A crise cambial vivida pela Argentina pode ser parcialmente explicada pela falta de competitividade das suas exportações agropecuárias.

Assim como o Brasil, a Argentina é um grande exportador de commodities. Cerca de 60% das vendas externas do ano passado foram de produtos básicos e manufaturas de origem agropecuária, segundo dados do Indec (órgão semelhante ao IBGE no Brasil).

Mas, nos últimos dez anos, o país perdeu espaço no mercado mundial de algumas das principais matérias-primas que produz.

O caso mais emblemático é o da carne bovina. Desde 2006, o governo impõe restrições aos embarques do produto com o objetivo de aumentar a oferta local para conter os preços no país.

Houve uma drástica redução no comércio: as exportações de carne bovina argentina caíram 67% entre 2004 e 2013, em volume, segundo o IPCVA (instituto de promoção da carne bovina no país).

Parte da fatia que o vizinho deixou para trás na última década foi abocanhada por outros produtores, como o Brasil, e menos divisas entraram no país ao longo dos anos.

Os produtores de trigo enfrentam crise semelhante. Para conter a inflação da farinha e de derivados, como o pão, o governo limita as exportações do cereal -situação que acaba complicando o abastecimento no Brasil, que tem a Argentina como o seu principal fornecedor.

De acordo com dados do Usda (Departamento de Agricultura dos EUA), os embarques totais de trigo argentino passaram de aproximadamente 10 milhões de toneladas, na safra 2003/04, para 4 milhões na atual -reflexo de redução na área plantada.

Tudo em um cenário de crescimento no consumo e de bons preços externos nos últimos anos -fatores determinantes na decisão de plantio.

A situação só não é pior porque muitos produtores acabaram deixando a pecuária para plantar grãos (milho e soja, outras fontes de dólares para a Argentina).

Mas nem o complexo soja, que deve render cerca de US$ 23 bilhões aos argentinos neste ano, está ajudando o governo no controle do câmbio.

As vendas da atual safra estão 40% abaixo do volume verificado no mesmo período de 2013, segundo dados oficiais. A incerteza dos agricultores em relação ao câmbio, que vai definir a remuneração do produtor, está atrasando a comercialização.

O governo dá sinais de que percebeu que precisa ter o agronegócio como aliado para sair da crise.

O ministro Carlos Casamiquela, que assumiu a pasta da Agricultura em novembro, disse no mês passado, em entrevista ao jornal argentino "La Nación", que o governo estuda medidas para tornar o mercado mais livre e, assim, estimular a produção e o aumento das exportações.

O plano começou a ser colocado em prática há duas semanas, com a liberação para o embarque imediato de 500 mil toneladas de trigo.

O anúncio foi feito pelo ministro da Economia, Axel Kicillof. O problema é que o colega na Agricultura já havia sinalizado autorização para 1,5 milhão de toneladas -e até agora não se sabe quando ocorrerá a liberação para exportar a diferença.

Entre os produtores, o ruído de comunicação foi mais um sinal da falta de credibilidade do governo.
 
Fonte: Folha de São Paulo