Apesar da forte queda dos preços dos grãos e de sinais de alerta que podem ter efeito negativo sobre a demanda por biocombustíveis no médio prazo, sobretudo a partir do desenvolvimento do gás de xisto nos EUA, a agricultura brasileira deve ter outro ano positivo em 2014. Essa é a avaliação do coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues.
 
“As principais commodities ainda estão com estoques mundiais menores do que os estoques históricos, o que cria um colchão de renda, dado que os preços continuam acima da média histórica recente “ – afirmou Rodrigues.
 
Além disso, a valorização do dólar, diante do real deve ajudar a compensar as cotações mais baixas da soja e do milho, fruto da recomposição de oferta após a safra recorde  obtida nos EUA.

 
“As perdas eventuais que vamos ter no valor das commodities podem ser compensadas pela valorização cambial”, disse Rodrigues. Segundo ele, o cenário é mais róseo para os produtores de soja do país do que para os de milho, que devem amargar queda nas exportações devido à concorrência com o grão produzido nos EUA, maior exportador global da commodity.

 
Na safra 2012/13, colhida no ano passado, as exportações brasileiras de milho atingiram o recorde de 26,2 milhões de toneladas, segundo dados do Ministério da Agricultura. No período, o Brasil exportou milho até mesmo para os EUA, que sofriam com a escassez do cereal após a já histórica estiagem que atingiu as lavouras do meio-oeste americano em 2012. Agora, há uma oferta abundante do milho, o que tende a dificultar exportações brasileiras.
Se o cenário é mais difícil para os produtores de milho, é positivo para o setor de carnes que deve se beneficiar da redução das cotações do cereal, segundo o ex-ministro. “A demanda por carnes é crescente. Então, se os preços do grãos caírem um pouco em dólar, vai melhorar o resultado dos produtores de carne e agregar valor na cadeia”, observou.

 
Na avaliação de Rodrigues, nem mesmo a desaceleração do crescimento da China, principal responsável pelo boom de commodities iniciado nos anos 2000, será prejudicial para o agronegócio brasileiro em 2014.

 
“Tenho a impressão que o problema China não existe no curto prazo. A China diminuiu o crescimento, mas a demanda por alimentos é inelutável”, afirma ele. Além disso, o processo de urbanização do gigante asiático é um dado da realidade que só contribui para elevar a demanda, pois mais gente deixa de produzir para o próprio consumo.

 
Apesar de seu otimismo sobre o desempenho da agricultura brasileira, Rodrigues considera que existem três importantes culturas agrícolas em dificuldades no país: café, cana de açúcar e laranja.

 
Para além do curto prazo, o ex-ministro vê alguns riscos de perturbações no mercado de grãos. Em sua avaliação, as regras americanas e europeias para biocombustíveis podem sinalizar menor demanda por grãos para produzir biocombustíveis no futuro. Segundo ele, o desenvolvimento do gás e do óleo oriundos do xisto embaralha o futuro dos biocombustíveis. “Surgiu uma variável nova, mais imediata”, afirmou. Notório defensor da agroenergia, Rodrigues não entrega os pontos: “o xisto é fóssil e um dia vai acabar”.

 
Fonte: Jornal Valor econômico, resumida e adaptada pela Equipe BeefPoint.