O apego e a sacralidade do recesso e das férias para o Legislativo e o udiciário nos condenaram a viver o Natal não como o nascimento de uma ova era, mas como uma trégua na batalha travada pelo presidente da Câmara dos Deputados e o governo eleito.
 O regime parlamentarista implantado na marra em 2015 pela oposição derada hoje por Eduardo Cunha, a grande derrota foi não ter conseguido o oto de desconfiança, que insistem em chamar de impeachment –figura revista no presidencialismo–, mas para o qual não conseguiram achar motivação explícita. Computam, entretanto, várias vitórias.
O ajuste fiscal, afirmar que o conjunto das medidas propostas pelo ex- inistro da Fazenda Joaquim Levy não saiu do papel é ignorar que, atéoutubro, as despesas primárias do Tesouro Nacional, excluindo os gastos com revidência, já haviam caído 6,5% em termos reais. O problema é que, entre os mais de 2% do PIB (Produto Interno Bruto) em medidas de ajuste provadas em 2015, não constaram, por exemplo, o fim da maior parte das esonerações tributárias concedidas ao setor empresarial, a implementação o teto de remunerações de R$ 33,7 mil para os servidores públicos ou a volta a CPMF.  Dada a representatividade seletiva do nosso Congresso, tão bem descrita por regório Duvivier em sua coluna "Festa estranha, gente esquisita", publicada esta Folha na segunda-feira (21), não surpreende que o fim das isenções aos ividendos no Imposto de Renda de Pessoa Física, o aumento do imposto obre a herança ou a criação de um imposto sobre grandes fortunas não tenham nem entrado na pauta de discussão sobre o ajuste das contas públicas.  
  O mercado de trabalho sentiu o golpe. Os dados da Pesquisa Mensal do Emprego (PME) do IBGE revelam que o rendimento real dos trabalhadores caiu 8,8% entre novembro de 2014 e novembro de 2015 e que a taxa de desemprego aumentou de 4,8% para 7,5% no mesmo período. Caso mantenha o ritmo deste ano, o desemprego nas seis regiões metropolitanas incluídas na PME superará já em outubro de 2016 a taxa registrada em janeiro de 2003.  
  O governo eleito teve, no final do ano, algumas pequenas vitórias. Muitos foram às ruas defender a democracia. No Congresso Nacional, Eduardo Cunha perdeu força. A alternativa Temer parece ter feito água. E, como pediam as ruas, a presidente mudou seu ministro da Fazenda. 
  As declarações do governo após a indicação dos novos ministros não sugerem uma ruptura radical. Podemos, entretanto, torcer para que os arquitetos da política econômica, que estarão reunidos neste final de ano sob a batuta da presidente Dilma, não repitam a entrada de ano catastrófica de 2015, em que só o que se anunciou foram medidas de austeridade devidas pelos trabalhadores e nenhum avanço no plano da retomada do crescimento.  
Se cair na armadilha de manter ouvidos abertos apenas para os beneficiários de sempre, o governo arrisca-se a apartar-se de vez de sua base. Se assim fizer, estarão dadas as condições para o surgimento de um novo partido que representaria os movimentos em defesa da democracia, do emprego e da erradicação da pobreza.   "Perdemos" é um nome possível para essa agremiação, impulsionada por um governo que, por vezes, parece obstinado em não abrir mão da impopularidade. 
 
 fonte  Coluna Folha de São Paulo – laura carvalho