Presidente da International Feed Industry Federation (IFIF) desde 2011, o brasileiro Mario Sério Cutait, antes de assumir o cargo, fundo e presidiu a Feed Latina, Associação das Indústrias de Alimentação Animal da América Latina e Caribe, e foi presidente do Sindirações – Sindicato Nacional das Indústrias de Alimentos para animais. Além do trabalho nas entidades, Cutait é diretor do Grupo M. Cassab, empresa nacional que completa em 2013, 85 anos de atividades e tem atualmente 15 unidades de negócios, especializado na exportação, distribuição, trading e produção de insumos para diversos segmentos.
 
Cutait tem profundo conhecimento e experiência das oportunidades e desafios da indústria internacional de alimentação e foi um dos criadores da importante Conferência Internacional Global Feed & Food Congress, realizada em 2005 e 2007, em São Paulo e em 2010, em Cancun, no México em conjunto com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) e IFIF.
 
Confira a entrevista que o executivo concedeu a Revista Graxaria Brasileira para falar sobre o mercado brasileiro de alimentação animal, os desafios, as projeções, a sua atuação à frente do IFIF.
 
Revista Graxaria Brasileira – Qual é a posição atual da indústria brasileira de alimentação animal quando levamos em consideração o cenário internacional?
Mario Sergio Cutait – O Brasil, com 64 milhões de toneladas, é o terceiro maior produtor global de alimentos para animais, atrás dos EUA e da China, que são bem maiores do que nós (aproximadamente três vezes mais).
 
Revista Graxaria Brasileira – Em se tratando de qualidade dos alimentos, tecnologia empregada e evolução nos processos produtivos, qual é a análise do mercado brasileiro?
Cutait –  Sob todos estes aspectos, o Brasil não deve nada a nenhum país. Temos aqui os melhores processos de qualidade, rastreabilidade e temos excelentes exemplos de Boas Práticas de Fabricação (BPF). Sem contar que somos um país abençoado! As nossas condições climáticas, a terra e a água que possuímos são suficientes para ampliarmos a nossa produção, sem tocar no bioma Amazônico. Temos milho, soja, trigo, demais grãos e cereais em abundância e de alta qualidade, permitindo uma ótima flexibilidade da formulação das rações.
 
Revista Graxaria Brasileira – Sobre os estudos e os níveis de pesquisas realizados pelos profissionais brasileiros, qual a sua opinião?
Cutait – Hoje em dia, toda informação acerca do setor de nutrição animal ( novas formulações de rações, tendências e atuais necessidades) está acessível e disseminada a um grande número de pessoas. Além disso, contamos com a contribuição de excelentes universidades, como por exemplo, a Universidade Federal de Viçosa. Contamos também com a importante contribuição do EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, que em Santa Catarina exerce uma forte atuação na área de aves e suínos e em Campo Grande, no setor de bovinos. Não ficamos atrás de nenhum país! Temos alta tecnologia à disposição. Vale ressaltar que  a carne que produzimos aqui e usamos no mercado interno tem a mesma qualidade da carne que exportamos.
 
Revista Graxaria Brasileira – Quais os desafios da indústria nacional de alimentação animal?
Cutait – É fato que o Brasil irá crescer na produção de proteínas animais, consequentemente as indústrias de pet food e de rações agropecuárias serão alavancadas. Mediante esta constatação, os nossos desafios são muitos. Primeiro, precisamos garantir o abastecimento dos insumos, inclusive provenientes das graxarias. O segundo desafio é que as rações necessitam ter custos justos e neste aspecto dependemos das ações do Governo.O setor para alimentos de animais precisa ser desonerado de PIS/COFINS. Neste sentido, vivemos uma “insegurança” tributária. Há também projetos de lei para a mudança na tributação de ICMS, que afeta consideravelmente o nosso setor. O nosso segmento, especificamente neste ano, precisa de mais atenção na questão dos financiamentos. Com o aumento no preço dos grãos, os produtores de proteínas animais ficaram sem capital de giro, já que o aumento do preço de grãos vem antes do aumento dos preços de carne. Mediante este cenário, tivemos uma descapitalização no setor de carnes e proteínas animais, um desarranjo entre os elos da cadeia de negócios, afetando desde os fornecedores de insumos, passando pelos fabricantes de rações, chegando aos produtores de proteínas animais até o varejo. As rações representam quase 80% dos custos das proteínas. O Governo tem um papel importante para melhorar o cenário, deve ter políticas mais claras e urgentes, desonerar impostos e taxas, facilitar fontes de financiamento.
 
