O movimento dos caminhoneiros entrou em seu décimo dia com sinais de arrefecimento, mas mesmo que isso prossiga, a normalização completa do abastecimento ainda demora a ocorrer

 

Os sinais de normalização no abastecimento e nas estradas ainda eram mistos ontem. Apesar de as lideranças sindicais recomendarem a desmobilização nas estradas, um grande número de caminhoneiros continuava paralisada, ontem, em diversos pontos do país, alguns nos acostamentos ou mesmo em casa. Embora o governo tenha buscado passar mensagem de otimismo com o resultado do trabalho das forças federais de segurança para desbloquear rodovias interditadas pelos protestos e garantir o abastecimento de produtos essenciais, os números divulgados pelo Ministério da Defesa e pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) indicaram que a paralisação deve se estender por um período maior. O Corregedor-Geral da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Célio Constantino, informou ontem que as forças federais fizeram 751 desinterdições nas rodovias, com protestos em mais de 20 Estados, além do Distrito Federal. Apesar de demonstrarem convicção de que a situação se normalizará nos próximos dias, os membros do comitê anticrise insistiram na tese de que há a intenção dos caminhoneiros em desmobilizar e atribuíram as dificuldades para que isso ocorra à ação de infiltrados nas manifestações.

Os pontos de concentração nas rodovias aumentaram de 594 para 616 nos últimos dois dias, sem envolver bloqueio de estradas. “O relato de hoje é muito melhor do que o de ontem”, disse o Ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, após reunião da manhã do comitê da crise. Ele admitiu, no entanto, que a mobilização que persiste “extravasa” o propósito original do movimento caminhoneiros, pautada na redução do diesel e outras reivindicações em prol da categoria. Segundo ele, as manifestações contam com a participação e o apoio de “populares” com interesse político difuso. “As concentrações têm envolvido populares, pessoas que não são caminhoneiros. Temos manifestações, especialmente nos centros urbanos, em que predominam populares. Mas há manifestações de caminhoneiros ainda. Muitos querem voltar, mas são constrangidos a permanecer no movimento”, reconheceu Padilha. Líderes locais sustentavam que não havia bloqueios. “Grande parte dos caminhoneiros segue parada, mas não há obstruções.

O porto está liberado para quem quiser passar”, disse Cícero Rodrigues, Diretor do Sindicato dos Transportadores Rodoviários Autônomos da Baixada Santista e Vale do Ribeira. Muitos caminhoneiros estão parados com medo de ameaças, informou o Diretor do Sindicato dos Transportadores Autônomos de Carga de Ijuí (Sinditac-Ijuí), Carlos Alberto Litti Dahmer. Segundo ele, a ausência de soluções definitivas mergulhou o país num ambiente de insegurança e descrédito. “Os trabalhadores estão mais protegidos parados, não falta nada a eles. Têm onde tomar banho, o que comer, onde dormir. Só falta estrada. O que pode acontecer se voltarem a rodar? Ninguém sabe. Há muitas pautas na rua agora”, argumentou Litti. Para o presidente Michel Temer, não há espaço para novas concessões do governo para que os caminhoneiros desmobilizem e encerrem a greve da categoria iniciada na semana passada. “Neste momento, fizemos o que foi possível. Esprememos todos os recursos governamentais para atender os caminhoneiros e não prejudicar a Petrobras “, destacou o Presidente, lembrando que a estatal se recuperou ao longo desses dois anos após enfrentar uma “situação desastrosa”. O Chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, Almirante Ademir Sobrinho, informou que as forças federais definiram três “corredores” de segurança em rodovias consideradas estratégicas para a garantia do abastecimento do país. Por esses trajetos passarão comboios de caminhões escoltados por tropas do Exército e da Polícia Rodoviária Federal, apoiadas pelas polícias estaduais. Os corredores rodoviários ligam as cidades: Betim (MG) a Brasília; Vilhena (GO) a Rio Branco (AC); e Caracaraí (RR) a Boa vista (RR).

 

Fonte: VALOR ECONÔMICO