Iris m. Kawauchi, nilva k. Sakomura2, bruna a. Loureiros, edney p. Silva4, Aline rebalato5, cristianaf. F.Pontieri1, aulus c. Carciofi6
 
Após grande expansão inicial em volume produzido, com crescimento de mais de 8% em produção ao ano, o mercado Pet Food encontra-se hoje mais amadurecido e com maior competitividade entre as empresas. Nos últimos anos, em função da dificuldade de expansão em volume de vendas, as empresas têm sido obrigadas a direcionar seus esforços de crescimento em faturamento por meio da criação e diferenciação de novos produtos, que tenham maior valor agregado. A implantação de boas práticas de fabricação e especialização e competitividade do mercado têm proporcionado também resultados positivos sobre as características nutricionais das rações. Neste cenário , a demanda por matérias-primas de qualidade tem crescido e como alimentos industrializados para cães e gatos utilizam como base ingredientes de origem animal, o conhecimento da qualidade e do valor nutricional da farinha de carne e ossos (FCO) e da farinha de vísceras de aves (FVA) é crucial para a indústria petfood.
 
Além disso, nos últimos anos, têm-se tornado cada vez mais importante que o incremento da produção científica esteja vinculado ao desenvolvimento de tecnologias capazes de minimizar o impacto ambiental causado pelo desenvolvimento, muitas vezes desordenado. Os subprodutos oriundos da indústria de processamento animal são um exemplo deste compasso entre desenvolvimento científico e econômico e geração de resíduos considerados potenciais agente poluentes. Por muitos anos, compunham parte do elo da cadeia produtiva, reciclando-se dentro do processo fabril. Entretanto, com o veto à utilização de subprodutos de origem animal na alimentação de ruminantes, houve grande interesse na busca por alternativas que possibilitassem o uso racional destes ingredientes. Neste contexto, a indústria de alimentos para animais de companhia é uma grande consumidora de tais matérias-primas, o minimiza os efeitos negativos da utilização e/ou descarte inapropriados que estes materiais poderiam causar ao meio ambiente.
 
De acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de alimentos para animais de Estimação (Anfalpet)¹, em 2011, a indústria brasileira produziu 1,98 milhões de toneladas de alimentos para cães e gatos, proporcionando faturamento de R& 8,209 bilhões. Considerando que pelo menos 30% a 35% das rações para cães e gatos são constituídas por derivados de origem animal, estima-se consumo de, aproximadamentem 600.000 toneladas de farinhas animais pelo setor petfood, o que insere de forma importante este segmento na cadeia produtiva de proteína animal do país.
 
Além disso, para cães e gatos, de forma geral, ingredientes proteicos de origem animal possuem melhor balanço de aminoácidos essenciais quando comparados às matérias-primas de origem animal vegetal2,3. Contudo, a literatura revela que existe divergência quanto à qualidade e digestibilidade de farinhas de subprodutos de origem animal4,5,6,7. Tal fato pode ocorrer em virtude de diferenças na concentrações de proteína, minerais e gordura, além do processamento que o ingrediente foi submetido8,9,10.
 
Assim, a maior dificuldade relacionada à utilização dos ingredientes de origem animal vem sendo a diversidade dos produtos, que apresentam padrões nutricionais e de qualidade bastante distintos. Variações nas proporções empregadas de diferentes tecidos animais e na qualidade destes, bem como no processamento adotado na indústria de farinhas tornam bastantes distintas a qualidade sanitária e o valor nutricional dos ingredientes. Grandes variações de qualidade podem ser verificadas entre diferentes produtores e mesmo entre partidas de uma mesma empresa.
 
Constata-se, portanto, que a farinha de carne e ossos e a farinha de vísceras de aves são importantes fontes de proteínas em dietas para cães, porém apresentam grande variabilidade de composição nutricional, o que se reflete no aproveitamento de seus nutrientes11,12,13 e dificulta a formulação de dietas.
 
Em pesquisa realizada na UNESP, campus de Jaboticabal, objetivou-se estabelecer equações de predição da energia metabolizável (EM) da FCO e da FVA para cães com base em seus constituintes químicos e na solubilidade da proteína dos alimentos em pepsina. Foram estudadas FCO e as FVA comercializadas no estados de São Paulo e, para tanto, procedeu-se à ampla amostragem de tais matérias-primas, sendo selecionadas, com base na composição química das mesmas, oito FCO e oito FVA para serem avaliadas em ensaio de digestibilidade.
 
