Terceira maior empresa de carne bovina do país, a Minerva Foods receberá um aporte de R$ 750 milhões da Saudi Agricultural and Livestock Investment (Salic), gestora de recursos fundada em 2012 pelo Reino da Arábia Saudita para investir em agronegócios.
  Como adiantou o Valor PRO, serviço de informações em tempo real do Valor, o aporte fará da Salic a segunda maior acionista da Minerva, com quase 20% de participação. Anunciada ontem pela empresa brasileira, a transação é a primeira dos árabes envolvendo frigoríficos no Brasil e representa uma oportunidade para a Minerva estreitar relações com a Arábia Saudita, que recentemente reabriu seu mercado à carne bovina in natura brasileira e promete ser uma alavanca para as exportações do país em 2016. 
  Em entrevista ao Valor no fim da noite de ontem, o presidente da Minerva, Fernando Galletti de Queiroz, afirmou que a os recursos que serão recebidos da Salic serão usados para acelerar o processo de expansão da companhia na América do Sul. 
O executivo reforçou a intenção de fazer aquisições na Colômbia e no Paraguai. A Argentina, antes encarada com reticência, agora é também um alvo para as aquisições. Mas Galletti ressalvou que não há negociações em curso. De acordo com ele, a mudança de governo na Argentina fez do país "um ambiente mais atrativo". 
A operação com a Salic está em linha com o modelo de negócios da Minerva, focado nas exportações. Hoje, 75% da receita bruta da empresa é gerada por vendas no exterior. Como um todo, a Minerva prevê fechar 2015 com receita líquida entre R$ 9,5 bilhões e R$ 10,5 bilhões. 
O investimento na Minerva também é o primeiro da Salic na América Latina. De acordo com o CEO da empresa árabe, Abdullah Aldubaikhi, a compra da participação "assegura" o objetivo que o grupo tinha na área de carnes. Na área de grãos, a Salic negocia neste momento com três empresas no Brasil, afirmou o executivo saudita. 
Para viabilizar o aporte da Salic, a Minerva fará um aumento de capital de 48 milhões de ações. O grupo saudita pagará R$ 15,60 por ação. Assim que a operação for concretizada, o que deve ocorrer até o início de março, um novo acordo de acionistas entrará em vigor, conforme o diretor financeiro da Minerva, Edison Ticle.  
Atualmente, o controle da empresa brasileira é exercido por meio de um acordo entre a VDQ Holdings – veículo de investimento da família Vilela de Queiroz -, que tem 32,8% das ações da Minerva Foods, e a BRF, que detém 15,1%. Com a entrada da Salic, a BRF continuará como acionista, mas  deixará o bloco de controle e não terá membros no conselho de administração. Nesse processo, a BRF abrirá mão do poder de veto que ainda tem.  
Se apenas a Salic participar do aumento de capital da Minerva, o grupo saudita ficará com uma fatia de 19,95% em seu capital e indicará três membros para o conselho de administração. A VDQ, por sua vez, reduzirá sua participação para 27%, enquanto a BRF ficará com 12%. Na nova estrutura, em que o bloco de controle da Minerva será dividido entre VDQ e Salic, a VDQ indicará cinco membros para o conselho.  
Do ponto de vista estratégico, a entrada da Salic no capital da Minerva pode ser um diferencial nas exportações para o Oriente Médio. "Com um parceiro local, você tem oportunidades de conhecer e estar mais próximo do mercado", afirmou Galletti de Queiroz. Atualmente, as exportações para o Oriente Médio já são relevantes para a Minerva. No período de doze meses encerrado em setembro, a região absorveu 19% das exportações de carne bovina da companhia – além do Brasil, a Minerva também exporta a partir de Paraguai e Uruguai. A companhia também conta com um frigorífico na Colômbia, mas a unidade, adquirida este ano, exporta muito pouco.  
Pelas estimativas da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), a receita com vendas de carne bovina in natura à Arábia Saudita e aos países do Oriente Médio que acompanham as regras sanitárias do país (Bahrein, Kuwait e Catar) deverão render cerca de US$ 230 milhões aos frigoríficos brasileiros em 2016. Com a Salic, a Minerva terá boas condições para abocanhar parte relevante do mercado recém- aberto pelos sauditas.  
Na área financeira, Ticle disse que os recursos a serem aportados pela Salic contribuem para a redução da alavancagem da companhia. Segundo ele, considerando o Ebitda anualizado da Minerva no terceiro trimestre, seu índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda) cai de 3,8 vezes para 3 vezes com o aporte da companhia saudita. 
  O executivo assegurou, no entanto, que os recursos da Salic não eram necessários para fazer frente à elevação da dívida da empresa provocada pela alta do dólar ante o real – 77% da dívida total da Minerva estava exposta ao dólar no fim de setembro. O objetivo do acordo, disse, é mesmo acelerar os planos de crescimento.  
De acordo Ticle, a empresa já teria reduzido a alavancagem não fosse a valorização do dólar. Além disso, o prazo de pagamento das dívidas está suficientemente alongado – menos de 20% do total vence em 12 meses, e a maior parte da dívida só vencerá em 2023. A receita em dólar com as exportações também é um trunfo da companhia, destacou o executivo. 
Fonte : O Valor Econômico