Impulsionado por vantagens comparativas, fortalecido por pesquisas lideradas pela Embrapa, mais competitivo após a profunda desvalorização do real em 1999 e turbinado pela demanda doméstica e dos países emergentes em geral, o agronegócio brasileiro consolidou-se como um dos mais eficientes do mundo na última década e deverá ampliar seu protagonismo até 2022 – em menor velocidade, mas com ganhos de mercado em quase todas as principais cadeias produtivas.

Conhecido e repetido à exaustão por quem trabalha no campo ou tem ligação com ele, incluindo analistas e consultores, o cenário agora também é corroborado pelo mais amplo estudo já realizado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) sobre o setor, que será divulgado hoje. O trabalho consolida uma nova postura da entidade em relação ao agronegócio e sua importância inclusive para outros setores da economia.

"A Fiesp trabalha pelo desenvolvimento do Brasil e, nesse sentido, sempre atuou para garantir a integração e o crescimento dos diversos setores da economia. Nosso Departamento do Agronegócio nasceu dessa visão e da necessidade de formular e propor políticas que levem em conta a interdependência natural entre a atividade agropecuária e a indústria de insumos e alimentos", afirma Paulo Skaf, presidente da federação.

Realizado em parceria com o Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), o "Outlook Brasil – Projeções para o Agronegócio" está focado em dez grandes cadeias (algodão, arroz, cana, trigo, feijão, milho, soja, carne bovina, carne de frango e carne suína) e analisa seus impactos no segmento de fertilizantes, na infraestrutura de transporte, na lógica do uso da terra e na economia nacional.

Levando-se em consideração que o trabalho estima que o Produto Interno Bruto (PIB) dos principais segmentos analisados (arroz, milho, soja e derivados, açúcar, etanol e os três tipos de carnes) somou R$ 408,3 bilhões, o cruzamento das projeções sinaliza um crescimento desse conjunto de 42% até 2022, para R$ 578,2 bilhões. Apesar do avanço pujante, a participação desse universo de produtos no PIB nacional – cujo incremento real em 2012 foi estimado em 3,9%, e de 2013 a 2022, em 4,78% ao ano – tende a cair de 11%, em 2010, para 9% em 2022, em virtude do fortalecimento do setor de serviços. A fatia do agronegócio como um todo no PIB foi de 22% em 2010, de acordo com cálculos do Cepea/Esalq utilizados no "Outlook" de Fiesp e Icone.

Nesses parâmetros, detalha o trabalho, as cadeias em destaque contribuirão com 6% do crescimento esperado do PIB total brasileiro de 2010 a 2022. Isso com 23,2 milhões de pessoas ocupadas, 5,9 milhões a mais que há dois anos. "E a geração de empregos vai aumentar apesar da mecanização", realça Benedito da Silva Ferreira, diretor de agronegócios da Fiesp. Na equação exposta pelo estudo, essa geração de empregos adicionais representará 22% do total de novos postos de trabalho no país no período em questão.

Fiesp e Unica acreditam que a expansão das principais cadeias do agronegócio na ampliação de áreas ocupadas pela agropecuária no país será limitada. Em parte graças a ganhos de produtividade, mas também em razão do avanço das lavouras sobre áreas dedicadas hoje à pecuária extensiva. Dessa forma, preveem que as lavouras de primeira safra (algodão, arroz, feijão, milho e soja), que em 2011 cobriram 48,6 milhões de hectares, alcançarão 58,5 milhões em 2022, enquanto as pastagens recuarão de 181,7 milhões de hectares para 176,3 milhões.

"As pastagens estão aptas a receberem outras culturas, mas, para isso, terão de receber investimentos", ressalva Antonio Carlos Costa, gerente de Agronegócios da Fiesp. No total, o aumento será de 230,3 milhões para 234,8 milhões de hectares, considerando o novo Código Florestal aprovado pelo Congresso.

Das seis cadeias mais relevantes nas exportações que fazem parte do trabalho, a da carne bovina é a que tende a ganhar mais espaço no tabuleiro internacional até 2022, conforme o "Outlook", que para suas projeções segue metodologia adotada desde os anos 80 por instituições de referência como da Food and Agricultural Policy Research Institute da Universidade de Iowa (Fapri-ISU).

