O ano começou relativamente bem, amigos. O mercado firmou em um período que tipicamente marca o início da safra e é caracterizado por falta de sustentação de preços. Fatores como o atraso das chuvas, exportações melhores e consumo acima da média para o período ajudam o boi a se estabelecer em patamar igual ao do mesmo período vivido em 2011. E, de maneira incomum, o boi vale mais em janeiro de 2013 do que valia em dezembro de 2012.
 
Entretanto, digo que estamos “relativamente bem” porque passamos o ano passado todo, praticamente, abaixo dos patamares de 2011. E passamos, ainda, uma importante parte de 2011 abaixo dos valores registrados em 2010. Observe nosso primeiro gráfico.
 
Gráfico 1. Evolução dos preços nominais pagos pela arroba em São Paulo.
 

Fonte: Cepea/Broadcast/AgriFatto
 
Nele está estampado exatamente o que o pecuarista tem vivido nos últimos anos, mas ainda falta um detalhe importante: além de os preços terem se desvalorizado nominalmente, os custos de produção não deram alívio.
 
Aliás, os custos são exatamente o que considero de mais fiel no momento de calcular o valor real da arroba.
 
Podemos usar outro fator de correção, mas nada como usar um indicador que esteja totalmente atrelado aos preços. E, assim, cheguei ao nosso gráfico número dois, que chamarei aqui de “a tristeza do Jeca”. Nele está o valor real do boi, ou seja, o aumento dos custos X a desvalorização da arroba nominal.
 
Mas antes de mostrá-lo, quero antecipar outro detalhe desse gráfico. Um detalhe sobre o qual já discorremos aqui neste espaço diversas vezes: o abate de fêmeas em ascensão.
 
Esse índice elevado nos mostra que a fase de baixa do ciclo pecuário atual está em pleno curso e, pessoalmente, considero que já estamos no segundo ano da fase de baixa do ciclo atual. A notícia é boa e ruim ao mesmo tempo. Boa porque se já estamos no segundo ano, considera-se que metade dessa fase tenebrosa ou mais do que isso já passou. A notícia ruim é que ainda falta um pouco até realmente vermos a luz novamente.
 
Também já falamos aqui que o abate de fêmeas em maior concentração deve-se à proximidade do valor da fêmea em relação ao valor do macho ou, em outras palavras, ao custo de oportunidade de manter a vaca no pasto. Além disso, o atraso das chuvas na safra e a manutenção delas no início da entressafra dos anos anteriores atrapalhou o ciclo das fêmeas e trouxe uma taxa maior de repetição de cio. E essas vacas foram para o gancho.
 
Mas vamos ao gráfico 2 para enxergarmos isso que foi dito:
 
Gráfico 2. Tristeza do Jeca.

 

Fonte: Bigma Consultoria/IBGE/IEA/Cepea/AgriFatto
 
Outra informação interessante que podemos tirar deste gráfico é a seguinte, em valores reais, estamos nos aproximando do fundo do poço para a pecuária, ou seja, 2005 e 2006.
 
E é por isso que afirmo: está caro produzir boi!
 
Novamente, toda situação tem dois lados, um bom e outro ruim.
 
O lado ruim disso já sabemos, obviamente. Temos contas a pagar e a margem da atividade está muito curta. Infelizmente, todo mercado duradouro o bastante tem um ciclo de aumento e retração de produção. E isso leva a um sobe e desce de preços. Nossa tarefa é lidar com isso de modo a otimizar os ganhos e, mais importante ainda, evitar a todo custo perdas.
 
É fácil reinvestirmos quando temos margem, tem sempre alguma coisa por fazer na propriedade. Mas recuperar o prejuízo é dificílimo e demora vários anos pra acontecer.
 
O lado bom disso é que o mercado trabalha arrastando os ineficientes junto com ele e é cíclico. Sempre que pesa muito pra um lado a corda estoura. Em outras palavras, como o custo de produção subiu (a comida então, nem se fala!), o pessoal tem uma margem muito curta ou até mesmo negativa para produzir em algumas situações. O custo do confinamento, por exemplo, complicou demais e isso certamente vai desencorajar boa parte dos pecuaristas, o que significa que podemos ter um justo aperto de oferta para a entressafra.
 
Durante a safra, não acredito muito nisso. Temos muito boi de pasto para abater e os dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram aumento do volume de abates em 2012. É o efeito do ciclo pecuário nos mostrando sua força. É claro que temos que trabalhar com várias possibilidades. Se o consumo continuar firme e as exportações fortes, isso pode mudar um pouco. Mas com o atual nível de endividamento do brasileiro (o mais alto da história) e a crise mundial de crédito, deve-se tomar cuidado com as previsões.
 
Nesta semana me perguntaram qual seria a dica para 2013 e me veio em mente uma resposta muito clara: cautela. Tenha mais medo de perder do que de deixar de ganhar e isso significa: use a Bolsa para garantir a margem. Lucro pequeno não mata ninguém, mas prejuízo pequeno, sim.
 
Abraços a todos e até breve!

 
Fonte: Beef Point – Por Lygia Pimentel.