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Demanda fraca nos mercados externo e interno, desconfiança de consumidores e de investidores, alto nível de endividamento das famílias e das empresas, dúvidas sobre a situação fiscal do país, incertezas no cenário político, erros na condução da política econômica…  
São muitas as razões que levam especialistas a acreditar que a crise pode se aprofundar ainda mais antes de a economia iniciar uma retomada, não vislumbrada para os próximos meses. Para Carlos Kawall Leal Ferreira, economista-chefe do Banco Safra, a demanda fraca não sugere uma recuperação do país nos próximos meses. 
Os brasileiros estão à procura de um fundo do poço, da esperança de que a economia está prestes a se recuperar da assombrosa queda que atravessa. Poderão os economistas oferecer esse consolo? Ou será mais plausível concluir que estamos a cavar o nosso próprio poço? 
É verdade que a dinâmica de uma crise pode criar por si alguns impulsos para a recuperação. A desvalorização cambial, por exemplo, torna as exportações mais competitivas, enquanto a produção nacional ganha espaço no mercado interno, estimulando o aumento da produção.
Para que tais efeitos sejam significativos, contudo, é necessário que os mercados absorvam tal produção. Uma economia internacional desacelerando e um mercado doméstico encolhendo rapidamente tendem a enfraquecer esse impulso positivo. Outro potencial impulso criado pela dinâmica da crise está relacionado ao investimento. A queda dos salários pode recuperar as margens das empresas e levar, consequentemente, à recuperação do investimento.
Esse argumento costuma subestimar o desincentivo dos elevados estoques e da ociosidade que acompanham as crises. Um resultado empírico robusto é que o investimento reage muito mais a variações na demanda do que na sua rentabilidade. A aposta em tais impulsos para que as crises se revertam está relacionada à ideia de que os mercados tendem automaticamente a se equilibrar. Há, porém, compreensões alternativas da dinâmica econômica. Uma delas, formulada pelo economista sueco Gunnar Myrdal, indica que as economias tendem a descrever trajetórias explosivas. 
Um processo de crescimento, uma vez iniciado, tende a acelerar continuamente, enquanto uma recessão tende apenas a se aprofundar. O aumento no desemprego leva à queda no consumo, que, por sua vez, derruba o investimento. Segue-se outra onda de demissões que reduz ainda mais o consumo e o investimento. Segundo essa lógica, não há nada que possa criar um fundo do poço. Alguém poderia argumentar que não se observam historicamente trajetórias explosivas. Isso é verdade. O equívoco é atribuir a relativa estabilidade aos mercados. 
Diante da crise de 1929, a maior parte dos países construiu travas institucionais que lograram colocar freios às oscilações econômicas. Quando tais freios não foram suficientes, a política econômica foi mobilizada para impedir o desemprego em massa.O problema atual do Brasil é que não apenas o sistema político está girando em falso como as iniciativas anunciadas enfraquecem as travas à derrocada econômica. São os caso das metas de crescimento dos gastos públicos e da reforma da Previdência. 
Ávidos por trazer ao Brasil um mistificado liberalismo econômico, economistas convencionais e os membros do governo que foram convencidos por eles defendem políticas que aceleram a trajetória explosiva, em vez de se contrapor a ela. Estão cavando ativamente o fundo do poço.
Fonte Folha de São Paulo .