Revista Graxaria Brasileira – Atualmente está acontecendo algum movimento do setor para pleitear junto ao Governo as melhorias necessárias?
Cutait –  Com certeza! O nosso setor não para de buscar melhorias e constantemente procura o Governo. Todas as entidades de classe, como o SINDIRAÇõES, as querepresentam os produtores de proteínas e a próprio FIESP estão engajadas. Ficamos perplexos ao constatar que há setores da economia como a indústria automobilística e a indústria que produz linha branca serem beneficiadas, enquanto isso, mercados primordiais como o de alimentação, que afeta não “apenas” o bolso de 200 milhões de pessoas, como a saúde, sendo uma questão de sobrevivência, não recebe a atenção que deveria.
Revista Graxaria Brasileira – Com relação às exportações brasileiras como estamos posicionados?
Cutait – O Brasil exporta pet food, suplementos, alguns insumos/matérias-primas  como as farinhas de carne e outros subprodutos, além de aminoácidos etc. Mas, a balança comercial deste setor é ainda altamente deficitária. Importamos quase que 1 bilhão e meio de dólares por ano de microingredientes para produzir as rações. Cerca de 95% desta importação está relacionada a produtos que não há similares nacionais. O Ministério da Indústria e Comércio realizou um trabalho de investigação para identificar as razões que levaram o Brasil a não produzir estes insumos à base de química fina e de processos fermentativos. Mas, não adianta apenas entender os motivos é preciso criar uma política para atrair estes investimentos. Não podemos continuar nesta dependência de importação de 100% das vitaminas, dos antibióticos e dos melhoradores de desempenho. São produtos fundamentais para a saúde dos animais e para a competitividade da carne brasileira. Esta situação não é exclusiva no Brasil, como em toda a América Latina.
Revista Graxaria Brasileira – O senhor sempre prestigia a FENAGRA, como analisa a realização da feira para o setor? Teria alguma consideração a fazer?
Cutait – A FENAGRA é altamente positiva para o setor, mas acho também que temos um excesso de eventos no País. Se pudéssemos concentrar estes eventos, o mercado sairia ganhando. A FENAGRA conta com os produtores de insumos e sabemos que tem por lá os clientes dos setores de pet food, avicultura, dentre outros, mas deveríamos agregar mais elos da cadeia de proteína animal e fazer um evento maior. O setor precisa de um evento onde todos os elos da cadeia possam se comunicar, discutir desafios, oportunidades e o mais importante, sair destes eventos com um plano de ação. É fundamental que o agronegócio brasileiro (incluindo as agroindústrias, indústrias de rações e graxarias) se comunique “fora da caixa”, isto é, saiba se comunicar com consumidores e as comunidades médica e científica. Isto é de fundamental importância para transmitir a imagem correta de segurança e saudabilidade das proteínas animais, sempre baseada na ciência e não na ideologia.
 
Revista Graxaria Brasileira – Qual a projeção para o setor de nutrição animal?
Cutait – Mediante a situação caótica no preço de insumos é difícil fazermos hoje em dia uma projeção. A projeção para daqui 40 anos é que teremos mundialmente para alimentar mais de 2 bilhões de pessoas e, certamente, o Brasil terá um papel importante neste cenário. Temos condições de produzir mais. Há projeções da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), dizendo que já em 2020, o Brasil terá que aumentar em 40% a sua produção de alimentos, o que acaba impulsionando também as indústrias de ração e de proteínas animais.
 
Revista Graxaria Brasileira – Quais as razões que o levaram a fazer parte da presidência da IFIF?
Cutait – Há coisas nesta vida que não escolhemos, chegar à presidência da International Feed Industry Federation (IFIF) é um exemplo Há cerca de 15 anos iniciei o trabalho no SINDIRAÇõES, convidado pelo então presidente da entidade, Stephen Wey, depois fui convidado para ser presidente da entidade e formei junto com um grupo de empresários da América Latina, a Associação Latino Americana dos Fabricantes de Ração – Feedlatina e começamos a trabalhar na IFIF,  que na época era uma entidade polarizada nos produtores da Europa e Estados Unidos. A entidade se desenvolveu e no ano passado fui convidado para assumir a IFIF com o objetivo de engrandecer a entidade mundialmente. Nos últimos anos atraímos diferentes países (África do Sul, China e Índia), com isso fortalecemos a IFIF. Hoje, a entidade representa mais de 80% da produção mundial. Nós efetivamente representamos a indústria global de ração.
 
