Na teoria, a pecuária de precisão é apontada como um caminho a ser percorrido pelos produtores em busca de maior eficiência dos rebanhos. Na prática, a ferramenta mostra resultados expressivos em propriedades gaúchas onde a soja avança a passos largos, mesmo que o conceito da técnica esteja começando a ser difundido.
 
“Quando se fala em pecuária de precisão, muitas pessoas pensam que é algo sofisticado, um sistema baseado exclusivamente em máquinas. Mas não é uma tecnologia sozinha, é uma postura”, afirma o engenheiro agrônomo Naylor Perez, pesquisador da Embrapa Pecuária Sul.
 
Foi o que ocorreu na Agropecuária Sereno, com propriedades em Santa Maria e em São Sepé, na Região Central. Uma mudança de estratégia iniciada em 1994, com a tecnologia sendo incorporada em sistema próprio, fez com que o índice de prenhez chegasse aos atuais 90%.
 
Para aumentar a eficiência reprodutiva, a propriedade apostou na integração com a soja, que avançou dos iniciais cem hectares para os atuais 1,2 mil hectares, antecipando o período de monta para outubro. Assim, explica Marcelo Xavier, sócio-proprietário da marca, se garante maior oferta de alimento no momento de maior necessidade: “Ajustei o ciclo para a vaca parir quando há maior oferta de forrageiras.”
 
Nem por isso o zootecnista descuida da nutrição no verão. Para o período, coloca os animais em área de campo nativo diferido (sem pastejo por determinado período). Também já adquiriu estoque de feno embalado pré-seco. Com calendário fixo e metas a serem atingidas, faz a sua pecuária de precisão. Por enquanto, não pensa em reduzir a idade do primeiro serviço para os 14 meses de idade.
 
A iniciativa foi opção no Rancho Santa Zelina, em Júlio de Castilhos, onde a nutrição também fez toda diferença para chegar a 88% de prenhez.
 
Esses resultados, apresentados no dia de campo do fórum De Onde Virão os Terneiros, quando também foi visitada a Fazenda São Bento do Verde, reforçam a tese do professor Fernando Piva Lobato, do departamento de zootecnia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul de que as lavouras podem ser aliadas da pecuária. “Rastreabilidade não é só colocar o brinco e pronto”.
 
A exemplo do que ocorre no Brasil, no Uruguai, tradicional produtor de carne bovina, as lavouras avançam sobre áreas em que se cria gado de corte. Para tornar a atividade mais eficiente e atender às demandas do mercado, produtores precisam se adaptar. Durante passagem pelo Estado, onde participou da 54ª Etapa do Fórum Permanente do Agronegócio, em Santa Maria, o diretor do Programa Nacional de Investigação para a Produção de Carne e de Lã do Instituto Nacional de Investigação Agropecuária, Fabio Montossi, falou sobre pecuária de precisão. Confira trechos da entrevista concedida ao jornal gaúcho Zero Hora.
 
Zero Hora: O que caracteriza a pecuária de precisão?
 
Fabio Montossi: É o uso, ou melhor, a gestão melhorada de todos recursos da propriedade. O solo, os animais, os vegetais, os suplementos. Mas, sobretudo, significa a forma de utilização das informações e a sua gestão por meio da tecnologia de informação. Para ter propriedades sustentáveis do ponto de vista produtivo, ambiental e econômico.
 
Zero Hora: Tecnologia é essencial?
 
Fabio Montossi: Está diretamente ligada a inovação constante. Porque o conhecimento se multiplica rapidamente todos os dias. Portanto, a adaptação às mudanças e à inovação no uso da informação é parte dessa realidade dentro do estabelecimento que permite conviver com variáveis. A agricultura e a pecuária de precisão utilizam variáveis, porque podem ser medidas, para tomar mais e melhores decisões.
 
Zero Hora: Como essa ferramenta pode ajudar a manter a atividade, diante do avanço da soja?
 
Fabio Montossi: De muitas formas. Se discute como usar a genética em gado de corte. Hoje, temos avaliações que nos permitem usar bem a diferença esperada de progênie (estimativa da transferência do conteúdo genético do touro) para que se possa ter a melhor genética para o sistema de produção e para o mercado. No entanto, não se vê isso sendo utilizado. Esse é um conceito claro de pecuária de precisão.
 
Outro é a suplementação de animais. Quando é feita, precisamos de sistemas cada vez mais automatizados, que requerem menos mão de obra e permitam executar a atividade de forma rápida, sem maiores esforços. Outro exemplo é o uso de pacotes de gestão, onde se tomam as melhores decisões econômicas porque se têm informação. Mas informação é algo diferente de dado. Passa a ser informação quando alguém processa os dados para tomar uma decisão. Tudo isso está faltando.
 
Zero Hora: Existe espaço no mercado para a pecuária crescer?
 
Fabio Montossi: Sim. Está comprovado que nos próximos 20, 30 anos, o mundo precisará de mais carne. Essa demanda virá fundamentalmente de países em desenvolvimento, particularmente a Ásia, e a maior parte dessa produção virá da América do Norte e da América do Sul.
 
Zero Hora: Qual o papel da rastreabilidade? O Uruguai optou por utilizar a ferramenta em 100% do rebanho.
 
Fabio Montossi: Esse é o pacote ideal para colocar todos conceitos em um só lugar. Parece que ter rastreabilidade é só colocar os brincos e pronto. Mas não é assim. Trata-se de administrar, ter controle sobre a informação. No Uruguai, começou como uma forma de impedir a evasão de impostos. Mas se transformou em ferramenta de promoção no mercado internacional. Porque a rastreabilidade dá confiança.
 
Se tenho toda a informação, é possível saber de onde veio a carne. Os dados me dão condições de saber onde estão os animais que ganharam mais peso, os que têm mais eficiência reprodutiva. E os que estão me dando muito trabalho e pouco retorno econômico.
 
Fonte: Jornal Zero Hora, caderno Campo e Lavoura, resumida e adaptada pela Equipe BeefPoint.