A regulamentação da destinação de carcaças de animais mortos em propriedades rurais pode significar um novo salto para a indústria de reciclagem animal brasileira. O processamento dos resíduos pode aumentar 13,6% e incrementar a produção de farinhas, adubos e gorduras animais. Além disso, representa ganhos ambientais, como a redução da emissão de gases do efeito estufa e da contaminação de lençóis freáticos. O tema tem sido intensamente discutido entre o setor produtivo e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), que deve editar uma Instrução Normativa em breve para resolver a questão.
 
Em agosto, uma audiência pública realizada na Assembleia Legislativa do Paraná abordou os benefícios para o país com a criação de uma legislação específica para a coleta e transporte de carcaças de animais mortos em propriedades e granjas. Na ocasião, o coordenador técnico da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (ABRA), Lucas Cypriano, justificou a necessidade da urgente regulamentação do tema no país. A proposta da entidade segue recomendação da Organização Mundial para a Saúde Animal (OIE), que trata a reciclagem como atividade de interesse público ao transformar animais e parte de animais em farinhas e gorduras seguras e aptas para uso em dietas de animais como para outros fins, como biodiesel, higiene e limpeza, adubos e vernizes.
O aproveitamento de aves, suínos, bovinos e peixes mortos em propriedades rurais faria o país aumentar o processamento anual de resíduos animais dos atuais 12,5 milhões de toneladas para 14,2 milhões de toneladas. Número ainda tímido perto do alcançado pelos Estados Unidos, 36,4 milhões de toneladas. Nas Américas, também se destacam Canadá, Chile e México no processamento de carcaças de campo. Historicamente, a reciclagem consegue fixar gases de efeito estufa reaproveitando nutrientes valiosos como proteínas, energia e minerais para rações de aves, suínos, peixes, camarões, cães e gatos e, no Brasil, fornece 20% da matéria-prima para o Plano Nacional de Produção de Biodiesel (PNPB).
 
Os 1,7 milhões de toneladas a mais, com as carcaças, seriam: 980 mil toneladas de bovinos, 410 mil toneladas de aves, 320 mil toneladas de suínos e 20 mil toneladas de peixes. Segundo estimativas da ABRA, isso impulsionaria o segmento de reciclagem, com produção de 510 toneladas de farinhas e/ou adubos e 380 milhões de litros de gordura animal a mais por ano. Para tanto, a entidade defende critérios claros para a coleta e destinação de cada tipo de animal e estado de preservação.
 
O meio ambiente seria mais um beneficiado com uma lei específica para coleta, transporte e processamento das carcaças. A gordura animal deixaria de ser compostada ou enterrada, como é atualmente, diminuindo a emissão dos gases metano e carbônico. Os custos para produtores e prefeituras realizarem o enterramento dos animais mortos não existiria mais, além dos riscos que o ato representa para a saúde humana. Fauna e flora também ganhariam com a destinação desses resíduos para a reciclagem, reduzindo a contaminação de espécies silvestres, de pastos e de lençóis freáticos. A rastreabilidade da cadeia de produção de carnes, importante quesito para a exportação de proteína pelo Brasil, ficaria ainda mais segura, acabando com as brechas para a clandestinidade.
 
 
Oportunidades
A regulamentação da destinação das carcaças de animais mortos nas propriedades pode gerar alternativas viáveis e sustentáveis para o produtor rural e para a indústria de reciclagem. Lucas Cypriano destacou algumas técnicas que podem ser utilizadas, como o congelamento, acidificação, alcalinização e ensilagem. Com esses métodos, se garante segurança no manejo e transporte dos animais.
Segundo o setor, a legislação adequada seria uma harmonização da Instrução Normativa 34/2008 e o Riispoa (Regulamentação da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal).
 
 

 
Assessoria de Comunicação ABRA