O relatório Panorama Econômico Mundial (WEO da sigla em inglês) do Fundo Monetário Internacional (FMI) traz diversos alertas sobre a queda nos preços das commodities, e não vislumbra possibilidade de melhorias aos países exportadores no curto prazo. Divulgado nesta terça-feira, o documento projeta que os produtos primários, excluindo os combustíveis, devem cair 17% neste ano, estimando recuo de 46% para as cotações do petróleo.

Chamado “Ajustando-se à queda nos preços de commodities”, o documento faz previsões de baixa para vários mercados, como alimentos, metais e combustíveis, e contém advertências para países exportadores desses produtos, como o Brasil.

Segundo o FMI, os preços das commodities caíram 14% desde fevereiro de 2015, o período utilizado para o relatório anterior, divulgado em abril, quando também foi prognosticada uma baixa das vendas. Os preços dos metais e das commodities agrícolas caíram 13% e 8%, respectivamente.

O Fundo verificou que a diferença entre produção global e consumo global – o chamado excesso de fluxo de suprimentos global – continuou a crescer, em 2015, devido ao forte abastecimento, apesar da dramática queda de investimentos no setor de petróleo.

Segundo o documento, após uma recuperação inicial, os preços do petróleo caíram devido à forte oferta dos países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e do acordo nuclear entre os Estados Unidos e o Irã, além de preocupações com a demanda futura. O relatório diz ainda que, nos países da Opep, a produção aumentou, apesar da queda nos preços. A Rússia está produzindo em níveis recordes.

O FMI analisou os preços futuros e chegou a uma média anual de US$ 51,62 por barril em 2015, US$ 50,36 em 2016 e US$ 55,42 em 2017. O Fundo argumenta que a perda de confiança nos mercados financeiros globais pôs pressão negativa nos preços do petróleo em agosto. Mas os contratos futuros apontam para uma elevação das cotações. “Ainda há substancial incerteza sobre o patamar de referência para os preços do petróleo, mas é ligeiramente menor do que se verificou em abril passado.”

As cotações das commodities excluindo os combustíveis também sofreram queda. “Os preços dos metais caíram devido a uma desaceleração no crescimento da demanda da China e a aumentos substanciais no suprimento da maioria dos metais”, diz o relatório.

Segundo o FMI, a depreciação da moeda chinesa e as medidas de correção do mercado de ações naquele país aumentaram as preocupações sobre a força da demanda por metais. A China representa metade da demanda global pelos metais e tem sido, segundo o Fundo, “o principal motor do crescimento mundial desde 2002”. Mas os preços dos metais sofreram projeção de queda de 22%, em 2015, e 9%, em 2018.

Os preços futuros vão continuar baixos, mas com crescente incerteza devido à demanda, especialmente da China, e ao forte abastecimento.

De maneira geral, o FMI verificou que os preços dos metais estão em declínio desde 2011. “Alguns analistas argumentaram que nós estamos numa conjuntura crítica, apontando para o fim do superciclo das commodities. É difícil dizer com segurança, mas a prolongada queda nos preços dos metais é consistente com um típico ciclo de boom e queda das commodities”, diz o documento.

O Fundo aponta que, depois de um período de alta nos preços dos metais durante a década de 2000, o investimento e a capacidade do setor aumentaram substancialmente. Ao mesmo tempo, preços altos levam à queda nos ajustes no lado da demanda. Esses ajustes contribuíram para um declínio gradual nos preços dos metais desde 2011, o que levou a um menor investimento no setor, especialmente nas minas de alto custo, considerando as expectativas de lucros mais baixos.
Quanto mais prolongada for a queda nos preços dos metais, mais difícil será uma eventual reversão desse movimento, adverte o FMI.

“Compreender a evolução dos mercados de metais é importante por ao menos duas razões”, diz o documento. “Primeiro, em nível global, metais são o coração da economia mundial porque eles são a chave para levar a resultados na produção industrial e na construção.” Os mercados de metais são modelados de acordo com as mudanças no volume e na composição da demanda global, continua o Fundo. 

“Assim, as transformações nos mercados de metais também são um sinal importante de mudanças na economia mundial.” Em segundo lugar, para alguns países as exportações de metais são uma porção grande do total de suas vendas para o exterior, e as flutuações nos preços podem ter consequências macroeconômicas importantes.

O Fundo apontou que, do ponto de vista econômico, o ferro é de longe a mais importante base entre os metais, com US$ 225 bilhões de vendas mundiais. O aço é mais usado para construção, transporte de equipamentos e maquinário. O FMI constatou que, no passado, os preços do ferro eram majoritariamente determinados pelas negociações entre os mercados de aço e produtores japoneses. Mais recentemente, o mercado se tornou mais transparente, com o preço de entrega aos portos chineses sendo utilizado como referência de mercado.

A maior produtora de ferro é a China, cuja participação equivale à metade da produção mundial, seguida da Austrália e do Brasil.
Segundo o FMI, a desaceleração no ritmo de investimento da China, a queda no mercado de ações do país, desde junho, e o amplo suprimento de metais levaram a pressões nos preços dos metais. “Considerando que o declínio dos preços começou bem antes, faz sentido perguntar o que pode ser esperado. Conforme mencionamos, os mercados futuros apontam para uma queda nos preços e o declínio deve alcançar o ponto mais baixo”, prevê o Fundo.

Ainda de acordo com o relatório, no lado da demanda a economia chinesa deve se desacelerar ainda mais, embora gradualmente, mas com considerável incerteza tanto com relação ao tempo em que ocorrer essa desaceleração quanto com relação à extensão dela.

Estudos econométricos do FMI mostram que a queda nos preços dos metais pode ser explicada pelo declínio da produção industrial. Atualmente, 60% da variabilidade dos preços dos metais são explicados por flutuações na produção industrial chinesa. Além disso, a simples regressão sugere que a queda na produção industrial chinesa nos meses recentes pode produzir mais declínios nos preços.

Por outro lado, o FMI verificou que a redução nos preços de energia ajudou, de fato, a reduzir os custos da mineração e do refino, incluindo os de cobre, aço e alumínio. Já as minas de alto custo serão as primeiras a fechar negativamente, adverte o Fundo.

O FMI prevê que os preços dos alimentos devem cair em 17% em 2015, com o crescimento do abastecimento aliado a níveis mais altos de estoques ultrapassando mais vagarosamente o aumento da demanda. “Quedas acentuadas são esperadas nos preços de cereais e óleos vegetais, particularmente trigo e soja”, diz o FMI. Para 2016, é prevista queda relativamente pequena, de 5%, seguindo declínios marginais na produção projetada para a maioria das colheitas.
O FMI e o Banco Mundial realizam nesta semana o seu encontro anual em Lima, no Peru.
 
Fonte: Valor Econômico