Nem safra recorde, seca ou um maior número de chineses consumindo. Os preços de matérias-primas não estão mais sendo definidos nem pela produção nem pela demanda, mas sim pelo mercado financeiro. O alerta foi feito ontem pela ONU, que culpa especuladores pela volatilidade e pediu que Estados avaliem a possibilidade de intervir, criando taxas e atuando no mercado, da mesma forma que bancos centrais agem para conter a volatilidade de moedas.

 
Nos últimos dez anos, o volume de dinheiro usado em fundos de commodities no mercado financeiro passou de US$ 10 bilhões para mais de US$ 450 bilhões. Se não bastasse, parte do dinheiro injetado pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e pelo Banco Central Europeu (BCE) para recuperar economias está indo para apostas em matérias-primas.
 
Para o economista-chefe da Conferência da ONU para Comércio e Desenvolvimento, (Unctad), Heiner Flassbeck, a entrada de hedge funds, investidores e outros atores no mercado de commodities impede hoje até mesmo que países como a Arábia Saudita possam ter qualquer tipo de controle sobre o mercado do petróleo. ”Nem a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) consegue mais fazer frente aos mercados. Existem muitas pessoas que ainda negam que seja o mercado financeiro que domina os preços. Mas essa é a mais dura realidade”, disse Flassbeck.
 
A entidade estima que o preço de uma cabeça de gado está relacionado com a flutuação do índice S&P 500. Outra prova disso seria o fato de o preço do barril do petróleo continuar em alta, mesmo com os indícios de forte desaceleração na economia mundial. O volume de derivativos comercializados já é 20 ou 30 vezes o tamanho da produção física.
 
Governos estão pressionados a agir, diante da alta nos preços de energia e alimentos. Nesta semana, o governo francês acertou a convocação de uma reunião de emergência do G-20 em outubro para lidar com a nova alta nos alimentos. José Graziano, diretor da FAO, se reuniu com o presidente da França, François Hollande, em Paris para acertar os detalhes. Para Flassbeck, a única forma de solucionar essa realidade é criar regras para a atuação do mercado, evitando bolhas e seus estouros.
 
Fonte: O Estado de S.Paulo, resumida e adaptada pela Equipe BeefPoint.