Embora não seja recente, o setor de reciclagem animal, através de sua entidade representativa, busca identidade para conquistar espaço no mercado de proteínas. O consultor executivo da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra), José Eduardo Borges Malheiro, respondeu em entrevista quais são os principais desafios para conceituação da atividade.

Por Lilian Araujo Sartório e Rodolfo Antunes                                                     
Fotos por Élson Yabiku 

A reciclagem animal não é uma atividade nova no Brasil. O aproveitamento de partes não comestíveis de produtos originários do abate e de recortes de açougues acontece constantemente tanto para a própria produção animal quanto para outras destinações. No entanto, foi nos últimos anos que o setor constitui uma representação: a Associação Brasileira de Reciclagem Animal (ABRA). Com interesse em obter legislação específica, amparar empresas e desenvolver pesquisas a ABRA lançou, no final de 2011, o I Diagnóstico da Indústria Brasileira de Reciclagem Animal para apresentar o perfil do segmento. “O Ministério da Agricultura tem nos apoiado bastante na luta para a construção de nossa identidade. Nós precisamos de um endereço, de uma Classificação Normativa de Atividade Econômica (CNAE)”, explicou o consultor executivo da Associação, José Eduardo Borges Malheiro. No ano de 2010, o setor de reciclagem animal registrou um Produto Interno Bruto (PIB) de cerca de R$ 6 bilhões, o que reitera a importância desse segmento para a economia nacional. Em entrevista, Malheiro destaca as perspectivas e desafios da Abra para fomentar o setor de reciclagem animal e explica quais são as demandas do segmento no Brasil e no mundo.

Biomassa & Bioenergia – O senhor poderia traçar um panorama do setor de reciclagem animal no Brasil atualmente? Em que estágio de desenvolvimento o setor se encontra no País hoje?
José Eduardo Borges Malheiro – Até o início de 2000 o setor de reciclagem animal, praticamente era desconhecido como tal. A partir de edição, pelo Mapa, da primeira Instrução Normativa, que foi a IN 15, em 29/10/2003 os olhos se voltaram para essa atividade, um importantíssimo elo na cadeia da carne. A partir de então, notou-se a importância que a reciclagem animal possuía na cadeia, tanto no aspecto ambiental como também na destinação adequada dos resíduos originados do abate animal.
Com isso todos os empresários do setor, buscaram a adequação de suas indústrias à nova realidade do mercado, investindo em tecnologia e principalmente em qualidade no processamento e no produto final.

B&B – Quantas empresas processadoras de resíduos de origem animal (ROA) existem no Brasil atualmente?
José Malheiro – Conforme dados do I Diagnóstico da Indústria Brasileira de Reciclagem Animal, existem hoje, registradas no Mapa, portanto com Sistema de Inspeção Federal (SIF), 343 graxarias e, 169 fábricas de produtos não comestíveis (Independentes). Estão fora desse total as empresas com Sistema de Inspeção Estadual (SIE) e Serviço de Inspeção Municipal (SIM).

B&B – Qual é a diferença entre graxaria e fábricas de produtos não comestíveis?  
José Malheiro – A Graxaria é a unidade que está associada ou que funciona dentro de um Frigorífico/Abatedouro, de forma anexa. E a Fábrica de Produto não Comestível, ou Independente são as que funcionam de forma autônoma, fora dos frigoríficos/abatedouros, se abastecendo de resíduos do abate originados dos frigoríficos/abatedouros, que não processam os mesmos, e também da coleta realizada em casas de carne e açougues.

B&B – Quantas toneladas de resíduos de origem animal (ROA) o Brasil processa anualmente? Qual o significado desse volume em relação à indústria de reciclagem animal de outros países?
José Malheiro – Conforme também dados do I Diagnóstico, foram processadas 12,4 milhões de toneladas de ROA em 2010. Não temos ainda os dados finais de 2011, mas como houve um crescimento nas exportações de carne do Brasil, estimamos que a quantidade tenha sido superior a esta.
Tendo em vista ser o Brasil o maior exportador de carne do mundo entendemos que também somos o maior processador de subprodutos.

B&B – Existe algum país que pode servir de referência para o Brasil no segmento de reciclagem animal? Por quê?
José Malheiro – Quando pensamos em farinhas e gorduras de origem animal, temos sempre que nos guiar pelos EUA – maior produtor mundial -, Austrália – segundo maior exportador mundial, e principalmente, na novíssima legislação europeia lançada em Julho de 2011, onde regem-se os padrões de farinhas e gorduras lá produzidos.

B&B – Do total de ROAs produzidos no Brasil qual a participação farinhas e gorduras?
José Malheiro – No processamento de farinhas e gorduras, grande parte da água presente é eliminada para se garantir a estabilidade do produto final. De cada 100kg de material processado, foi produzido (média nacional), 27,4kg de farinhas e 15,8kg de gorduras.