Revista Graxaria Brasileira – Nos conte sobre o trabalho na presidência da IFIF.
Cutait – Os desafios são constantes e variados. Trabalhamos temas regulatórios. Temos no mínimo duas reuniões por ano com os reguladores, que são os responsáveis por elaborarem as legislações em mais de 40 países, para discutir os desafios do setor. Participamos das reuniões do CODEX ALIMENTARIUS juntos com estes reguladores, interagindo com eles. Temos um Memorando de Entendimento com a FAO – Roma para promover as Boas Práticas de Fabricação em nível global. O trabalho à frente da IFIF é contínuo. A cada dia surgem novos desafios. Atuamos no setor a partir de duas frentes: inovação e tecnologia, baseados em princípios da ciência. Não discutimos ideologia, mas sim ciência. Também focamos na questão da sustentabilidade, ou seja, temos que produzir mais, melhor, utilizando menos água e recursos, preservando o meio ambiente para as gerações futuras, mas a um custo justo para o consumidor final. Temos que nos preocupar com que custo a carne chegará ao mercado.
 
Revista Graxaria Brasileira – Quais as contribuições para o nosso mercado, tendo à frente da IFIF um brasileiro?
Cutait – O Brasil está inserido no mundo. Podemos ser o maior exportador de carne bovina e de frango, mas na verdade o mundo é interdependente. Precisamos ter uma estratégia como país, ser pró-ativo em nível global, não só para defender o mercado como para conquistá-lo. As cadeias das proteínas animais, de insumos e de rações devem participar dos Fóruns Internacionais e das entidades internacionais, tendo como base os princípios do fair trade, ou seja, comércio justo, sem perder o foco na ciência e encarando a responsabilidade que temos: o papel de produzir muito mais e num futuro próximo. A IFIF tem números apontando que em 2050 a produção de proteínas animais será três vezes maior. Quando me refiro às proteínas, entram as carnes bovinas, suínas, frangos e a aquacultura, que recebe pouca atenção! Um grande equívoco, pois embora a base seja pequena é a produção que mais cresce percentualmente. Se mantiver estes níveis de crescimento, em 2050 a produção de aquacultura será maior do que das outras carnes juntas.
 
Revista Graxaria Brasileira – Qual o foco de atuação da IFIF para 2013?
Cutait – Em 2013 o grande tema da IFIF será o Global Feed & Food Congress, ww.gffc2013.com  realizado em conjunto com a FAO  e que acontecerá em abril de 2013, em Sun City, na África do Sul. Na ocasião os reguladores de diferentes países se encontrarão e toda a cadeia de negócios se reunirá para discutir os desafios atuais e futuros do mercado de alimentos, como um todo. Lá serão discutidos temas como: garantia de suprimentos de grãos, questões voltadas à ciência, temas regulatórios, entre outros primordiais aos negócios. E, tudo isso será realizado em um continente que costumamos não dar muita atenção, mas que pela extensão do território, pela quantidade de habitantes e potencial de consumo, tem tudo para ser a “bola da vez”.
 
Revista Graxaria Brasileira – Sobre a M. Cassab, qual o posicionamento no mercado de nutrição animal?
Cutait –  Em 2013 completamos 85 anos e o setor de tecnologia animal é o principal segmento da empresa hoje. Atuamos para todas as espécies de animais, fornecendo desde insumos para alimentação animal, produtos para saúde animal, soluções na forma de misturas, soluções para questões de qualidade, para serviços de análises clínicas,apresentamos inovação em formulações, novos ingredientes, auxiliamos o cliente a encontrar soluções para reduzir custos etc. Temos forte atuação em trading, com o fornecimento de soluções logísticas e financeiras para os clientes.Em 2012 investimos 15 milhões de reais em uma fábrica em Campo Grande, unidade que se dedica a alimentos para bovinos; outros 3 milhões de reais em pesquisa para renovação de nossos registros de produtos na área de saúde animal e mais 2 milhões em renovação nas fábricas atuais. O grupo não para de investir, acreditamos no Brasil e no mercado, mesmo com as dificuldades e vamos continuar crescendo, tanto organicamente, quanto com aquisições, quando houver oportunidade.
 
Revista Graxaria Brasileira – Qual a sua mensagem para o mercado?
Cutait –  O Brasil já atravessou inúmeras crises, inclusive piores do que a de hoje.  Acredito que o nosso setor tem que ter o pé no chão, estratégia, união e olhar o futuro de uma maneira otimista. Claro que agora todos estão preocupados com o seu fluxo de caixa, com as contas a pagar, com o financiamento e o foco tem que ser este mesmo. Mas, eu penso que quando todos os elos da cadeia se unirem para discutir estratégias e planejamento, efetivamente tomando medidas para melhorar esta situação, chegaremos a um futuro melhor e sustentável, a longo prazo. O Brasil terá o seu papel de fornecedor mundial de proteínas e quem Sobreviver, transpor as dificuldades, certamente se beneficiará e terá um futuro melhor.
 
Fonte: Revista Graxaria Brasiliera