Foram realizados dois ensaios de digestibilidade, um em cada matéri-prima, pelo método de coleta total de fezes e urina14 e a energia metabolizável (EM) dos alimentos determinados poelo método da substituição15. Em cada ensaio foram utilizados 18 cães adultos da raça beagle, distribuídos em delineamento em bloco casualizados, com três blocos (período), nove dietas e duas repetições por dieta. Formulou-se uma dieta basal e dietas teste foram obtidas pela mistura de 70% da dieta basal e 30% de cada uma das farinhas avaliadas. Além disso, foi determinada a solubidade da proteína dos ingredientes em pepsina na concentrção de 0,02% (tabela 1).
Tabela1 Composição química, energia metabolizável e coeficientes de solubilidade da proteína de farinhas de carne e osso (FCO) e de farinhas de vísceras de aves (FVA) comercializadas no estado de São Paulo (média ± desvio padrão)

 
 
 

ITEM

FCO

FVA

ITEM

FCO

FVA

ITEM

FCO

FVA

Umidade, %

7,8±1,42

5,9±1,40

EEA, %

12,5±1,96

14,0±1,36

EM, KCAL/g

2,24±0,29

3,78±0,28

MM, %

37,4±4,92

13,2±3,97

Ca, %

13,9±1,81

3,4±0,92

S. Pepsina

86,4±4,38

79,4±4,91

PB, %

43,6±2,70

61,9±4,04

P,%

6,9±0,72

2,3±0,47

0,2%

 

 

Colágeno, % da PB

29,7±2,87

12,0±2,51

EB, Kcal/g

3,31±0,34

4,84±0,19

 

 

 

 
 
As equações de predição da EM foram estabelecidas para cada farinhas, como base na composição em matéria seca, matéria orgânica, proteína bruta, colágeno, extrato etéreo hidrólise acída, cálcio, fósforo e energia bruta das mesmas, além da solubilidade da proteína da FCO e FVA em pepsina a 0,02%. Posteriormente, os dados de ambas farinhas foram avaliados em conjunto., estabelecendo-se modelos gerais, aplicáveis tanto à FCO com FVA. As equações foram estimadas por meio de nálises de regressão linear múltipla no programa estatístico SAS16(P<0,05).
 
Observou-se que o teor de EEA foi o principal preditor da EM dos alimentos, compondo a quase totalidade dos modelos. As equações específicas para FCO ou FVA apresentaram pouco ajuste aos dados, explicando somente 50% da variação nos valores EM determinados em ensaio de digestibilidade. Equações de predição da EM aplicáveis tanto à FCO como a FVA apresentaram melhor ajuste e foram expressas por (kcal/g alimento): EM ¹= – 0,727 + (0,039 *% PB) + (-0,049*%colágeno) + (0,066*% EEA) + (0,022*/Solubidade em pepsina 0,02), R2= 0,898, WMres.= 0,275; EM2=- 2,012 + (0,076* % PB) + (0,078*%EEA), R2=0,894, QMres. = 0,280. A escolha pelo melhor modelo, entretanto, dependerá das informações disponíveis em cada situação específica.
 
Agradecimentos ao CNPQ e aCapes pela bolsa de estudos, a Grandfood Ind. E Com. Ltda. (premier Pet), à Mogiana Alimentos S/A (Guabi) e à Fapesp (processo 2010/13065-5).
 
