A ocorrência de geadas e chuvas durante a safra, sobretudo no Paraná e no Rio Grande do Sul, derrubou a produtividade e a qualidade do cereal. Com isso, o Brasil – já um dos maiores importadores de trigo do mundo – vai ter novamente que ampliar as compras do exterior. No mercado, a estimativa é de que 6,6 milhões de toneladas terão que ser importadas no ano comercial 2015/16, que começou em agosto. Trata-se do maior volume desde 2013. 
A expectativa inicial era que a colheita alcançaria 7,3 milhões de toneladas, mas diante das intempéries, a produção deve ser de 5,7 milhões, 22% menor, segundo estimativa da Safras & Mercado. Desse volume, conforme a consultoria, apenas 3,5 milhões de toneladas devem ser de trigo com qualidade para uso na indústria moageira – que vende a farinha para fabricação de pão, macarrão e biscoitos.
De acordo com a Safras, os moinhos brasileiros terão de importar 6,6 milhões de toneladas – entre grão e farinha – para fazer frente à demanda interna, de cerca de 11 milhões de toneladas. Somando-se os 3,5 milhões da produção e 6,6 milhões da importação, ainda faltarão 900 mil toneladas para atender ao consumo brasileiro. Segundo o analista da Safras & Mercado, Élcio Bento, essa diferença será suprida pelos estoques de passagem.
Se confirmado, o volume a ser importado no ano comercial 2015/16 será 24% maior do que o registrado no ciclo passado (5,3 milhões de toneladas) e o maior desde 2013, quando o país trouxe do exterior 6,642 milhões de toneladas, conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Para 2015, a estatal ainda mantém a previsão de importação de trigo em 5,3 milhões de toneladas. Para a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), que ainda não concluiu sua estimativa para o ciclo, o volume de importação certamente vai superar 6 milhões de toneladas, conforme o presidente do conselho deliberativo da entidade, Marcelo Vosnika. 
Como historicamente ocorre, a maior parte virá do Mercosul, mas será necessário trazer o cereal também de fora do bloco, afirma Bento, da Safras & Mercado. A consultoria estima que o Mercosul terá disponível apenas 4,2 milhões de toneladas para exportar a todos os destinos – sendo 3,4 milhões de toneladas da Argentina e 800 mil toneladas do Paraguai. Outro fornecedor de trigo ao Brasil, o Uruguai, também teve sua safra frustrada pela ocorrência de chuvas na colheita e não terá mais do que 400 mil toneladas, de qualidade duvidosa, para vender ao exterior, nas avaliações de Bento. 
O volume a ser exportado pela Argentina, principal fornecedor do cereal ao Brasil, ainda pode crescer 1 milhão de toneladas, para 4,4 milhões de toneladas, a depender da política de concessão de autorização de exportação adotada pelo novo presidente do país vizinho. A consultoria estima que ao menos 1,5 milhão de toneladas terão que vir de fora do Mercosul, em especial dos Estados Unidos e do Canadá. "Será um custo maior para os moinhos do país", diz Bento. Considerando o dólar a R$ 3,75, a tonelada do trigo argentino chega ao porto no Brasil a R$ 980. Esse valor para o cereal paraguaio é de R$ 720, enquanto o do trigo americano (com 10% da Tarifa Externa Comum – TEC), de R$ 1,120 mil, conforme a Safras.
Fonte : O Valor Econômico