A produção da indústria brasileira caiu 2,8% em dezembro – na comparação com o mês anterior – e encerrou o ano de 2014 com queda acumulada de 3,2%, segundo dados divulgados nesta terça-feira (3) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
 
 
Esse é o pior resultado desde 2009, quando a retração foi de 7,1%. Frente a dezembro de 2013, queda foi de 2,7%.
“Os resultados de dezembro expressam bem o que foi o ano de 2014 para o setor industrial. Há predominância de resultados negativos. Na margem da série – passagem de novembro para dezembro – há queda de 2,8 no total da indústria. Lembrando que é o segundo resultado negativo consecutivo. E esse resultado é o negativo mais intenso desde julho de 2013, havia recuado 3,6%”, analisou André Luiz Macedo, gerente da Coordenação da Indústria do IBGE.
 
 
O resultado de dezembro foi influenciado pelo mau desempenho da maioria dos ramos pesquisados. De novembro para dezembro, caíram as produções de veículos automotores, reboques e carrocerias (-5,8%), máquinas e equipamentos (-8,2%) e coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (-2,5%). Também recuaram as produções de têxteis (-12,0%) e de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-4,6%). 
 
 
Nessa base de comparação, só aumentaram as atividades de artigos do vestuário e acessórios (8,7%), perfumaria, sabões, detergentes e produtos de limpeza (2,3%), bebidas (2,8%) e indústrias extrativas (0,5%).
 
 
A queda foi generalizada entre as categorias de uso. Recuaram as produções de bens de capital (-23,0%), de bens de consumo duráveis (-2,2%), de bens de consumo semi e não duráveis (-1,7%) e de bens intermediários (-0,8%).
 
 
De acordo com o gerente do IBGE, o recuo de 23% de bens de capital – de novembro para dezembro – é a maior queda desde janeiro de 2012, quando caiu 23%.
“Muito da explicação [da queda de dezembro] tem relação com equipamento de transportes, a parte de automóveis e caminhões. Concessão de férias coletivas, redução de jornada de trabalho, número menor de pessoas trabalhando, traz pressão negativa importante para justificar essa magnitude de queda bastante importante”, explicou o especialista.
 
 
“Para o ano de 2014, mesmo com manutenção de redução de IPI, devido à série de fatores que passam desde endividamento das famílias, taxa de inadimplência, de repente uma falta de capacidade de adquirir novos endividamentos e encarecimento do crédito, isso afeta de forma importante o consumo e automaticamente a produção”, explicou André.
 
 
Queda recorde de veículos
 

Durante o ano, a indústria também apresentou resultados negativos. A maior parte dos setores mostrou números menores em relação aos registrados em 2013. Assim como ocorreu em dezembro, o principal impacto negativo partiu de veículos automotores, reboques e carrocerias (-16,8%).
Segundo Macedo, o resultado de -16,8% no acumulado de 2014 dos veículos automotores, reboques e carrocerias é o pior resultado desde o início da série, iniciada em março de 2002.
Na esteira, estão ainda metalurgia (-7,4%), produtos de metal (-9,8%), máquinas e equipamentos (-5,9%), outros produtos químicos (-3,6%) e máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-7,2%), entre outros.
 
 
Na contramão, entre as que que conseguiram mostrar taxas positivas estão: indústrias extrativas (5,7%) e coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (2,4%).
A produção de bens de capital caiu 9,6%, a de bens de consumo duráveis, 9,2%, a de bens intermediários, 2,7%, e a de bens de consumo semi e não-duráveis, 0,3%.
 
 
Copa do Mundo
 

De acordo com Macedo, a Copa do Mundo apresentou reflexos positivos nos segmentos de bebidas e televisores quando analisa o ano de 2014 para o setor fabril, no entanto, “são dois segmentos dentro de um universo muito maior”.
"Quando observa alguns efeitos isolados, claro que tem algum efeito positivo, mas a paralisação por conta dos jogos, a redução da jornada de trabalho e dias úteis, claro que isso para aqueles meses de junho e julho, teve reflexo negativo para o comportamento da indústria naquele período. Quando consolida o ano, naqueles fatores que a gente vem justificando porque está caindo, é é mais um dos que tem esse feito, mas é claro que ele não é o principal.”
 
 
Segundo Macedo, a maior penetração de produtos importados também contribui, de certa forma, para o resultado negativo ao longo do ano. "De alguma forma, há uma substituição da produção interna pela produção do mercado externo, mas em termos práticos, o mercado de trabalho dentro da indústria de forma acaba tendo reflexos desse menor dinamismo que a produção industrial acaba nos mostrando", afirmou.
 
 
Mercado de trabalho
 

Diante desses resultados negativos, o mercado de trabalho também é afetado. “É claro que ter uma indústria com comportamento em queda traz algum tipo de reflexo para o mercado de trabalho. As pesquisas que mensuram o mercado de trabalho dentro do setor industrial mostram um comportamento de queda ao longo de 2014, é claro que se traz reflexos sobre esse mercado.”
 
 
Comparação anual
 

Sobre o resultado negativo de 2,7%, frente a dezembro de 2013, Macedo analisou que “já são dez meses de resultados negativos em sequência. Outro ponto importante: o dezembro de 2013 era uma base fraca, uma vez que havia mostrado taxa negativa, diferente dos outros meses de 2013”.

 

“E outro ponto importante é que dezembro de 2014 tem efeito calendário positivo. Teve um dia a mais do que dezembro de 2013. Essas características acabam confirmando um pouco desse resultado da margem. Mesmo com um dia útil a mais, ainda assim o resultado foi de queda para o total da indústria."
 
 
Fonte: G1