B&B – O processamento dos resíduos de origem animal (ROA) tem diversos destinos como as indústrias de ração animal, químicas, cosméticas, energéticas (biocombustíveis) etc. Qual a participação (percentual) de cada um desses segmentos?
José Malheiro – De tudo o que o setor produz os maiores consumidores em ordem decrescente, são: Agroindústria do frango de corte (46,8%); Suinocultura (15,3%); Higiene e Limpeza (13,3%); Petfood (8,7%), biodiesel (5,6%); Aves de postura (3,9%); Peixes, perús, camarões e demais animais de produção não ruminantes (3,9%); Exportação, lubrificantes, compostagem e demais setores (2,4%). 

B&B – Na opinião do senhor, quais são as potencialidades econômicas do setor de reciclagem animal no Brasil?
José Malheiro – Considerando que os números apurados no I Diagnótico são das empresas com SIF, sabemos que apenas quando conseguirmos levantar integralmente os valores totais teremos a exata dimensão do nosso setor. Além disso, como já foi frisado, com o crescimento constante do abate animal no pais há reais possibilidades de agregar valor aos produtos finais, o potencial é sem limite.

B&B – Como a área de pesquisa atua no setor de reciclagem animal? A quantidade de estudos tem forte atuação no setor? Quais instituições fazem esse tipo de pesquisa?
José Malheiro – Ainda é muito pequena a atividade de pesquisa neste setor. A Abra criou esse ano o Departamento Técnico que terá contribuição decisiva nesta área.

B&B – Quais os principais desafios do setor de reciclagem animal hoje no Brasil?
José Malheiro – O principal desafio do setor é buscar uma identidade para a reciclagem, conseguindo dessa forma uma união de todos os empresários no sentido do fortalecimento deste segmento industrial. Como foi visto no I Diagnóstico, existe uma diversidade de classificação das empresas o que impede ações junto ao governo na busca deste fortalecimento.
Outro grande desafio do setor é a busca de novas tecnologias para o desenvolvimento dos atuais e criação de novos produtos visando buscar outras áreas de fornecimento de produto acabado, como área farmacêutica.

B&B – Como o senhor avalia a legislação vigente para o setor de reciclagem animal. As regras são restritivas? O que poderia ser feito nesta área?
José Malheiro – Atualmente o setor segue as determinações contidas no RIISPOA e na IN 34, porém não existe uma política pública de incentivo a essa importante atividade realizada pelo setor. Muito mais poderia ser feito, como a produção de biodiesel a partir da mortalidade de campo, adubo a partir do Material Específico de Risco para a BSE, reduzindo o impacto ambiental da atividade produtiva da cadeia da carne. Estamos buscando isso através da ABRA, o que somente será possível quando conseguirmos a identidade citada acima.

B&B – E no campo tributário? O sistema tributário brasileiro penaliza e inibe o desenvolvimento do setor? Quais as propostas do setor na esfera tributária?
José Malheiro – Sim. Somos penalizados pelo sistema tributário, haja vista algumas isenções no setor da carne, que não fomos incluídos, embora pertençamos à mesma cadeia.
Faz parte também de nossos desafios, buscarmos junto ao governo uma tributação específica e adequada para o setor.
B&B – Como é relação do setor com o governo brasileiro? O governo federal dá atenção devida às demandas do setor? O que pode ser melhorado nessa relação?
José Malheiro – Nós temos uma relação muito estreita com o Mapa, que é o setor responsável pela regulamentação do nosso setor, do setor que reciclagem animal, que é regido por Instruções Normativas e Legislações emanadas por ele. Nós necessitávamos deste apoio para poder entender as regulamentações, enfim, toda a dinâmica do setor. No Diagnóstico, o Ministério nos cedeu todas as informações que ele dispunha na cadeia da carne para que nós pudéssemos realizá-lo.
Também temos um relacionamento muito próximo com todo setor da Secretaria de Defesa Agropecuária e com o próprio secretário. Ele nos ajudou muito no início da entidade, orientando e nos levando ao ministério. E hoje, por acaso, ele é o secretário da Defesa Agropecuária.

B&B – Há algum tipo de incentivo, como linhas de créditos específicas, para fomentar o desenvolvimento do setor no Brasil?
José Malheiro – Esta é umas das reivindicações da Abra: a identidade do setor. Nosso trabalho, no diagnóstico, consta que necessitamos resumir a Classificação Normativa de Atividades Econômicas (CNAE), que é o número da atividade econômica de uma empresa. Das 340 empresas independentes, nós identificamos 27 CNAE’s, ou seja, cada uma tem uma classificação.
Quando conversamos com o Governo, ele questiona: tem que dar um benefício para qual CNAE? Produto alimentício, produto de origem animal ou outra vertente? Tem tantos CNAE’s que fica difícil de incluir uma única identificação do setor. Então, um dos trabalhos que a Abra pretende fazer é estipular uma única CNAE para todo o setor de Reciclagem Animal, para todas as empresas, que geralmente são associadas e congregam as maiores. No sentido de que tenhamos a identidade e, a partir daí, lutar por incentivos, benefícios fiscais e tudo mais. Porque não existe uma legislação específica para o setor, a não ser a emanada pelo Mapa em termos de funcionamento e identidade da empresa.

