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O presidente da Fiat no Brasil Cledorvino Bellini costuma trabalhar muito e dormir pouco. Algumas noites chega a mandar e-mails de trabalho às 4 da manhã. Não é raro ele receber a resposta de outro executivo insone às 4h01. Cuidar do equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho, entretanto, não é o que vem tirando seu sono nos últimos dias. No topo da lista de suas preocupações está o futuro do Brasil diante do cenário de crise econômica mundial. "Existe uma tensão generalizada, embora o mercado ainda esteja bom", diz.

Ele não é o único presidente que está deixando de dormir por causa da situação econômica do país. Estudo conduzido pela consultora Betania Tanure com 418 dirigentes das 500 maiores empresas do Brasil mostra que esse tema é uma de suas maiores apreensões nos últimos dois meses. Em seguida, vem o acirramento da competição interna e, logo depois, aparece a crise internacional. As questões conjunturais estão acima das pessoais e das relacionadas à gestão da própria organização. "O nível de confiança caiu fortemente", afirma a pesquisadora.

Como o estudo vem sendo repetido desde 2000, é possível observar uma inversão na ordem das preocupações dos presidentes. Nos últimos anos, questões individuais apareciam sempre em primeiro lugar- como o descompasso entre a vida profissional e pessoal, além da própria empregabilidade. Em segundo plano, estavam temas vinculados à gestão e à cultura da empresa. "Os movimentos econômicos do país apareciam bem abaixo desses tópicos", ressalta Betania. O quadro agora é outro. "Só observei uma mudança de prioridades semelhante na época da eleição do Lula."

Paulo Brant, presidente da Cenibra, diz que sua preocupação em relação ao futuro do país está voltada para o médio prazo. Um dos motivos é que o setor de celulose vive um momento particularmente favorável com a alta do câmbio. "Mais de 90% da nossa produção é direcionada para a exportação", diz. O que não sai de seu pensamento ao deitar a cabeça no travesseiro todas as noites tem sido imaginar como um colapso na Europa pode afetar os rumos da economia mundial. "Quase metade do que vendemos para o exterior vai para lá", diz. A companhia faturou R$ 1,2 bilhões em 2011.

Outros temas angustiam Brant como o custo da mão de obra, os empecilhos legais que dificultam a compra de terras no país por empresas estrangeiras e problemas ligados à infraestrutura e à logística. "Há pouca ênfase na criação de um ambiente mais amigável para investimentos no país", afirma. "Temo a perda gradativa da nossa competitividade". Em sua opinião, o país parece estar se conformando com um "subdesempenho satisfatório".

Wilson Brumer, que até recentemente presidia a Usiminas e agora comanda o conselho da Omega, compartilha dos mesmos temores de Brant. "O Brasil se transformou em um país caro que inibe os investidores", afirma. A alta carga tributária, o custo e a qualificação do trabalho, segundo ele, vão comprometer a performance das companhias. Para ele, a competição é saudável, mas deve ser isonômica e isso não está acontecendo. Em relação à crise europeia, Brumer acredita que para o setor de siderurgia ela pode até significar uma oportunidade. "Mas não dá para imaginar que somos uma ilha".

Comparando com a crise iniciada em 2008, segundo Betania, a sensação entre os comandantes pesquisados é de que é difícil acreditar que a blindagem, tão comentada naquele período, possa existir atualmente. Alguns, porém, estão otimistas com a maneira como essa nova instabilidade econômica está se propagando. "Quando o Lehman Brothers quebrou, em dois dias o mercado parou", lembra Bellini da Fiat. "Hoje estamos vendo um esforço do governo para que a crise não respingue por aqui."

Com tantas preocupações vinculadas ao cenário macroeconômico, Betania diz que existe uma tendência de os presidentes descuidarem do ambiente interno de suas companhias. O empenho crescente na última década com a construção de modelos de gestão mais profissionais pode sair da lista de prioridades da agenda dos dirigentes. "Eles têm um raio de ação enorme e um grande poder de influência, por essa razão é preciso não descuidar disso", explica. Quase todas as organizações no país, segundo ela, sofrem atualmente com problemas de sucessão e preparação de lideranças que vão continuar a existir.

A falta de mão de obra qualificada é outro assunto que está tirando o sono dos presidentes no âmbito organizacional e macroeconômico. "A disputa por profissionais e a formação de pessoas têm sido problemas constantes", diz Gilberto Xandó, presidente da Vigor, que teve um faturamento de R$ 1, 3 bilhões em 2011. "A competição hoje está muito mais relacionada a ter gente capacitada para conduzir o negócio do que a ter o melhor hardware ou software."

No âmbito pessoal, a menor preocupação dos dirigentes com a própria empregabilidade, segundo Betania, é resultante do aquecimento do mercado executivo. "Eles estão sendo bastante disputados pelas empresas", afirma. Mas esse aparente relaxamento com a construção das próprias competências, para ela, significa uma visão perigosa e de curto prazo. O mesmo pode ser dito em relação à sobrecarga de trabalho.

Embora tenha caído da primeira posição em 2009 para a sexta neste ano, quase 40% dos pesquisados afirmaram que devem trabalhar ainda mais daqui para frente. Longas jornadas que podem chegar a 15 horas diárias, como a de Bellini, entretanto, parecem não assustar os comandantes. "Tenho mais maturidade e menos culpa em relação a isso", diz o presidente da Fiat. Xandó, que está prestes a completar um ano no comando da Vigor, diz que o importante é fazer o que se gosta, mesmo que isso signifique trabalhar no limite.
Fonte: Suinocultura Industrial