Murray Grey tem um problema com os métodos tradicionais de criação de gado. Todo ano, num calor intenso, Grey montava um cavalo para conduzir cerca de cinco mil cabeças de gado por uma faixa do deserto australiano quase do tamanho da cidade de Campinas. Acampar sob as estrelas seria romântico, não fosse o zumbido dos mosquitos e a ameaça de répteis venenosos. O gado frequentemente perdia peso no percurso de volta para os pastos, o que reduzia os lucros de Grey. Recentemente, o vaqueiro de 30 anos vem tentando algo diferente. Ele trocou a sela pelo sofá, e seu chicote por um telefone celular. "O tempo que leva para fazer qualquer coisa a cavalo é um luxo nos dias de hoje", diz Grey. 
  A imagem do vaqueiro de chicote na mão e mascando tabaco, que atores como o americano John Wayne tornaram famosa, está sob o ataque de um inimigo muito moderno: a tecnologia. Grey e outros criadores de gado no interior da Austrália, o chamado Outback, fazem parte de um experimento que usa dados coletados por satélites da Agência Nacional da Aeronáutica e do Espaço dos Estados Unidos, a Nasa, para gerenciar os rebanhos. 
   As fazendas na Austrália são tão grandes e tão remotas que os fazendeiros raramente visitam as partes mais afastadas de suas propriedades. Eles veem apenas cerca de 2% de suas terras com frequência. O benefício de usar satélites e outros dados coletados remotamente é que os criadores podem monitorar o gado no pasto. 
   A Undoolya Station, a fazenda de gado mais antiga do Território do Norte, que, com seu rebanho de cinco mil cabeças, chegou a ter 20 empregados, hoje é tocada por apenas duas pessoas: Ben Hayes, de 43 anos, e a esposa dele, Nicole, de 42. Helicópteros há tempos já substituíram os cavalos na tarefa da arrebanhar o gado e, agora, até eles podem acabar sendo aposentados após uma experiência bem-sucedida com a mais recente tecnologia disponível para o setor de agronegócios. 
   O projeto no interior australiano é o primeiro do mundo a contar apenas com a tecnologia para monitorar gado de corte em áreas remotas, de acordo com uma agência do governo que está realizando a experiência em cinco fazendas. Os satélites coletam imagens diárias de cada área de 76 metros quadrados das fazendas. No solo, estações automáticas pesam os animais cada vez que eles vão ao bebedouro. Os dados são analisados por um programa de computador e enviados para os fazendeiros. Eles podem, então, verificar se o pasto é nutritivo o suficiente ou quando, exatamente, cada animal atinge o peso ideal para o mercado. 
   Hayes não acha que os pioneiros que criaram o rancho estão se revirando em seus túmulos devido à mudança tecnológica. Segundo ele, em uma entrevista muitos anos atrás, seu avô elogiou conveniências modernas como o ar condicionado, a eletricidade e a geladeira. Mas nem todo mundo está satisfeito. Em férias recentes à Nova Zelândia, Grey checou seu gado usando o celular enquanto cuidava das crianças, o que levou sua esposa a reclamar: "Não dá para deixar o trabalho em casa?", disse ela. Grey, acanhadamente, também admite ter usado o laptop para saber como andava o rebanho durante sua lua- de-mel na Irlanda, em 2013. 
   O uso da tecnologia no deserto também tem seus problemas. As temperaturas de mais de 40 graus Celsius podem afetar os painéis solares que geram energia para as balanças de pesagem e também os sensores eletrônicos colocados nas orelhas dos animais. Tempestades de areia também são frequentes na região. E bandos de cacatuas – um papagaio nativo – frequentemente mastigam os fios elétricos que conectam o equipamento. 
   Mas convencer muitos fazendeiros dos benefícios da tecnologia talvez seja o trabalho mais difícil, diz Sally Leigo, que lidera o time de pesquisadores da iniciativa do governo australiano para encorajar o uso de dados coletados remotamente. No começo, alguns não acreditavam que o gado acostumado a ficar em grandes trechos de terra sem contato humano pudesse usar as balanças de pesagem, que requerem que os animais atravessem um portão estreito para acessar os bebedouros, diz ela. Grey diz que há gente que "sequer vai tocar" na tecnologia. "Mas nós podemos avaliar como ela faz diferença, e ela está rendendo mais quilos de carne." 
   A Austrália só fica atrás do Brasil entre os maiores exportadores de carne bovina do mundo. Legisladores e fazendeiros acreditam que o país poderia se tornar um importante fornecedor para a Ásia, onde as pessoas estão cada vez mais acrescentando proteína às suas dietas. 
   Entretanto, o ambiente frágil do deserto australiano tem sido um obstáculo aos esforços para aumentar a produtividade dos rebanhos e das lavouras da região. Uma boa parte do norte da Austrália é vulnerável à falta de água. Uma seca que afetou a área entre 2001 e 2009 forçou muitos fazendeiros a abandonar suas terras para sempre e contribuiu para o aumento das dívidas agrárias. Especialistas dizem que a tecnologia pode ajudar a conquistar o terreno estéril da região, que em algumas partes se parece mais com Marte do que com a Terra. 
   "Detestaria dizer que é o fim do estereótipo do tropeiro", diz Simon Talbot, presidente da Federação Nacional dos Fazendeiros da Austrália. "Mas, com certeza, as pessoas precisam ter uma nova mentalidade sobre como operar no vasto panorama australiano." A fazenda de Grey, de cerca de 200 mil hectares, fica a duas horas e meia da cidade mais próxima, incluindo mais de 80 quilômetros de estrada de terra. Produtos frescos chegam uma vez por semana de caminhão. Como vão ser os vaqueiros do futuro se as fazendas puderem ser administradas com o clique de um mouse? Há tarefas que os computadores não podem fazer, disse Grey em uma manhã recente, ao sair para remover esterco de seus caminhões.  
FONTE JORNAL O VALOR