B&B – Que tipo de demanda o setor tem nessa área? Linhas de crédito para a expansão/modernização das empresas do setor? Incentivos para investimentos em inovação tecnológica?
José Malheiro – O que as empresas têm feito é o seguinte: adotando as linhas existentes junto ao Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), como o Plano de Sustentação da Indústria (PSI), que não são específicas para o nosso setor, mas para toda indústria. São financiamentos com juros de 4,5% ao ano, com dois anos de carência e oito anos para pagar. Não é uma coisa exclusiva para o nosso setor. É para a indústria brasileira, mas é o que temos em recurso
Porém, especificamente em função de sermos uma atividade ambientalmente correta, e que auxilia na não degradação do meio ambiente, nós não temos nada especifico ainda. É o que a Abra vem batalhando, para unificar o setor, normatizar e ter uma identidade própria, para ter algum benefício em função dessa atividade.

B&B – O setor de reciclagem animal possui este forte apelo ambiental. O senhor acredita que a sociedade no geral e os órgãos governamentais em particular, têm consciência desse atributo?
José Malheiro – Muito pouca. Talvez o governo possua um pouco mais, por estar por dentro das atividades do setor. Até 2003, como expliquei, o segmento praticamente não existia, era um apêndice da indústria de carnes. De certa forma, o trabalho ficava oculto, dentro das características de frigorífico, não se tinha a ideia de ser um setor unificado, coeso, ficava cada um por si. Por isso, agora, a Abra está trabalhando para divulgar a atividade também para a sociedade.

B&B – Estudo da Abra revela que as exportações do setor de reciclagem animal representam apenas 1,73% do total da produção nacional. Por que esse número é tão pequeno?
José Malheiro – Primeiramente, o Brasil é um grande consumidor dos produtos de origem animal, há demanda interna para nossa produção, porém acreditamos que, através de ações da ABRA será possível ampliar estas exportações, através da conscientização das empresas, da necessidade da qualidade e do atendimento aos padrões exigidos pelos consumidores externos. Isso representaria importante constância nos valores comerciais de farinhas, pois atualmente ainda sofremos grandes flutuações de preços entre a safra/entressafra do boi.

B&B – Quais são os principais produtos exportados? Quais os principais destinos?
José Malheiro – Basicamente são exportadas as farinhas, embora gorduras também possam e são exportadas em menor escala. Os principais destinos são Chile, África do Sul, Vietnã entre outros.

B&B – Como funciona o mercado internacional de produtos reciclados de origem animal? Quem são (países) os principais players desse mercado? Quais os principais importadores? Qual o volume comercializado anualmente (em toneladas)?
José Malheiro – Com um comércio internacional estimado em 2010 em 2,15 milhões de toneladas de gordura, os EUA foram os maiores exportadores, representado 40% do total, seguido da Austrália a Canadá. O Brasil participou com pouco mais de 5,5 mil toneladas, México, China, Turquia e Nigéria são os maiores importadores, respondendo por quase 60% das importações mundiais.
Com um comércio internacional estimado em 2010 em 1,8 milhões de toneladas, os maiores exportadores de farinhas de origem animal, em ordem decrescente são EUA, Austrália, Nova Zelândia, Argentina e Canadá. O Brasil participou com 52 mil toneladas.

B&B – Na opinião do senhor qual o potencial de exportação do setor? O Brasil pode vir a ser um grande exportador de produtos reciclados de origem animal? O que é preciso fazer para isso?
José Malheiro – Conforme dito anteriormente, o Brasil é grande produtor de aves de corte, de suínos e grande consumidor de produtos de higiene e limpeza e de biodiesel, o que faz o mercado interno um grande consumidor dos produtos gerados, porém, achamos muito importante e estratégico aumentar nossa exportação dos atuais 1,73% para algo ao redor de 15% do total produzido, sem prejuízo ou desabastecimento.

B&B – Para encerrar, qual a real importância do da reciclagem animal para o Brasil?
José Malheiro – Nossa visão é de que se não existissem essas empresas de reciclagem animal, todo esse volume estaria sendo destinado ao meio ambiente. Portanto, somos um grande contribuinte para a sustentabilidade ambiental do país.
Além disso, o número de empregos gerados, produtos fabricados e geração de receita para o país, garante que este setor seja bastante representativo na cadeia de produção da carne e até mesmo no parque industrial brasileiro.

B&B – Quais as perspectivas do setor de reciclagem animal em curto, médio e longo prazos?
José Malheiro – Tendo em vista o constante e imenso crescimento do volume de exportação de carnes pelo Brasil, as perspectivas para o setor são as melhores possíveis. Aliado a isso, com a conscientização das empresas, de que temos condições de fabricar um produto com mais qualidade, as possibilidades de exportação serão cada vez maiores. Além disso, se trabalharmos buscando agregar valor ao produto final, as vendas tanto para o mercado interno como para o externo, trarão ganhos muito maiores que os atuais.
Empresas maiores e mais sustentáveis, funcionários mais preparados, exportação representativa e maior estabilidade de preços. Essa é a expectativa para nosso futuro.