A safra brasileira de grãos que foi plantada neste ano e será colhida em 2014 está estimada em 195,9 milhões de toneladas. São 4,8% a mais em relação ao resultado anterior. O crescimento na área plantada de grãos foi de 3,6%, que saiu de 53,2 para 55,2 milhões de hectares, segundo o terceiro levantamento feito pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), e divulgado ontem pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Os dados mostram que o produtor rural continua fazendo o dever de casa e conseguindo colher mais em áreas menores, ou seja, com ganhos reais de produtividade. Mas outros gargalos impedem que o país possa colher uma receita ainda melhor com o lastro de sua âncora verde. 

Para ter ideia, o valor do frete usado pelo setor agropecuário chega a representar 30% do custo da produção. Peso importante para controle da inflação do país, os alimentos vão sofrer o impacto do encarecimento do óleo diesel reajustado em 8% nas refinarias. A correção no preço do combustível impacta o custo não só do transporte, mas da colheita mecanizada. Em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, o ministro da Agricultura, Antônio Eustáquio Andrade Ferreira, mineiro de Patos de Minas, disse que medidas para favorecer a eficiência nos portos do país vão compensar o encarecimento do combustível e segurar uma disparada no preço dos alimentos do campo para a mesa do consumidor. Para ele, a produção agrícola nacional é estratégica e tem fôlego para sustentar o crescimento da exportação de alimentos.

Em qual proporção o reajuste do óleo diesel vai impactar o preço dos alimentos e qual será a repercussão dessa alta inflação do país?

O frete representa 30% do custo da produção, evidentemente o combustível traz um grande impacto para a agropecuária, mas esse reajuste no preço do óleo diesel vai ser compensado pela eficiência. A partir de 2014, o tempo para embarque da produção será reduzido. O intervalo entre o embarque dos grãos em uma fazenda no Mato Grosso, por exemplo, até o Porto de Santos (SP), é de até 15 dias. Mas esse prazo vai diminuir para quatro dias. O Brasil tem processos de produção mais eficientes que o resto do mundo, mas o custo do transporte no porto por tonelada é quatro vezes maior que o dos Estados Unidos, exatamente por questões ligadas ao sistema rodoviário e portos, que trabalham no limite. É esse custo que precisamos reduzir. Com esse processo de escoamento mais eficiente e crescimento da produção agrícola, os alimentos vão contribuir para manter a inflação dentro da meta do governo. Os produtos agrícolas não são nem serão os vilões em 2014.

Quais são as medidas que vão reduzir o tempo gasto no escoamento da safra?

Na semana que passou fizemos reunião com participação dos ministérios da Agricultura, Transportes e Portos. O Ministério da Agricultura terá fiscalização funcionando durante sete dias da semana por 24 horas nos portos. Teremos também a fiscalização integrada em um único processo e medidas de controle e eficiência como o lacre eletrônico: todos os contêineres já vão sair lacrados da origem. Esperamos uma melhoria no tráfego rodoviário junto com o melhor fluxo nos portos, que vão trabalhar de domingo a domingo, 24 horas. A reorganização vai possibilitar o agendamento dos caminhões. Em vez de a carga esperar no porto, vai aguardar pelo embarque na origem. Vamos trabalhar também na estocagem, outro grande gargalo. Teremos investimentos de R$ 25 bilhões em cinco anos, o que significa aumentar a capacidade dos armazéns em 65 milhões de toneladas no período. A ampliação da capacidade estática será de 13 milhões ao ano. Hoje, o que ocorre é que a estocagem da safra está sendo feita nos caminhões.

Essas medidas serão suficientes para reduzir o tempo dos embarques e incentivar a produção?

Sim. As medidas vão melhorar a eficiência da porteira para fora. Produzir alimentos no país tem sido um bom negócio e há incentivos para o ritmo continuar acelerado. Temos um superávit na balança comercial de US$ 85 bilhões nos últimos 12 meses e na safra 2013-2014 ainda devemos superar a marca dos 200 milhões de toneladas, quando a expectativa é de 196 milhões. É importante dizer que só exportamos o excedente e não há risco de o mercado interno ficar desabastecido, o que garante grande oferta ao consumidor e contribuição do setor no controle à inflação. Em 2013 vamos exportar 12 milhões de toneladas de alimentos a mais que no ano passado e a previsão é de exportar 15 milhões a mais em 2014 em relação ao ano anterior, um crescimento superior a 10%.

Em 2013 o custo de vida foi pressionado pelo encarecimento de produtos de grande consumo nacional, como o feijão e o tomate. Os problemas podem se repetir?

Os preços do feijão já estão baixos novamente. Abrimos para importação da China e do México no momento certo. Hoje não temos mais que importar. O tomate chegou a custar mais de R$ 10 o quilo por questões climáticas, sazonais, assim como o feijão. Ambos são produtos que não há como estocar e por isso houve alta de preços.

O país ainda enfrenta barreiras sanitárias de mercados importantes como o chinês. Quais são as perspectivas para 2014?

O Brasil é o segundo maior exportador mundial de alimentos e está qualificado para comercializar seus produtos para qualquer lugar do mundo. O papel do governo é garantir esse comércio, abrir mercados para a produção nacional. A China hoje compra 50% da soja transgênica brasileira. O mercado no país asiático também está aberto para o frango e a carne suína. No inicio do ano que vem vamos receber visitas de uma comitiva do país para abrir o mercado chinês também para a carne bovina brasileira. Hoje o Japão também se tornou um dos compradores da carne suína brasileira e exportamos, pela primeira vez, aves para o México.

Mas essas aberturas não pressionam os preços no mercado interno?

Novos mercados são abertos para garantir o escoamento da safra e ao mesmo tempo incentivar a produção. Este ano tivemos um recorde da produção de máquinas e equipamentos agrícolas, o que demonstra o bom momento por que passa a agricultura brasileira. A segurança alimentar do país está garantida.

A crise do café afeta negativamente os resultados do setor agropecuário e também já está fazendo produtores desistirem da atividade. Qual a perspectiva para o setor?

A saca do café chegou a R$ 510 há dois anos e despencou para R$ 210. A oscilação não é saudável para o produtor nem para o consumidor: o ideal é que haja um equilíbrio de preços. O governo lançou um plano para renegociação das dívidas do setor. A ideia é que de imediato parte da cafeicultura seja substituída por outras atividades. É possível, por exemplo, o cultivo da azeitona, macaúba e outras culturas, de forma consorciadas. Minas produz mais de 50% da safra nacional de café. Mas, em vez de renovar a lavoura, o produtor poderá transformar parte do plantio em outras culturas. Hoje o consumo do café está adequado à demanda. Reduzir a oferta em 10% significa 5 milhões a menos de sacas no mercado e a garantia de preços mais sustentáveis.
 
Fonte: EM.com