Investidores querem do Brasil garantias de redução de desmatamento ilegal de florestas e clareza de outras regras, para avançar na possibilidade de usar “green bonds”, títulos de dívida com alguns atributos adicionais, exigindo que os recursos captados sejam aplicados em projetos ambientalmente sustentáveis.
O mercado internacional de “green bonds” para projetos relacionados a mudanças climáticas com custo de capital reduzido vem crescendo. Estimase que este ano o total emitido alcance US$ 100 bilhões, comparado a US$ 35 bilhões em 20014 e US$ 11 bilhões em 2011. Considerando títulos que poderiam ser classificados como “green bonds”, mas oficialmente não são, o valor estimado do mercado foi de US$ 500 bilhões em 2014.
Uma delegação brasileira, chefiada pela ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, reuniu­se hoje em Paris com representantes de bancos de desenvolvimento (o alemão KfW, Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento e BNDES), representantes de organizações não governamentais ou especializadas (Climate Bonds Institute, Forest Trends, World Resources Institute) e representantes de governos (Alemanha, Noruega e Reino Unido).  
Segundo a ministra, houve concordância de que o Brasil tem todas as condições de um “mercado verde”, com foco particular para area florestal, energias renováveis e agricultura de baixo carbono, além de viabilizar tambem INDC (Contribuição Nacionalmente Determinada ou, em inglês, Intended Nationally Determined Contribution).
“Uma condição essencial foi o Brasil realmente entregar (o prometido) no combate ao desmatamento. Oscilações nas taxas de desmatamento não é problema”, acrescentou, Para ela, o problema está com os Estados na hora de separar o que é desmatamento legal ou ilegal. O governo federal vai financiar projetos para os governos estaduais efetuarem esse monitoramento.
Izabella acrescentou que o Código florestal e o Cadastro Ambiental Rural (CAR), que deve ser concluido em maio, “foram considerados determinantes para a clareza e redução de risco do investidor”.
A reunião tratou muito de “green bonds” para financiar também infraestrutura em projetos de baixo carbono, para exportação de produtos agrícolas por ferrovias que não elevem as emissões nem o desmatamento.
As discussões vão prosseguir em fevereiro, no Brasil, com a participação também do Ministério da Fazenda.
Em eventos na Embaixada do Brasil, o governo apresentou as metas de redução de emissões para os setores de energia e agrícola. Para o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, o desafio brasileiro é implantar a meta nacional de corte de emissões e, ao mesmo tempo, manter o crescimento econômico. “O país tem um enorme potencial em termos de bioenergia e deve investir nisso”, afirmou.
As fontes renováveis correspondem, hoje, a 78% da geração de energia do Brasil, comparado a 20,3% nos países desenvolvidos.
Conforme Tolmasquim, a necessidade de energia no Brasil vai aumentar duas vezes até 2030. Vai ter alta do consumo no Brasil, mas as emissões de brasileiros em termos per capita continuarão baixas, com a taxa sendo duas vezes maior na Europa e China e até oito vezes maior nos Estados Unidos.
A energia hídrica continua crescendo, mas perdeu 10 pontos percentuais nos últimos dez anos e vai perder mais 10 pontos nos próximos dez anos. Esse espaço será ocupado por energia solar, eólica, biomassa, segundo ele.
Richard Baron, assessor da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Economico (OCDE), alertou que o custo da transição para a economia menos carbonizada será maior do que se gostaria que fosse, em geral.
Steve Sawyer, secretário­geral do Conselho Mundial de Energia Eólica, sugeriu ao Brasil acabar com a exigência de conteúdo local na produção de equipamentos para o setor. Tosmalquin deixou claro que essa política continuará. Ele argumentou que a energia eólica e solar no Brasil são as mais baratas no mundo, mesmo com conteúdo local, e o que importa para o consumidor é o preço final.
Já o representante da Embrapa disse mais tarde que o agronegócio brasileiro está reduzindo as emissões, e que o setor é parte da solução.
 
Fonte: Valor Econômico