As primeiras áreas da safra 2015/16 de soja começaram a ser colhidas em Mato Grosso e os resultados iniciais são decepcionantes. Com a falta de chuvas e as altas temperaturas dos últimos meses, as lavouras da oleaginosa de ciclo precoce estão contabilizando produtividades, em alguns casos, até 70% abaixo da média esperada para o Estado, maior produtor nacional de grãos. Ainda assim, persiste a expectativa dos agricultores de que as chuvas mais recentes possam minimizar as perdas por hectare até o fim da temporada. 
   "O prejuízo foi maior em áreas plantadas entre setembro e outubro, que pegaram a seca no estágio reprodutivo da planta. As perdas nessa fase são praticamente irreversíveis", explica Endrigo Dalcin, presidente da Aprosoja-MT, associação que representa os produtores locais. 
   A soja precoce, que da semeadura à colheita leva até 100 dias, tem aumentado sua fatia em Mato Grosso porque amplia a janela para o cultivo da segunda safra de milho (a safrinha), feito na sequência. Atualmente, essas variedades de ciclo mais curto representam entre 30% e 35% do plantio de soja no Estado. 
  A situação é mais grave nas regiões médio-norte e leste de Mato Grosso, onde a estiagem foi exacerbada pelo fenômeno climático El Niño. Mesmo que a área colhida até o momento seja "insignificante", conforme Dalcin, os primeiros números de produtividade são um termômetro importante do que está por vir. 
   No início de dezembro, o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) reduziu em mais de um milhão de toneladas sua previsão para a safra 2015/16 de soja no Estado, a 28,03 milhões de toneladas – o equivalente a quase 30% da produção nacional. "E essa projeção poderá cair novamente", adianta Dalcin. Se confirmado o número, será a primeira queda na produção de soja em Mato Grosso desde o ciclo 2006/07.  
   Nos últimos 15 dias, as chuvas retornaram ao Estado, mas não em volume suficiente para aplacar os danos causados pelas precipitações irregulares desde o início desta safra, que levaram umidade a algumas plantações mas deixaram outras sem um pingo d’água por semanas. "Algumas lavouras estão com produtividade de 15 sacas por hectare", afirma Antonio Galvan, presidente do Sindicato Rural de Sinop.
   O Imea previa no mês passado uma média de 51 sacas por hectare na região, mas o número deve ser atualizado nos próximos dias. Mesmo os plantios com pivô de irrigação sofreram com a elevada insolação, que deixou a terra com até 60oC de temperatura e reduziu o rendimento das primeiras colheitas abaixo das 50 sacas, quando deveriam passar de 60 sacas. 
   
   Em Sorriso, maior município produtor de soja do país, a expectativa é de uma quebra de 25% a 30% na produção, para 1,5 milhão de toneladas. Conforme Laercio Lenz, presidente do sindicato rural da cidade, as primeiras colheitas registram rendimento de 30 a 40 sacas por hectare, mas há áreas piores, com expectativa de menos de 10 sacas. 
   Em Lucas do Rio Verde, mesmo quem plantou soja de ciclo mais longo também enfrenta perdas. "Ficamos de 30 a 40 dias sem chuvas. Soja de 50 sacas [por hectare], não ouvi nenhuma nessa safra ainda", conta Carlos Alberto Simon, também à frente do sindicato rural local. Há problemas semelhantes em Nova Mutum, cidade próxima. 
   
   A disparidade nesta safra mato-grossense é tão grande que há lavouras que nem chegaram a ser plantadas no leste do Estado, em municípios como Nova Xavantina, Gaúcha do Norte, Canarana e Querência. Outras, precisaram ser replantadas. 
   Mesmo fora da janela ideal, muitos agricultores ainda cogitam apostar na oleaginosa, conforme o presidente da Aprosoja-MT. "Isso porque ou já fizeram contratos de entrega futura [do grão] e têm de cumprir, ou porque têm financiamentos de custeio com bancos e precisam do dinheiro", conta Dalcin. O Imea calcula que mais de 55% da safra 2015/16 de soja já foi vendida. "Mas alguns produtores mais afoitos negociaram 70% a 80%", afirma Galvan, de Sinop. 
   
   Nas regiões oeste e sul, onde o clima foi menos perverso, as projeções são menos desapontadoras. "Não tivemos problemas com seca, apenas a chuva atrasou", diz Jorge Schuster, que cultiva soja em 200 hectares em Primavera do Leste, onde a colheita ainda não começou. 
   
   A depender do clima e da agressividade das doenças em janeiro – especialmente do fungo da ferrugem da soja, que tende a ganhar força com a maior umidade dos últimos dias -, ele acredita que o rendimento no município possa superar as 50 sacas por hectare. A expectativa na região é que a colheita ganhe ritmo em meados de fevereiro. 
 
FONTE  JORNAL O VALOR ECONÔMICO