O trabalho estima que a produção de carne bovina do Brasil crescerá 1,5% ao ano de 2012 a 2022, abaixo da média mundial (1,9%), mas acima da média do país entre 2006 e 2011 (- 1,1%). Com isso as exportações deverão aumentar 4,3% ao ano na próxima década, menos que entre 2002 e 2011 (5,1%), mas mais que a média global (2,5%) projetada. Assim, o "market share" nos embarques mundiais poderá aumentar de 26,1%, em 2011, para 38% em 2022.

Como em outros emergentes, a demanda doméstica de carne bovina também deverá crescer com a tendência de aumento de renda da população. Conforme o trabalho, o consumo per capita subirá de 42,5 quilos por habitante ao ano para 43,2 até 2022; em termos absolutos, o salto será de 13%, para 9,3 milhões de toneladas/ano. O mercado interno ainda deverá absorver 77% da produção em dez anos, oito pontos percentuais a menos que em 2011.

Já responsável por quase 50% das exportações mundiais, a cadeia brasileira de carne de frango deverá ganhar mais espaço e alcançar participação de 54,1% até 2022. Mas o ritmo de avanço será menor na próxima década (3,4% ao ano, ante 10% entre 2002 e 2011), bem como o da produção (2,2% ao ano, ante 6,4% de 2006 a 2011). O consumo per capita interno deverá crescer 4,2 quilos por habitante ao ano até 2022, para 50,7, e a demanda doméstica total representará quase o dobro dos embarques (10,9 milhões de toneladas).

Mais discreto nas exportações mundiais de carne suína, o Brasil deverá ver sua fatia nas vendas globais passar de 10,5%, em 2011, para 13,4% em 2022. O ritmo de avanço deverá ser praticamente o mesmo que nos últimos dez anos (1,3%, contra 1,4%), mas o da produção será menor (1,8%, contra 2,9%). Nos dois casos, as diferenças em relação às médias mundiais são pequenas, em parte pela força da Ásia nesse mercado. Da produção prevista em 4,1 milhões de toneladas em 2022, 22% mais que em 2011, o consumo doméstico deverá representar 3,4 milhões, alta de 23% na comparação.

Se a produção brasileira de carnes em geral terá que crescer para atender aos incrementos das demandas doméstica e externa, a de grãos terá que acompanhar a curva.

Com a crescente demanda por farelo para a produção de rações e a perspectiva de expansão no segmento de óleos, para alimentação humana ou biodiesel, a produção brasileira de soja terá fôlego para crescer 2,8% ao ano entre 2012 e 2022 e atingir 96,9 milhões de toneladas, conforme o "Outlook". É menos do que entre 2006 e 2011 (5,9%), mas mais que a média mundial projetada (1,4%). Nesse horizonte, a fatia do país nas exportações poderá aumentar de 34,7%, no ano passado, para 41,2% – o que dará ao país a liderança nos embarques mundiais, hoje inferiores apenas aos dos EUA.

No milho, cereal utilizado também em rações, óleos comestíveis e na produção de etanol, a produção terá força para crescer 3% ao ano até 2022, até somar 79,7 milhões de toneladas por safra. As exportações tendem a crescer mais (3,4% ao ano, mesma taxa do avanço global), mas a participação do país nas exportações deverá cair de 10,3%, em 2011, para 9,5%. Isso por causa da forte demanda doméstica do segmento de carnes, sobretudo de frango e suína.

E no açúcar, finalmente, o "share" do Brasil nos embarques mundiais poderá subir de 67,6%, em 2011, para impressionantes 73% em 2022, com o crescimento anual da produção crescendo 2,4% ao ano – mais do que a média mundial (1,5%), mas menos que entre 2006 e 2011 (4,8%). Para o etanol, a expectativa é de salto de 103% da produção, para 56,2 bilhões de litros, e de 457% das exportações até 2022, para 10,3 bilhões.

Fonte: Suinocultura Industrial