Com os motores das exportações mundiais engasgando, cresce a pressão para que nações em dificuldade desvalorizem suas moedas para impulsionar suas economias.
 
O crescimento das exportações em muitos países que dependem fortemente da venda de seus produtos no exterior está novamente abaixo das expectativas. Na Alemanha, país com o maior superávit comercial do mundo, o aumento das exportações foi de apenas 0,9% no ano passado, depois de ter registrado uma média de mais de 8% por ano antes da crise financeira. A China, que conta com as exportações para manter a força da segunda maior economia do mundo, viu o ritmo de suas vendas no exterior desacelerar para apenas 8,6%, depois de uma década de crescimento médio anual de cerca de 20%.
 
O problema é generalizado, estendendo-se para além dos países com superávits comerciais. O lento crescimento das exportações dos Estados Unidos é um dos fatores freando a economia este ano, uma tendência que deverá piorar com o fortalecimento do dólar e o consequente encarecimento dos produtos americanos no exterior.
 
A Organização Mundial do Comércio recentemente reduziu sua previsão do crescimento do comércio global, afirmando que os riscos são "predominantemente de declínio". A OMC agora prevê que o comércio internacional avançará 4% no próximo ano. A estimativa anterior era de 5,3%.
 
O comércio letárgico é um sintoma de que a recuperação mundial está repetidamente fracassando em atingir as previsões. Há também o risco de que ele arrastará ainda mais para baixo a atividade econômica.
 
"A economia global está mais fraca do que esperávamos", disse recentemente Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional. O FMI deve cortar hoje sua previsão de crescimento global de 4% para 2015. "O risco é de que o mundo fique emperrado nesse novo [nível] medíocre", disse Lagarde.
 
A desaceleração está atingindo importantes mercados emergentes na Ásia e economias avançadas na Europa, para as quais as previsões são tão severas que autoridades do FMI alertaram sobre uma possível "década perdida" ao estilo japonês, com inflação abaixo do nível ideal e produção anêmica.
 
Um salto no comércio internacional depois da crise financeira impulsionou os primeiros passos da recuperação global até 2010. Mas o crescimento tem se arrastado desde então, fracassando em atingir as expectativas para uma aceleração econômica.
 
Os problemas estão restringindo as oportunidades para indústrias exportadoras nas maiores economias. "Eu não gostaria de estar [no setor de] máquinas da Alemanha neste momento", diz Adam Posen, presidente do Instituto Peterson de Economia Internacional e ex-integrante do Banco da Inglaterra. "Eu não gostaria de estar [no setor] de estaleiros na Coreia do Sul."
 
A frágil recuperação está deixando as autoridades tentadas a desvalorizar suas moedas para tornar suas exportações mais atraentes, o que fez ressurgir receios de uma guerra cambial global. Tais desvalorizações tendem a criar crescimento no curto prazo às custas de outros países.
 
O presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, elogiou o declínio do euro, sinalizando que uma moeda mais fraca é chave para a política do banco. O presidente do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda, fez comentários semelhantes sobre o iene. A Coreia do Sul e a China foram criticadas por manter suas moedas abaixo dos níveis que muitos economistas dizem que refletiriam valores de mercado justos.
 
A desvalorização da moeda é uma abordagem mais fácil do que reformas econômicas profundas que enfrentam obstáculos políticos, principalmente para governos com dívida crescente e desemprego alto.
 
O Grupo dos 20 países mais ricos do mundo está tentando estimular o crescimento com centenas de políticas, de investimentos em Infraestrutura a mudanças nas leis sobre aposentadorias dos servidores. Autoridades dizem que tais iniciativas poderiam elevar o crescimento econômico mundial em até 1,8 ponto percentual.
 
O Brasil, por exemplo, está considerando investir em Infraestrutura, reduzir a burocracia para acelerar investimentos, reformar seus complicados sistemas jurídico e tributário e reforçar a educação pública.
 
"Nós contamos muito com a demanda externa por muitos anos", diz Diego Bonomo, gerente-executivo de Comércio Exterior da Confederação Nacional da Indústria. "Agora precisamos realmente promover reformas e aumentar nossa produtividade para fazer nosso mercado doméstico crescer mais."
 
Mas o governo brasileiro está tendo dificuldades políticas para ter suas reformas aprovadas à medida que as perspectivas de crescimento caem. É um problema que atinge o mundo todo, da Itália ao Japão, passando pelo Egito, Ucrânia e EUA.
 
Com a política monetária no limite e pouco espaço para estímulos orçamentários, grande parte do mundo está se voltando para acordos comerciais como alternativa de longo prazo para gerar crescimento econômico.
 
Os países europeus buscam a liberalização do comércio com os EUA através do acordo da Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento. O impacto potencial desse acordo no crescimento econômico é uma grande motivação dos europeus, diz o representante comercial dos EUA, Michael Froman. Outros países podem estar fazendo o mesmo cálculo, diz ele. A negociação de pactos comerciais permite aos governos melhorar a eficiência e competitividade de suas indústrias.
 
Mas mesmo tais pactos enfrentam obstáculos políticos. Alguns brasileiros querem um acordo comercial com os EUA, mas Bonomo acredita que levará anos para que ele seja assinado.
 
Fonte:  Cenário MT