SÃO PAULO – Integrantes da Associação dos Frigoríficos de Minas Gerais, Espírito Santo e Distrito Federal (Afrig) livraram-se do pagamento do Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural). Em decisão unânime, os desembargadores da 7a Turma do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1a Região suspenderam a cobrança.
   A contribuição era recolhida pelo empregador rural pessoa física e incidia sobre a receita bruta proveniente da comercialização da produção. Relatora do processo, a desembargadora Ângela Catão, destacou decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de 2010, envolvendo o Frigorífico Mataboi, de Minas Gerais. Na época, os ministros julgaram inconstitucional o artigo 1o da Lei no 8.540, de 1992, alterada pela Lei no 9.528, de 1997, que determinava o recolhimento. Eles entenderam que havia “ofensa aos princípios da equidade, da isonomia e da legalidade tributária”, além, de “ocorrida a bitributação”.
   O advogado Maucir Fregonesi Júnior, do escritório Siqueira Castro Advogados, lembra que a discussão envolvia a necessidade de lei complementar para instituir a cobrança. Isso porque as leis analisadas pelo STF eram anteriores à Emenda Constitucional no 20, de 1998, que permitiu incluir a receita bruta como base de cálculo para a contribuição. Antes, apenas o faturamento era previsto pela Constituição Federal. 
   Após esse caso, a Receita Federal passou a aplicar a Lei no 10.256, de 2001, para validar a reintegração da cobrança do imposto. Foi o que aconteceu no caso da Afrig.
Os desembargadores da 7a Turma do TRF da 1a Região entenderam, no entanto, que o fato gerador e a base de cálculo que constam na norma de 2001 continuaram com a redação das leis consideradas inconstitucionais pelo Supremo. “A 7a Turma do TRF da 1a Região entende que a Lei no 10.256, de 2001, não constitucionalizou a exação [tributo] anterior”, afirmou a relatora do processo, desembargadora Ângela Catão. 
   A decisão beneficia os associados da jurisdição da Delegacia da Receita Federal em Poços de Caldas, Minas Gerais. O acórdão reverte a sentença de primeira instância, que havia sido contrária ao pedido da Afrig. 
   Procurada pelo Valor, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) informou, por meio de nota, que a decisão relativa à associação de frigoríficos “reflete um posicionamento já conhecido do TRF da 1a Região”. Disse ainda que continuará a defender a aplicação da lei de 2001. “O anterior reconhecimento da invalidade da tributação pelo Supremo foi limitado até que legislação nova, arrimada na Emenda Constitucional no 20, de 1998, viesse a instituir nova contribuição”, afirmou.
   Advogado da associação dos frigoríficos, Moacyr Pinto Júnior diz que processos desse mesmo tipo tramitam com frequência no Judiciário desde o julgamento do caso do Mataboi. Eles discutem se a norma de 2001 é suficiente para a cobrança, ou se ainda é necessária a edição de uma lei complementar sobre o assunto. 
   “O entendimento da Receita Federal [sobre reintegrar a cobrança do imposto] motivou inúmeras ações. Entre elas uma ação direta de inconstitucionalidade e um recurso extraordinário que serão julgados no Supremo”, diz o advogado da Afrig. “Essa discussão sobre a Lei no 10.256 só será encerrada depois da manifestação dos ministros do STF”, afirma. 
   No ano passado, a Adin e o recurso extraordinário aos quais o advogado se refere entraram duas vezes na pauta de julgamentos. Há expectativa que o STF retome esses processos já no mês de fevereiro. Especialista na área, o advogado Eduardo Diamantino também afirma que o posicionamento do Supremo colocará fim às divergências entre os tribunais regionais. “No TRF da 1a Região há ampla acolhida à inconstitucionalidade da Lei no 10.256. Mas o entendimento não é o mesmo no TRF da 3a Região”, diz.
 
Fonte: Jornal O Valor