A rápida desvalorização do yuan e os solavancos nas Bolsas chinesas, que interromperam negócios duas vezes nesta semana, deram uma amostra do impacto potencial que uma desaceleração maior do que a esperada na China terá para países emergentes produtores de matérias-primas, como o Brasil. Maior comprador de insumos e de alimentos do mundo, o país asiático deve divulgar até o final do mês se cumpriu a meta de crescimento de 7% em 2015 (Banco Mundial e o mercado esperam 6,9%), além de estabelecer a meta para 2016. A expectativa é que reduza a até 6,5%, mas há analistas que veem expansão de 5,7% em 2016.  
   Dependendo da meta estipulada (e do resultado de 2015), o mercado tenta projetar o que acontecerá com o câmbio do yuan e os preços de alimentos e minerais. Por esse motivo, cada indicador de tendência é aguardado e interpretado como balizador dessa meta. Foi o que ocorreu na segunda (4), com a produção industrial, e na quarta (6), com serviços.  
   Uma expansão mais vigorosa (perto de 7%) teria, em princípio, menor potencial de desvalorizar as commodities, portanto beneficiando o Brasil —70% das exportações brasileiras para a China são soja e minério de ferro. Por outro lado, poderia sinalizar que a China deixará o yuan se desvalorizar com maior velocidade com o objetivo de aumentar a competitividade das exportações. 
   A China responde por quase um terço do desempenho da economia mundial. Apenas nesta semana, o yuan perdeu mais de 2% de seu valor em relação ao dólar. Desde agosto de 2015, flutua segundo uma banda cambial baseada no volume de negócios com moedas. 
   "A desvalorização do yuan é mais relevante para a economia mundial do que o que ocorre hoje na Bolsa. Significa que a transição para uma economia voltada ao mercado interno está acontecendo mais devagar do que o esperado e a China precisa continuar exportando", disse Marco Troyjo, professor da Universidade Columbia (EUA). 
OLHOS EM XANGAI 
   Desde o ano passado, porém, os analistas passaram a olhar o que ocorre na Bolsa de Xangai, principal praça financeira do país, também como um termômetro do que será o desempenho da economia chinesa no futuro. Apesar de a Bolsa chinesa ser relativamente pequena (só 5% investem em ações) e isolada (quase não há fundos estrangeiros ou grandes investidores), trata-se de um mercado de "insiders" –são executivos que estão dentro das empresas que estariam vendendo ações por saberem que as vendas estão fracas, segundo esse raciocínio.  
   Esse seria um dos motivos que levaram as autoridades chinesas a limitar a venda de ações pelas próprias empresas, como forma de conter a sangria na Bolsa. Outra medida foi suspender o mecanismo de "circuit breaker", que interrompia os negócios pelo restante do dia quando a Bolsa recuava mais de 7%. Instituído em dezembro, ele intencionava dar tempo aos investidores de esfriarem os ânimos e reavaliarem os cenários. 
   Foi suspenso, porém, na madrugada da sexta (tarde de quinta no Brasil), porque os investidores chineses estavam correndo para vender as ações antes da interrupção dos negócios. Nesta quinta (7), a Bolsa parou de funcionar após 28 minutos. Para conter a venda maciça de ações, a Comissão Reguladora das Bolsas anunciou ainda novas regras que limitarão a venda de papéis a um máximo de 1% do total de uma companhia. Com isso, grandes acionistas, que detêm 5% ou mais de uma empresa, não poderão negociar mais de um 1% do total em um prazo de três meses. Também deverão anunciar seus planos de venda ao menos 15 dias antes. 
 
Fonte: Folha de São Paulo