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A indústria de alimentação europeia, produzindo cerca de 153 milhões de toneladas por ano, representa cerca de 15% do mercado mundial de alimentos para animais. No entanto, o segmento tem notado que as normas aplicadas em nutrição animal na UE têm se distanciado das normas de outros países, mesmo que o bloco dependa fortemente das importações. Em longo prazo, a competitividade da indústria de ração europeia e a compra de matérias-primas deve ser prejudicada. Esta é a opinião de Ruud Tijssens, presidente da Federação Europeia dos Fabricantes de Ração (FEFAC, na sigla em inglês).
 
De acordo com Tijssens, as normas e idéias sobre a engenharia genética, a sustentabilidade e a segurança alimentar europeias não estão de acordo com a situação dependente da importação em que a UE se encontra. COnfira entrevista realizada pelo site All About Feed, traduzida pelos portais Avicultura e Suinocultura Industrial.
 
O senhor acredita que mudanças são necessárias na legislação da indústria de ração animal europeia?
 
Os influentes políticos europeus devem estar cientes do fato de que a UE está lentamente se tornando uma ilha, se não garantir que a legislação esteja mais de acordo com a realidade de mercado. Deve-se esclarecer alguns pontos das normas desde o início, não se trata de baixar os padrões europeus. Mas para o setor pecuário europeu permanecer competitivo, precisamos de garantir o acesso às matérias-primas para a alimentação animal com preços acessíveis no mercado mundial. O fornecimento estratégico de proteína é crucial, mas também o fornecimento de fosfatos e cereais devem ser melhor garantidos. A legislação atual, combinado com a demanda do mercado devido as exigências dos consumidores, nos dá barreiras comerciais adicionais – falamos de barreiras não-tarifárias -, que também leva a custos adicionais.
 
Quem está pagando por estes custos adicionais no momento?
 
Os custos adicionais desaparecem nos preços das commodities. Esta discussão é, portanto, sobre a viabilidade do setor agrícola na Europa. No momento, nós compensamos os custos por termos uma excelente produtividade agrícola na Europa. Mas outros continentes estão se desenvolvendo rapidamente. 
 
Culturas geneticamente modificadas na UE são sempre um tema complicado e demorado. Como isso afeta o setor de alimentação europeu?
 
Em muitos países europeus, há claramente uma forte resistência ao cultivo de culturas geneticamente modificadas. No entanto, os fornecedores de farelo de soja e milho no mercado mundial abraçaram plenamente a tecnologia GM. Portanto, o setor da alimentação da UE não tem muito o que escolher. Praticamente todos os agricultores os EUA, Brasil e Argentina que cultivam estas culturas produzem variedades geneticamente modificadas. E lembre-se, estamos falando de importações. Isto deve ser completamente separado do debate sobre se devemos ou não plantar culturas GM na Europa. Devido a atrasos no processo europeu de autorização para as importações GM, existem atualmente 17 novas variedades na lista de espera para ser aprovada pela Comissão Europeia. E esse acúmulo de arquivos pendentes começou tem mais de um ano já, apesar dos sinais positivos da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA). Os cultivos transgênicos são aprovados, cultivados e colhidas em países exportadores e os exportadores já não querem aguardar o processo legislativo da UE ser concluído. Entretanto, ainda estamos à espera da aprovação política.
 

Isto significa que nós, os importadores, corremos o risco de encontrar vestígios de matérias-primas para alimentação animal não autorizados (acima dos limites prescritos). Isto poderia levar a consequências financeiras potencialmente grandes. A associação de importadores de cereais (Coceral) estima os custos para a próxima temporada serão da ordem de 100.000.000 € – uma desvantagem, se a Comissão Europeia continuar assim. Nós não podemos dizer aos países fora da Europa quais as técnicas de produção que podem e não podem ser usadas. Nós somos os únicos que têm de se adaptar. 
 
Falando de soja, o que está acontecendo sobre o desenvolvimento da soja responsável, a nível europeu?
 
Impulsionada por considerações de ordem social, a FEFAC tem estado ativamente envolvida no desenvolvimento de normas mínimas de soja responsável desde 2006. Mas esta discussão é empurrada principalmente por ONGs, varejistas e processadores de lácteos no Noroeste da Europa. Notamos que as opiniões variam muito entre os países sobre o que é exatamente a soja responsável. 
 
[Soja responsável é aquela produzida por diretrizes que levam em conta critérios sociais e ambientais das legislações da Europa]  
A demanda por soja responsável pode gerar problemas para os fabricantes de alimentos para animais?
 
No final, tudo tem o seu preço. Se os clientes parceiros da cadeia estão dispostos a pagar os custos adicionais, as empresas vão implementar sua produção de acordo com as necessidades do mercado. Mas nós alertamos para a fragmentação do mercado. O custo pode ser bastante substancial, diretamente ligado ao produto físico. Na UE, estamos dependentes da importação de determinados oleaginosas, como a soja. Portanto, é importante que existam soluções boas e viáveis. A FEFAC está trabalhando para facilitar o fornecimento de soja responsável ao mercado. No fim das contas, é tudo o fluxo de um comércio. Com os nossos parceiros da cadeia de suprimentos, podemos manter o diálogo aberto para contribuir com a implementação de requisitos mínimos.
 
Existem correntes não-OGM?
 
Sim, eles existem. No entanto, mais uma vez, este tipo de demandas extras do mercado vêm com custos adicionais. Vimos prêmios para a soja não-OGM atingindo €200 por tonelada. A FEFAC não é necessariamente a favor ou contra os transgênicos, para nós a segurança e a qualidade são os principais fatores para decidir se a matéria-prima é adequada como um material de alimentação. Então, estamos de volta para a discussão sobre a admissão de novas variedades genéticas. Para as variedades geneticamente modificadas que aguardam aprovação da Comissão Europeia, precisamos de uma solução chamada "presença de nível baixo" para manter o acesso aos mercados globais. A idéia de tolerância zero na cadeia alimentar é um terrível dogma. "Zero poluição" simplesmente não existe. Além disso, o equipamento analítico para definir zero, tornou-se cada vez mais sensível. Onde há dez anos, a "prova de ausência" foi medida, agora, de repente, um ppb (partes por bilhão) é encontrado. Isso significa que o produto é não seguro? A legislação deve se adaptar. 
 
Nós acabamos de discutir OGM, mas a discussão da segurança alimentar pode ser mais sensível, certo?
 
Não há necessidade de se preocupar com a atitude da indústria animal para a segurança, já que esta é sempre uma prioridade. No entanto, ainda existem muitos incidentes, e estes devem ser reduzidos através de uma supervisão rigorosa e auto-regulação. Mas na Europa não podemos tê-lo sempre o nosso próprio caminho em relação à segurança alimentar, ao passo que nós somos tão dependentes das importações. Para ilustrar, em 2013, fomos confrontados com aflatoxinas em milho, o que causou uma grande crise. O mesmo lote de milho contaminado com aflatoxinas, que não era permitido na UE, acabou por ser enviado (com a permissão das autoridades alemãs) para os EUA. O milho foi utilizado como um material de alimentação, por causa dos padrões mais baixos adotados pelos EUA. Eu não estou dizendo que nós quisemos usar esse carregamento de milho, mas é estranho que estamos diante de uma crise e nos preocupamos em tentar localizar a fonte, enquanto que nos EUA, o milho é ‘business as usual’. Você também deve perceber que os produtos cárneos provenientes de animais alimentados com essas matérias-primas também entram no mercado mundial, assim como outros produtos de origem animal. Não é uma igualdade de condições.
 
 Confira o link original da entrevista no site All About Feed. Clique aqui.