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Iniciado em meados da década passada sob o impulso das importações de pescados de China e Vietnã, o crescimento do consumo per capita do produto ganhará contornos mais brasileiros nos próximos dez anos. Ainda que os peixes asiáticos mantenham participação relevante na mesa dos consumidores, é o aumento da produção de pescados em cativeiro no Brasil que abastecerá grande parte do avanço da demanda esperado até 2025.
 
Em linhas gerais, é o que aponta o mais recente relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), "O Estado Mundial da Pesca e Aquicultura em 2016". Se as projeções da instituição se confirmarem, o Brasil registrará o maior crescimento percentual do consumo per capita e da produção de pescados no planeta. Em volume, porém, o país ainda seguirá aquém do consumo global.
 
De acordo com as estimativas da FAO, o consumo per capita de pescados no Brasil chegará a 12,7 quilos em 2025, 32,3% mais do que os 9,6 quilos consumidos anualmente entre 2013 e 2015. Há dez anos, os brasileiros consumiam pouco mais de 6 quilos de pescados a cada ano. Em todo o mundo, o consumo per capita foi de 20,2 quilos na média dos últimos três anos. Pelas projeções da FAO, esse consumo aumentará 7,9% até 2025, para 21,8 quilos.
 
Na avaliação do presidente da Associação Brasileira de Piscicultura (Peixe BR), Eduardo Amorim, o consumo nacional pode ir além. "Em 20 anos, vai ultrapassar a carne suína",
aposta. Hoje, o consumo per capita de carne suína no Brasil se aproxima de 15 quilos por ano. Para suprir a crescente demanda, a produção de pescados em cativeiro – a aquicultura – no Brasil mais do que dobrará em dez anos, passando de 560 mil toneladas na média de 2013 e 2015 para 1,145 milhão de toneladas em 2025. Incluindo a pesca extrativa, a produção nacional crescerá 48,6% na mesma base de comparação, somando 1,972 milhão de toneladas, de acordo com a FAO.
 
Ao todo, a produção mundial de pescados (captura e aquicultura) totalizará 195,911 milhões de toneladas em 2025, incremento de 17,4% na comparação com a média anual de 166,899 milhões de toneladas produzidas nos últimos três anos, estima a FAO.
 
"A tilápia será o carro-chefe do crescimento da aquicultura brasileira", avaliou o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescado (Abipesca), Eduardo Lobo. Além disso, o empresário também vê potencial para o crescimento da produção em cativeiro dos peixes amazônicos (pirarucu, tambaqui e pintado).
 
Apesar do potencial, Lobo ressaltou que o Brasil só conseguirá atingir as projeções da FAO se houver avanços nas políticas públicas para o setor, com a criação de linhas de financiamento subsidiado voltadas à indústria processadora de pescados. "O Plano Safra hoje tem linha de financiamento ao cultivo de peixes, mas precisamos de linhas para a indústria. Afinal, não adianta ter pasto se não tiver indústria para processar", comparou, numa referência à indústria de carne bovina.
 
O executivo também defendeu que o processo de obtenção de licenças para a produção de peixes nos reservatórios das hidrelétrica seja menos burocrático. "Hoje é um odisseia", criticou. Mas a produção não será capaz de abastecer toda a demanda nacional. As importações, responsáveis por abastecer mais de 35% do consumo no Brasil, também crescerão bastante até 2025, mas em ritmo menor do que o esperado para a produção nacional. A FAO projeta que o país importará 991 mil toneladas de pescados em 2015, volume 30,9% (234 mil toneladas) maior do que a média de 757 mil toneladas importadas anualmente entre 2013 e 2015.
 
Do ponto de vista global, a China seguirá como o principal produtor e consumidor. Em volume, o país asiático é de longe o maior consumidor mundial. Na média dos últimos três anos, o consumo local foi de quase 37% da demanda global. Até 2025, a demanda chinesa crescerá 23,3%, para 66,7 milhões de toneladas, segundo as estimativas da FAO. Com isso, o consumo per capita da China deve subir de 39,5 quilos para 47,2 quilos.
 
De acordo com a FAO, a produção de pescados (pesca extrativa e aquicultura) da China crescerá 26,8% até 2025, para 78,7 milhões de toneladas. Grande parte da produção do país asiático vem da aquicultura. Pelas projeções da entidade, a produção de pescados em cativeiro somará 62,9 milhões de toneladas em 2025, aumento de quase 40%.
 
Em termos relativos, os coreanos são os que mais comem pescados no mundo. Segundo a FAO, o consumo per capita de pescados na Coreia do Sul foi de 58,4 quilos por ano, em média, nos últimos três anos. Pelas projeções da FAO, os coreanos seguirão na liderança em 2025, com um consumo per capita de 64,3 quilos por ano em 2025. Além da Coreia do Sul, Noruega, Japão, China e Vietnã completam a lista dos cinco países que mais consomem pescados, em termos per capita.
 
Na América Latina, os peruanos são os que mais consomem peixes – 21,8 quilos por ano. O Peru também é o maior produtor na região, com quase 5 milhões de toneladas por ano. Tradicional fornecedor de salmão, o Chile é o segundo maior produtor da América Latina, com 3 milhões de toneladas, segundo a FAO.
 
Fonte Jornal O Valor