Índice de preços FAO sobe 6%, mas para as carnes recua quase 2% Representantes da cadeia produtiva de combustíveis, governos, agência reguladora, instituições de pesquisa, associações de produtores e sindicatos de revendedores do biocombustível participaram ontem (08), em Brasília, do Workshop sobre Controle Pleno da Qualidade do Biodiesel e da Mistura com Diesel. Os debates apontaram a necessidade de ações para garantir a qualidade em todos os pontos da cadeia, da fabricação à venda ao consumidor final, passando pela mistura, pelo armazenamento e pelo transporte. Promovido pela Embrapa Agroenergia, o evento aconteceu na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. As questões relacionadas à estocagem do B5 (diesel com 5% de biodiesel) e ao transporte em vários modais (rodoviário, ferroviário, fluvial e marítimo) foram apontadas como as que dificultam a manutenção da qualidade do diesel que é vendido ao consumidor final.

 
Em sua apresentação, o presidente do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes – Sindicom,  Alísio Vaz, apresentou os desafios que setor vem enfrentando, com a introdução de novos produtos no mercado: o biodiesel e o diesel com menores teores de enxofre – S50 e S10. Ele destacou a importância da preocupação do setor produtivo e dos órgãos de pesquisa com a qualidade, uma vez que, na opinião dele, o biodiesel é um produto com tecnologia ainda em desenvolvimento. Para Alísio, a preocupação aumenta com a introdução no País do diesel S10, prevista para janeiro de 2013. “O S10 é mais sensível e manter o teor de enxofre baixo é um desafio”, ressalta. Destacou ainda que o diesel responde por quase metade de todo o combustível utilizado no País e seu consumo cresceu nos últimos anos, impulsionado pelo crescimento da classe média e do comércio de commodities. “Quem usa diesel, usa como seu ganha-pão, como seu negócio”, ressaltou, enfatizando mais uma vez a importância dos investimentos em qualidade. “As novas normas da ANP estão melhorando a qualidade e os próprios produtores estão investindo, assim como as entidades de pesquisa”, disse.
 
Laboratórios acreditados
 
O coordenador do Centro de Pesquisas e Análises Tecnológicas da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Vinícius Skrobot, mostrou, no Workshop, as ações da entidade para garantir a qualidade do biodiesel. Atualmente, para ser comercializado, o produto precisa ter um certificado emitido por laboratório credenciado junto ao órgão. A partir de 2013, as análises terão de ser feitas por empresas que atendam à norma ISO 17.025 e sejam acreditadas pelo Inmetro.
 
“O item qualidade vai estar sempre na agenda do biodiesel”, afirmou o coordenador da Comissão Executiva Interministerial de Biodiesel, Rodrigo Rodrigues. Ele contou que a proposta do grupo que coordena é aumentar gradualmente a porcentagem do biocombustível no óleo diesel até chegar a 10% em 2020. Além disso, a comissão propõe o estabelecimento de um fundo constituído por recursos dos produtores de biodiesel  para fomentar a inserção da agricultura familiar na cadeia produtiva bem como as pesquisas com matérias-primas regionais e com novos sistemas de produção.
 
Mistura de óleos
 
O professor da UFRJ e consultor da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), Donato Aranda, apresentou um estudo sobre o efeito da mistura de sebo ou óleo de palma ao óleo de soja sobre a oxidação do biodiesel. O sebo e o óleo de palma possuem ácidos graxos altamente saturados, que têm a propriedade de inibir a oxidação. Além disso, o óleo de palma possui antioxidantes naturais.
 
A pesquisa de Aranda apontou que a mistura de 30% de sebo ao óleo de soja permite produzir um biodiesel que atenda às especificações sem grandes necessidades de aditivos. Os antioxidantes do óleo de palma, no entanto, mostraram-se pouco eficazes para combater a oxidação do produto, quando utilizado em mistura com o óleo de soja.
 
Um novo diesel
 
O químico Robson Lewis trabalha com controle de qualidade do biodiesel desde que o produto foi introduzido na matriz energética brasileira, tendo atuado na criação do sistema de gestão da qualidade do produto na Petrobrás. Participante do Workshop, ele diz que entre os principais problemas para especificação do produto estão a turbidez e o ponto de fulgor, sendo este último o item mais difícil de ser tratado. Segundo Lewis, tais problemas já eram característicos do diesel, mas foram potencializados com a introdução do biodiesel. “Nós criamos, no Brasil, um novo diesel, que é mais sensível”, resumiu. O químico ressalta, no entanto, que o setor avançou muito no quesito qualidade, graças à união dos diversos elos da cadeia produtiva.
 
Os dados do Instituto Tecnológico do Paraná (TECPAR) apresentados durante o Workshop corroboram a opinião de Lewis. Wellington Vechiatto, do Centro de Energias Renováveis do Tecpar, mostrou os resultados de análises de vários parâmetros de qualidade do biodiesel de 2006 a 2011. Eles apontam expressiva melhoria, especialmente nos dois últimos anos. Vechiatto também contou a experiência do Instituto no monitoramento da qualidade do biodiesel empregado no Projeto Linha Verde, que abastece 32 ônibus de Curitiba com B100. “Observamos que o biocombustível sai da indústria de acordo com as especificações da ANP; o manuseio inadequado é que gera contaminação”, arrematou.
 
O pesquisador Eduardo Cavalcanti, do Instituto Nacional de Tecnologia, enumerou alguns gargalos para a garantia da qualidade da mistura de diesel com o biodiesel que chega ao consumidor: carência de informações para os transportadores (caminhoneiros) e controle de qualidade dos estoques nas usinas e no recebimento do produto por distribuidores e revendedores.
 
A professora Fátima Bento, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, estuda a presença de microrganismos no biodiesel e na mistura com diesel, e disse que a contaminação microbiana de combustíveis não é novidade. Ela reforçou que os métodos para combater o problema são conhecidos: limpeza e drenagem periódica dos tranques em diversos elos da cadeia (transportadores, misturadores, revendedores, etc.) e utilização de substâncias biocidas.
 
O Workshop contou ainda com a palestra de Gizelle Bedendo, da Sinc, que mostrou métodos analíticos modernos para determinar características de qualidade de óleos e biocombustíveis.
 
Debate aprofundado
 
Na abertura do evento, o chefe-geral da Embrapa Agroenergia, Manoel Souza, explicou que o Workshop foi idealizado com o objetivo de promover um debate aprofundado sobre o tema, que é particularmente relevante para a elaboração do segundo plano diretor do centro de pesquisa. “Esse é um momento rico de discussão para que possamos mapear os gargalos dos diversos setores ligados ao tema agroenergia”, afirmou.
 
A coordenadora do evento, Itânia Soares, lembrou que a Embrapa Agroenergia possui um laboratório com equipamentos e pessoal qualificado para realizar 24 dos 25 ensaios solicitados pela ANP na resolução que contém as especificações do biodiesel. “Estamos estruturados e temos muito o que fazer na pesquisa em benefício da sociedade brasileira”
 
Ainda na abertura do evento, José Honório Accarini, da Casa Civil, lembrou que, quando foi publicada a primeira especificação para o biodiesel, houve quem questionasse o governo brasileiro sobre as exigências de qualidade que ela continha, levando em consideração que a mistura ao diesel seria de apenas 2%. “Eu imagino os problemas que teríamos hoje se não tivéssemos insistido na questão da qualidade”, observou Accarini.
 
Fonte: Biodiesel BR