Com preços recorde nos animais e abertura de novos mercados para a carne bovina em 2015, setor se prepara para um período menos otimista, mas ainda assim com boas projeçõeS.  
   Ao contrário do que ocorreu em muitos setores da economia do país, 2015 foi um ano positivo para a pecuária brasileira. Mesmo com a queda do consumo interno de carne bovina, os preços dos animais foram recordes ao longo do ano. Nas exportações, o Brasil comemorou a abertura de novos mercados, como China e Estados Unidos.  
   Entre janeiro e dezembro deste ano, o preço do bezerro subiu 16,2%, maior valorização entre todas as categorias. O desempenho foi comemorado pelo pecuarista Paulo José Padboy, que, nesta estação de monta, atingiu um índice de prenhez no rebanho de 85%, e produziu mais de 600 bezerros nelore. Todos os animais foram comercializados por um valor acima R$ 1.200.  
   O criador afirma que atualmente o mercado está comprador, e não nenhuma dificuldade em vender bezerros. “Até a própria fêmea, se a gente tiver interesse em vender, o que nós tivermos eles levam”, afirma.  
   A procura tem sido tal que, em dezembro, o bezerro em São Paulo foi comercializado por R$ 1.360, um recorde para o estado. A disparada nas cotações elevou os preços do boi magro e encareceu os custos de produção no confinamento, que teve que ser mais eficiente neste ano.  
   O pecuarista André Perrone Reis conta que vem trabalhando para alongar o período de engorda dos animais jovens, tendo o confinamento como estratégia. “Com custos competitivos, você consegue segurar mais esse animal e produzir mais arrobas nessas carcaças”, diz. 
Confinamento 
  Os confinadores, por outro lado, tiveram o poder de compra reduzido ao longo do ano. Entre janeiro e dezembro de 2015, o boi gordo teve valorização de 1,4% e registrou a pior relação de troca da história. Em São Paulo, foram necessárias 9,25 arrobas para a compra de um bezerro desmamado.  
   A analista Lygia Pimentel, da Agrifatto Consultoria, afirma que tempos atrás a criação de bois era uma operação imobiliária, tendo havido muito incentivo e crédito para que os produtores se instalassem no Centro-Oeste e no Norte do país para explorar essas áreas. Segundo ela, a única coisa que conseguia sobreviver nessas regiões era a pecuária.  
   Com o passar do tempo, diz a analista, a necessidade de ocupar essas áreas terminou, assim como o incentivo oficial. A relação de troca entre boi e bezerro foi ficando mais estreita, à medida que a procura pelo bezerro foi aumentando, até atingir a atual proporção. 
Frigoríficos 
  A queda no consumo interno de carne bovina trouxe impactos para a cadeia produtiva, levando algumas unidades processadoras a fecharem as portas. Segundo a Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), 34 plantas foram desativadas ao longo do ano, uma redução de quase 20 mil postos de trabalho.  “34 frigoríficos foram desativados ao longo do ano”  O preço do boi subiu mais do que a carne no mercado interno. “Isso teve reflexo mais acentuado sobre os frigoríficos de menor porte”, afirma o presidente do conselho do frigorífico Minerva, Edivar Vilela de Queiroz. 
Mercado externo 
   Em junho, após anos de negociações, o setor comemorou a liberação das exportações de carne in natura de 14 estados brasileiros para os Estados Unidos. No mesmo período, o país iniciou embarques para a China. Em quase seis meses, foram embarcadas pouco mais de 81 mil toneladas ao país asiático, representando um faturamento de US$ 401 milhões.  
  No segundo semestre do ano, países como Arábia Saudita, África do Sul e Japão anunciaram o fim do embargo às importações brasileiras. Mesmo assim, o Brasil deve fechar 2015 com 1,4 bilhão de toneladas de carne exportadas, volume 7% menor do que o do ano anterior. Já o faturamento deve ser de US$ 6 bilhões, 17% a menos do que em 2014.  “Se não fosse o fraco desempenho de Hong Kong, nós teríamos alcançado os valores do ano passado, US$ 7,2 bilhões. Mas nossa expectativa é de recompor e chegar a uma taxa de sucesso de US$ 7,3 bilhões em 2016”, afirma o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), Antônio Jorge Camardelli. 
Perspectivas 
   No último trimestre do ano, os preços do boi gordo voltaram a subir. Em outubro, a arroba ultrapassou R$ 150 e atingiu a segunda maior média já registrada pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP. 
  Mas não há ambiente para euforia, de acordo o analista da MBAgro César de Castro Alves. Segundo ele, o boi está com custo alto e o mercado atravessa uma fase clara de retenção de fêmeas, o que significa um bezerro caro.  “A troca está difícil e não há lastro para um aumento ainda maior de preços, porque o consumo, que representa 70% da nossa produção, está fraco”, diz Alves. 
  Em 2016, a expectativa é que a crise na economia brasileira atinja a pecuária. Segundo o analista da Scot Consultoria Alcides Torres, os preços devem perder força no primeiro semestre do ano. “Já se observam as curvas de preço encontrando resistência. O ano deve ser bom, porém menos otimista do que tivemos em 2014 e 2015”, afirma.
FONTE  CANAL  RURAL