Nesta semana a Marfrig inicia as reuniões com investidores para apresentar a sua oferta pública de ações. A empresa, em tese, vai dividir as atenções e os recursos dos investidores com outra companhia do segmento, a Minerva, que já divulgou o cronograma de sua oferta.

 
Apesar de as companhias serem concorrentes, sobretudo no mercado de bovinos, as duas operações não têm sido apresentadas dessa forma ao mercado nas conversas que antecedem o início da distribuição. Ambas querem captar recursos para melhorar suas estruturas de capital. No entanto, a situação de cada uma, do ponto de vista do mercado, é distinta.
 
A Minerva tem sido mostrada como uma história de sucesso. Não deu grandes tacadas em termos de aquisições e optou por um crescimento orgânico. Com uma operação menor, a história faz mais sentido e é mais fácil de "vender". Tanto assim que, um dia antes de sair com a distribuição, seus papéis estavam entre as maiores altas da bolsa no ano – a alta era de 133% até antes do anúncio da oferta.
 
A valorização do papel também pode ter motivado a companhia a sair com a oferta. A distribuição prevê inclusive, se houver demanda, a colocação de um lote secundário. Ou seja, uma sinalização do controlador de que a alta recente dos papéis levou a companhia a um patamar favorável à venda.
 
Já a Marfrig tem sido apresentada como uma operação de risco. A empresa lançou uma oferta grande, que corresponde a um terço do valor da companhia na bolsa e que pode oscilar de R$1,1 bilhão a R$1,6 bilhão, dependendo da colocação ou não de lotes extras.
 
Com endividamento na casa dos R$12 bilhões, esses recursos, nas contas dos investidores, seriam suficientes para pagar os juros da dívida por um ano. Se o operacional da empresa não se ajustar, isso equivale a dizer que depois desse período ela poderia ter de fazer nova captação.
 
Como se trata de uma operação mais arriscada, os investidores devem reservar quantidades menores de ações, o que pode dificultar a colocação dos papéis. Normalmente operações desse porte contam com investidores-âncora. BNDES e o fundador, Marcos Molina, poderão cumprir esse papel.
 
Por um lado, também pelo tamanho e pela urgência da empresa da operação, os investidores se perguntam se a empresa já não teria uma boa demanda sinalizada, o que a fez levar a operação à rua. Sair com essa oferta era a última opção do controlador Marcos Molina. Inicialmente, o pretendido era conseguir um sócio estratégico ou fazer uma oferta pública – mas na Seara Foods, braço do grupo dedicado a aves, suínos e alimentos processados.
 
A ideia não foi levada adiante porque a abertura de capital desse negócio poderia ser prejudicial para a Marfrig, segundo apurou o Valor. Como as maiores perspectivas de crescimento estão na Seara, investidores poderiam migrar de Marfrig para Seara, o que destruiria valor para os acionistas da controladora.
 
No entanto o mercado também identifica que a Marfrig se preparou para a oferta. Na semana passada, a companhia anunciou a contratação de Sérgio Rial, com passagens por bancos de investimentos e ex-diretor da Cargill, para assumir a Searas Foods. E já adiantou que ele vai para o comando executivo do grupo, substituindo Molina, em 2014.
 
As duas notícias, de uma só vez, às vésperas do início da distribuição, mostra uma tentativa de passar confiança, pelo menos de com um executivo com o prestígio de Rial no negócio – ele já deverá, inclusive, participar das reuniões com investidores para apresentar a oferta.
 
Também chamou a atenção dos investidores uma linha do balanço da Marfrig do terceiro trimestre. A empresa registrou um crescimento de 33,8% nos valores a receber de clientes nacionais. Houve algum questionamento no mercado se a empresa não teria adiantado parte das vendas ao clientes para aparecer com números mais expressivos no momento da apresentação da oferta.
 
Esse crescimento é atípico em relação a outros trimestre, que registraram queda nessa conta. Mas também é razoável supor que a companhia apresente resultados diferentes por conta também da aquisição de recente de ativos da BRF – Brasil Foods. Há outra ponderação também a respeito da época de final de ano, sazonalmente positiva para as vendas da empresa.
 
Desde que anunciou sua oferta, em 19 de outubro, a Minerva viu suas ações recuarem 5,35%. Já as da Marfrig, que antes do anúncio, em 24 de outubro, sofreram forte queda com as especulações de que haveria uma emissão, subiram 2,39%.
 
Fonte: Scot Consultoria