, portanto, que os fundos de pensão que formavam o bloco com a maior posição da empresa estejam realizando alguns lucros e, por isso, com a menor participação na companhia desde a fusão: 26,55% do negócio.

Esses fundos compraram a Perdigão, em 1994, da família Brandalise e estão vendendo a Sadia duas vezes maior e profissionalizada, quase 20 anos depois.

Em setembro de 2011, foi a primeira vez que a fatia das fundações ficou abaixo de 28% da BRF. Desde então, as vendas de ações realizadas ultrapassam R$ 550 milhões – redução equivalente a 1,5% do capital da empresa. Só em março, foram R$ 235 milhões.

O valor de mercado da BRF evoluiu de maneira muito mais veloz do que a receita das empresas combinadas. Quando unificadas, Perdigão e Sadia somavam receita líquida da ordem de R$ 22 bilhões. No ano passado, a receita líquida da BRF somou R$ 25,7 bilhões – pouco mais de 10% de expansão. O volume de carnes produzido subiu de 5,3 milhões de toneladas, em 2009, para 5,8 milhões em 2011 – alta também da ordem de 10%.

É pela avaliação de que o negócio caminha no rumo certo que a capitalização evoluiu e também pelas sinergias capturadas com a fusão. A expectativa é que a partir deste ano a economia anual fique em torno de R$ 1 bilhão – o dobro do inicialmente projetado. No primeiro ano, o ganho ficou em R$ 500 milhões e, no ano passado, o saldo bruto foi de R$ 700 milhões.

A combinação das companhias ainda não alcançou sua plenitude. Isso porque a integração dos negócios ocorreu de maneira parcelada, no aguardo do acordo com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), obtido em julho do ano passado. Inicialmente, apenas a parte financeira pôde ser integrada, em função da urgência da situação da Sadia.

É por isso, e pelos planos da empresa, que os analistas acreditam que a companhia vale ainda mais. A média dos preços-alvo dos analistas registrada pela Bloomberg indica que a empresa deveria valer mais de R$ 36 bilhões. Na prática, significa que as ações cotadas a R$ 32,99 ontem, deveriam encerrar 2012 valendo R$ 41,46, na conta média de 20 especialistas, conforme a Bloomberg.

Logo após os compromissos firmados com o Cade, em julho, a BRF anunciou os planos de chegar a 2015 com R$ 50 bilhões de faturamento líquido – quase o dobro do que encerrou o ano passado. Desde então, a companhia teve valorização de 26,7% e agregou R$ 6 bilhões de valor de mercado.

A companhia tem hoje 45% da receita proveniente do mercado interno, 10% de produtos lácteos e 5,6% do segmento chamado de "food service" – como fornecedora para as chamadas refeições fora do lar. O restante é proveniente das exportações.

A BRF vende seus produtos em mais de 140 países, com 19 escritórios fora do Brasil e sete unidades produtivas. Agora, a companhia está construindo uma unidade em Abu Dhabi.

O desafio da BRF ao longo desses próximos anos é a consolidação do setor de alimentos no modelo de companhias fornecedoras de proteína animal. Esse conceito coloca todas elas, as produtoras de carne bovina e as de aves e suínos, lado a lado.

É esse modelo que explica as empresas originalmente de bovinos, como Marfrig e JBS, a atuarem mais em aves e suínos. E, ao mesmo tempo, explica a entrada da BRF em carne bovina. A lógica disso é simples: a demanda. O cliente quer facilitar cada vez mais sua vida e centralizar as compras num único fornecedor.

Por enquanto, a companhia não sofre ameaças de consolidação no atual cenário do setor. Contudo, sofre sim limitações como consolidadora. Com a união das duas maiores empresas de alimentos na área de proteína animal, Perdigão e Sadia, há pouco espaço para aquisições no Brasil. Fora do país, contudo, a empresa segue com potencial e apetite para expansão.
Fonte: Suinocultura Industrial