Referências
1 Associação Nacional dos Fabricantes de Alimentos para Animais de Estimação (ANFALPET). As perspectivas do mercado pet brasileiro em 2012. Disponível em:HTTP://anfalpet.org.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=1163:as-perspectivas-do-mercado-pet-brasileiro-em-2012&catid=16:noticias-externas&itemid=1.
Acesso em 01 de março de 2012.
2 NEIRINCL, K.;ISTASSE, L.; GABRIEL, A.; EENEEME, C.V.; BIENFAIT, J.M. Amino acid composition and disgestibility of four protein sources for dogs. Journal of Nutrition, v.121 p.S64-S65,1991.;
3CLAPPER, G.M.; GRIESHOP, C.M.; MERCHEN, N.R.; RUSSET, J.C.; BRENT-JR., J.L.; FAHEY-JR.,G.C.Ileal ando total tract nutrient digestibilities and fecal characteristics of dogs as affected by soybean protein inclusion in dry, extruded diets. Journal of Animal Science, v. 79, p. 1523-1532,2001.
4PARSON, C.M.; CASTANON, F.; HAN, Y. Protein and aminoacid quality of meat and bone meal. Poultry Science, v.76, p361-368, 1997.
5JOHNSON, M.L.; PARSONS, C.M.; FAHEY JR., G.C.; MERCHEN, N.R,; ALDRICH, C.G. Effects of species raw material source, ash content, and processing temperature on amino acid digestibility of animal by-product meals by cecectomized roosters andi ideallycannulated dogs. Journal of Animal Science, v.76,9.112-1122,1998.
6SHIRLEY, R.B.; PARSON, C.M. Effect of ash content on protein quality of meat ainda bone meal. Poutry Science, v.80, p.626-632,2001.
7RAVINDRAN, V.; HENDRIKS, W.H.; CAMDEN, B.J.; THOMAS, D.V.; MOREL, P.C.H.; BUTTS, C.A. Amino acid disgestibility of meat ando bone meals for broiler chickens. Australian Journal of Agricultural Research, v.11, p.1257-1264,2002.
8SKURRAY, G.R.;HERBERT, L.S.Batch dry rendering: influence of raw materials and processing conditions on meat meal quality. Journal of Science of Food and agriculture, v. 25, n.9, p.1071-1079, 1974.
9JOHNSON, M.L.; PARSONS, C.M. Effects of raw material source, ash content, and assay length on protein efficiency ratio and net protein ratio values for animal protein meals. Poutrly Science, v.76, p 1722-1727, 1997.
10HENDRIKS, W.H.; BUTTS, C.A.; THOMAS, D.V.; JAMES, K.A.C.; MOREL, P.C.A.; VERTESTEGEN, M.W.A. Nutrition quality and variation of meat and bone meal. Asian-Australasian Journalof Animal Sciences, v.15, n.10, p.1507-1516,2002.
11JOHNSON, L.L.; PARSONS, C.M.; FAHEY Jr., G.C.;MERCHEN,N.R.; ALDRECH, C.G. Effects ps species raw material source, ash content, and processing temperature on amino acid digestibility of animal by-product meals by cecectomized roosters and ileallycannulated dogs. Journal of animal Science, v.76, p.1112-1122, 1998.
12HENDRIKS, 2W.H.; BUTTS, C.A.; THOMAS, D.V.;JAMES, K.A.C.; MOREL, P.C.A.; VERSTEGEN, M.W.A. Asian-Australasian Journal of Animal Science, v.15, n10, p.1507-1516,2002.
13DOZIER, W.A.;DALE, N.M.; DOVE. C.R. Nutrient Composition of feed-grade and and pet-food-grade poultry by-product meal.journal of applied Poultry Research, v.12, p. 526-530,2003.
14ASSOCIATION OF AMERICAN FEED CONTROL OFFICIALS (AAFCO). Official Publication 2004. Association of American Feed Control Officials, Oxford, 2004.
15SAKOMURA, N.K.; ROSTAGNO, H.S. Métodos de pesquisa em nutrição de monogástricos. Joboticaba: FUNEP, 2007.283 p.
16SAS INSTITUTE. SAS onlinedoc 9.13 Cary. 2004.
 
¹GrandFood Indústria e Comércio Ltda, ikauachi@premierpet.com.br
²Docente do Departamento de Zootecnia, FCAV-UNESP, Jaboticabal
³Programa de Pós-Graduação em Zootecnia, FCAV-UNESP, Jaboticabal
⁴ Pós-Doutorando d Departamento de Zootecnia, FCAV-UNESP, Jaboticabal
⁵Zootecnista
⁶Docente do Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinária, FCAV-UNESP, Jaboticabal
 
 

 Fonte: Revista Pet Food – Editora Stilo – Páginas 63-63.