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Ao mesmo tempo em que o Japão está quase abrindo seu mercado, a cota 481 parece estabilizada e o Egito pode se somar às compras de carne e gado em pé do país, os dois maiores fornecedores de carne do mundo em volume – Brasil e Índia – atravessam problemas tão fortes quanto imprevistos.
As tensões religiosas vêm aumentando na Ásia e, em particular, nos países onde o islã está presente, mas não era possível prever que isso derivaria em um impacto sobre o mercado de carne. E, no entanto, pode-se ver uma das notícias mais fortes do ano e, talvez, a menos previsível para o mercado internacional de carnes. Na Índia, o negócio de carne está dominado pelos muçulmanos, que são 15% da população e cuja relação com a maioria hinduísta é cada vez mais complicada. Nesse marco, pode-se entender a ofensiva anti-carne bovina do governo nacionalista que pode deixar fora do mercado nada menos o principal exportador mundial de carne.
O certo é que o Presidente da Índia considera que abater gado para produzir carne não é adequado ao espírito e convicções religiosas da Índia e decidiu avançar na proibição aos abates com esse destino. A base legal está no artigo 48 da Constituição da Índia que estabelece que “o Estado tratará de organizar a agricultura e a pecuária em linhas modernas e científicas e, em particular, adotará medidas para preservar e melhorar as raças e proibir o sacrifício de vacas e bezerros e outros gados bovinos e de leite”. Embora a Índia não seja um concorrente nos mercados que o Uruguai abastece, por seu volume, uma eventual interrupção das exportações deixaria um espaço tão importante que o impacto seria sentido.
A Índia representa 20% das exportações mundiais de carne através da venda de carne de búfalo, que ficaria incluída na proibição que o governo promove. O processo judicia, no entanto, não está definido, mas alguns analistas veem a proibição como um desenlace possível. “Tudo parece indicar que proibirão a venda de qualquer tipo de gado para abate”, disse o analista da consultora Mecardo – Expert Market Analysis, da Austrália, Matt Dalgleish. A Índia alterna com o Brasil a liderança na exportação de carne a nível mundial. No caso do país asiático, as exportações são de carne de búfalo e seus mercados são principalmente os países muçulmanos. A proibição envolve bovinos, búfalos e camelídeos. Somente podem ser comprados por agricultores para tarefas agrícolas, ou seja, para arar ou puxar carroças. O abate de gado bovino ou búfalos vem causando tensões cada vez maiores há muito tempo na Índia. Alguns estados já proibiram, outros se opõem firmemente a uma proibição nacional. Dos 28 estados do país, 18 proíbem o abate de gado, três requerem uma permissão prévia e sete têm o abate “legalizado”. Se a Índia der andamento a essas restrições, o principal beneficiário seria o Brasil, já que é o país que mais compete com a Índia nesse mercado de preços baixos que formam os países muçulmanos. Porém, isso poderia levar a uma menor disponibilidade de carne do Brasil em mercados como a China, ou à abertura de oportunidades para a carne uruguaia nos mercados que até agora o país tinha presença escassa, como Vietnã e Indonésia. A saída da Índia teria um impacto tal que também se espera que incida sobre o mercado mundial de couros, que a Índia abastece 13%, aproximadamente. A proibição, no entanto, não está vigente e alguns estados em que o consumo de carne é hábito já anunciaram que se oporão. É o caso de Kerala, onde o consumo é parte importante da dieta. Ainda que o governo da Índia tenha dito que a medida de proibir a venda de gado para abate seja para “prevenir o comércio descontrolado de animais”, considera-se que somente inclui bovinos. Apesar de ser parte do discurso nacionalista do partido no governo – Bharatiya Janata Party -, alguns estados vêm aumentando as penas sobre o abate de gado. No estado de Gujarat, desde março passado, abater gado pode terminar em prisão perpétua do abatedor. Por outro lado, prosperam grupos irregulares de guardiões que foram golpeados e assassinados por consumir carne, abater ou contrabandear o gado aos estados onde o abate é legal. Geralmente, os muçulmanos são os atacados, para os quais não há problema comer carne bovina, mas sim, não podem comer carne suína. A decisão do governo indiano implica renunciar a uma indústria que fatura US$ 4 bilhões por ano e gera um faturamento de US$ 2 bilhões em exportações. Implica para milhões de produtores rurais que os gados adultos tenham mito pouco valor de venda, já que somente podem servir como bois para arar a terra.
De acordo com o antropólogo, Marvin Harris, a origem da proibição ao abate de bovinos deriva das múltiplas utilidades que os animais davam aos humanos: às vezes, eram usados como fertilizante e combustível, e máquina de trabalho, enquanto as fêmeas fornecem leite. Um artigo da Forbes que comentou a decisão do governo de avançar com a proibição disse que isso poderia ser um duro golpe à produção leiteira, já que se estima que 40% das receitas dos produtores de leite da Índia derivam da venda de animais que são abatidos, já que se tratam de machos ou fêmeas velhas.
 
Fonte:Blasina y Asociados, especial para o El Observador