A disparada dos preços do milho, da soja e de seus derivados não mostra só a dependência da alta volatilidade dos preços das rações animais, a que estão expostos os produtores de frangos e de suínos. Mostra, também, a excessiva dependência de todo o setor de biodiesel no Brasil, que usa para sua produção nada menos que 79,5% de óleo de soja (veja o Confira).
 
No momento, a esticada dos preços do milho e da soja é efeito da estiagem que prejudicou as colheitas no Centro-Oeste dos Estados Unidos, de longe o maior produtor mundial. Mas esses preços estão sempre sujeitos a turbulências, ou do clima ou, simplesmente, do jogo financeiro, por se tratar de commodities altamente negociadas nos mercados futuros.
 
Quando lançado, na segunda metade da década passada, o Programa do Biodiesel pretendia aproveitar farta diversidade de matérias-primas: mamona, pinhão-manso, gordura animal, sementes de girassol e palma (dendê). Mas esses produtos não conseguiram montar uma rede de produção e distribuição tão abrangente e bem articulada quanto à da soja.
 
Em condições normais, o custo de produção do biodiesel é 60% mais alto do que o do diesel de petróleo (o poder energético do biodiesel corresponde a aproximadamente 90% do poder energético do diesel de petróleo).
 
A disparada dos preços da soja puxou o custo de produção do barril de óleo de soja a quase o dobro do custo do diesel de petróleo. Ele só se impõe na mistura porque o governo assim o determinou por lei. Hoje, combustível leva 5% de biodiesel.
 
A quebra da última safra de soja provocou queda de 4,2% da produção de biodiesel entre janeiro e junho deste ano, em comparação aos mesmos seis meses de 2011. Enquanto isso, as vendas de óleo diesel nos postos cresceram cerca de 7,0%. Mas, ao menos, não houve falta de matéria-prima para o biodiesel.
 
A safra 2012/2013 provavelmente será recorde: 82,3 milhões de toneladas, 24% mais alta do que a anterior – aponta a consultoria Safras & Mercado. A novidade é que a atual alta de preços dos grãos é o novo fator de elevação de custos. E não é coisa passageira. Os preços deverão se manter elevados por alguns meses.
 
Para Anderson Galvão, presidente da consultoria Céleres, o problema mais grave do setor do biodiesel continua sendo a excessiva dependência da soja. A produção de biodiesel em 2012 deve passar de 2,8 bilhões de litros (veja no gráfico), o que corresponde a apenas 50% da capacidade instalada do setor. Essa é a razão pela qual os produtores seguem pressionando o governo para que aumente a atual reserva de mercado, de 5% na mistura com o diesel, para 10%.
 
O setor do biodiesel no Brasil não enfrenta só as críticas de que um alimento importante como a soja está sendo desviado para a produção de combustível. Tem de carregar ainda o estigma da falta de competitividade estrutural. Os planos audaciosos que vêm da administração Lula, de adicionar 20% de biodiesel ao diesel proveniente de petróleo até 2020, se deparam não só com a falta de entusiasmo do governo Dilma com os biocombustíveis. A baixa competitividade em relação ao diesel de petróleo também é obstáculo.
 
Fonte: Estadão