Como muitas vezes acontece quando o mercado de grãos e fibras passa por um longo período de bonança, sustentado sobretudo por preços elevados, os produtores tendem a negligenciar alguns riscos, afirma o sócio da consultoria FG Agro, Juliano Merlotto. E, segundo ele, foi isso que aconteceu nesse último ciclo de alta das commodities, iniciado em 2003/04.

Mesmo que ainda sejam poucos os casos mais graves – e conhecidos – de grandes produtores que no momento estão sufocados por dívidas e falta de liquidez, o fato é que a maior parte do segmento rural está atualmente pior do que estava no passado recente, acredita Merlotto.

Segundo ele, o agricultor, por mais eficiente que seja, se protege pouco dos riscos cambiais e tende a gastar mais quando o crédito é abundante. "Há produtores que estão com máquinas agrícolas novas nos galpões, sem necessidade de serem usadas, porque não precisavam as ter comprado. Adquiriram para aproveitar as taxas de juros baixas do PSI [Programa de Sustentação do Investimento]".

O sócio da FG Agro observa que, em média, os produtores de grãos e fibras fazem pouco hedge cambial, pois gostam de estar em uma situação mais especulativa.

Merlotto também destaca que nesse último período de "vacas gordas", durante o qual os bancos ofereceram muitos recursos a muitos produtores, boa parte deles expandiu o plantio para outras fronteiras agrícolas, tais como Maranhão e Piauí. "Um produtor de Mato Grosso, que está todo o dia rodando suas fazendas, perde um pouco o controle operacional quando começa a plantar no Pará ou no Maranhão. Não consegue estar lá sempre. Tem ainda um maior risco climático", diz o especialista.

Mais alavancados e diante de uma rentabilidade mais apertada, os produtores e suas empresas agrícolas passaram a ter que lidar com uma menor oferta de dinheiro. "Poucos bancos têm tradição em conceder crédito ao Centro-Oeste. Entraram nesse mercado recentemente e muitos não entendem a fundo o negócio. Agora, começam a perceber que as garantias dadas nos financiamentos – a maior parte terras – nem sempre valem o que está na planilha. O mercado financeiro está assustado com esse segmento".
 
Fonte: Valor Econômico