A Associação Brasileira de Reciclagem Animal – ABRA inicia uma série de entrevistas com os seus associados, onde poderemos mostrar os pontos fortes e experiências desses grandes empresários para o setor de Reciclagem Animal. O primeiro entrevistado é o Sr. Roger Matias que é Sócio Cotista da empresa Nutriforte. A indústria atua há 18 anos no Distrito Federal e no estado de Goiás. Comprometidos com o meio ambiente, o Sr. Roger Matias e seu sócio, Sr. Gilson Gomes da Cruz adquiriram recentemente uma pequena indústria de reciclagem animal em Porto Nacional – Tocantins que descartava de forma inadequada os resíduos da produção prejudicando assim não só o meio ambiente, mas também a imagem do setor de reciclagem animal. Os sócios também investem fortemente em estudos para o desenvolvimento e o aprimoramento dos produtos finais.
 
ABRA – Como surgiu a Nutriforte?
Roger Matias – A Nutriforte iniciou as suas atividades em novembro de 1994. Como o Gilson atuava na comercialização de carnes em Brasília, ele tinha muitos contatos e consequentemente facilidade de conseguir comprar as matérias-primas. Foi então que ele me convidou para juntos montarmos a nossa própria indústria. Começamos nossa atuação dentro do Distrito Federal, mas com o objetivo de aumentarmos a produção, resolvemos ampliar nossa atuação de compras para o estado de Goiás, onde há uma maior concentração de frigoríficos e consequentemente maior disponibilidade de matéria-prima.
 
ABRA – Quais são os produtos produzidos e o mercado de atuação?
Roger Matias – Hoje nós produzimos a farinha de carne e ossos e o sebo bovino, e dispomos de uma capacidade de produção que chega a 4.000 toneladas por mês. O nosso mercado de atuação para vendas atualmente é mais focado para o Distrito Federal e o estado de Goiás. Porém, de acordo com o volume de produção e a demanda, também fornecemos nossos produtos para outros estados, como São Paulo, Minas Gerais, Tocantins e Bahia. Atualmente fornecemos a farinha de carne e ossos principalmente para empresas de avicultura e fábricas de rações (petfood). Já em relação ao sebo, a maior parte de nossas vendas é para indústrias de biodiesel.
 
 
ABRA – Existe algum projeto de ampliação?
Roger Matias – Sim. Pretendemos investir no processamento de sangue e também em uma linha de processamento para aves, que é um mercado que tem crescido bastante no Brasil. Com isso, ampliaremos o nosso portfólio de produtos para o mercado.
 
ABRA – Atualmente os senhores investem bastante em estudos e no aprimoramento dos produtos, quando surgiu essa necessidade?
Roger Matias – A necessidade surgiu no momento em que começamos a nos deparar com um mercado mais exigente. Temos trabalhado de modo a investir na padronização de nossos produtos finais, principalmente a farinha de carne. Com isso, acreditamos ser possível agregar mais valor aos nossos produtos, a medida em que formos capazes de melhor atender às necessidades nutricionais de nossos clientes, assegurando níveis de garantia e padronização. Passamos a dar mais atenção aos responsáveis pela formulação das rações, nos preocupando com a garantia e a padronização dos níveis de nutrientes que ele necessita para que a ração gere os resultados esperados nos animais no campo.
 
ABRA – A empresa dos senhores é comprometida com o meio ambiente, quais são as suas ações para a preservação ambiental?
Roger Matias – A Reciclagem Animal em si já é uma atividade comprometida com o meio ambiente. Usamos como matéria-prima as partes não comestíveis resultantes do abate que poderiam causar contaminação ao solo e aos rios caso não fossem devidamente recicladas. Entretanto, temos a preocupação constante de evitar que resíduos do processo produtivo contaminem o meio ambiente (solo, água, ar), haja vista que nossas instalações ficam próximas à área residencial, o que torna a questão do controle da emissão de odores um ponto fundamental para a sustentabilidade do nosso negócio. Também estamos investindo em alternativas para atingirmos o reaproveitamento de 100% dos efluentes industriais gerados, principalmente a água retiramos dos subprodutos.
 
ABRA – Recentemente os senhores adquiriram uma Indústria de Reciclagem Animal autorizada a funcionar, mas funcionava de forma irregular em Tocantins, qual era a situação dessa planta?
Roger Matias – A indústria operava em condições totalmente precárias. O processamento da matéria-prima era feito utilizando-se autoclave, um equipamento que deixou de ser usado há muitos anos. Desta forma, parte dos resíduos do processamento dos subprodutos estava sendo descartada de forma inadequada em aterro sanitário, e posteriormente em valas cavadas dentro da própria área, que iam sendo fechadas e abertas de acordo com a produção desses resíduos. Durante o período que funcionou, foram descartadas diariamente cerca de três toneladas de resíduos.
 
ABRA – Por que adquiriram essa planta?
Roger Matias – Nós temos outra planta nas proximidades do terreno onde funcionava essa e eu não entendia como uma indústria continuava funcionando de forma tão precária, e concorrendo conosco de forma desleal. A própria ABRA fez uma denúncia junto aos órgãos públicos competentes, mas o estabelecimento continuava em funcionamento. Então, resolvemos fazer uma proposta de compra ao proprietário. Com o processo de compra concluído, passamos a processar em nossa indústria toda a matéria-prima que era processada naquela empresa, restabelecemos nosso volume de produção e ainda evitamos que a contaminação do meio ambiente continuasse.
 
ABRA – No seu ponto de vista, qual é o motivo para que indústrias continuem atuando de forma precária?
Roger Matias – A fiscalização federal tem sido bem rigorosa. E isso é bom. Temos recebido inspeções periódicas do Serviço de Inspeção Federal – SIF em nossas indústrias. Entretanto, ainda existe um grande desnível entre a fiscalização federal e as fiscalizações estaduais e municipais, que em geral são bem menos exigentes e aparelhadas. Com isso, alguns empresários se aproveitam dessas falhas para instalarem estabelecimentos obsoletos e precários, realizando assim concorrência desleal com as indústrias que são registradas no Serviço de Inspeção Federal – SIF.
 
ABRA – Quais são as suas expectativas para o setor de Reciclagem Animal?
Roger Matias – As expectativas são positivas. Vejo uma tendência de equilíbrio na relação entre a oferta e demanda dos nossos produtos para os próximos anos, o que nos deve resultar numa significativa estabilidade dos preços, inclusive nos períodos de safra de soja.
 
ABRA – Quais são os desafios para o setor?
Roger Matias – Dentre os principais desafios que enxergo para o setor, creio que mudar o foco da matéria-prima para os produtos finais seja um dos mais importantes. Historicamente, sempre fomos muito preocupados em assegurar volume de matéria-prima. Embora isso continue sendo importante, acredito que precisamos focar em como agregar mais valor aos nossos produtos, entender melhor as necessidades de nossos clientes e buscar atendê-las.
 
 
 
ABRA – Como associado, qual é a importância que o senhor vê em uma entidade representativa de classe, como a ABRA?
 
Roger Matias – A Associação é de grande importância, pois sua atuação contribui muito para o fortalecimento e o crescimento do setor. Desde sua fundação, o segmento de Reciclagem Animal se tornou mais conhecido, organizado e respeitado. Atualmente, é ela quem faz a ponte entre os empresários do setor com o poder público, além de garantir a representatividade junto aos demais segmentos empresariais que interagem com o setor. O Diagnóstico do setor feito recentemente mostrou claramente a dimensão do segmento da Reciclagem Animal no Brasil, e principalmente a sua importância econômica para o país.