Apesar de uma frota de carros 6% maior no país na comparação com o ano passado, o consumo de combustíveis do chamado ciclo otto, basicamente compreendido por etanol hidratado e gasolina C, começa a mostrar um recuo mais consistente na comparação com o desempenho de 2014. A combinação entre a desaceleração da economia e preços de combustíveis até 30% mais elevados no ano deve fazer com que esse mercado, até então com taxas de crescimento robustas, tenha avanço mais tímido ou até retração.
A expectativa é que a queda das vendas a partir de agora seja puxada pelo etanol, cujos preços subiram neste ano 30% ao consumidor final ante 19% da gasolina. Os dados se referem aos preços médios dos dois produtos nos postos do Estado de São Paulo apurados pela Agência Nacional de Petróleo (ANP).
O consumo de hidratado, que em outubro ficou no patamar de 1,7 bilhão de litros, tende a recuar em novembro e dezembro para níveis de 1,3 bilhão a 1,4 bilhão de litros, conforme estimativas de traders. As projeções são de que esse volume mensal vai cair no primeiro trimestre do próximo ano a 1,1 bilhão de litros, patamar adequado para fazer frente à oferta prevista, segundo especialistas.
Até agora, a queda na comercialização dos combustíveis do ciclo otto está sendo provocada pela gasolina, cujas vendas acumulam retração de 7% no país até outubro. Em agosto, as vendas combinadas de gasolina e etanol hidratado equivalente (considerando que o etanol tem 70% do rendimento da gasolina) foram 1,2% menores do que em igual mês de 2014, conforme dados da ANP. Em setembro, esse recuo se aprofundou para 2% e, em outubro, caiu 3,1%.
Conforme traders, a expectativa é de que, em relação a outubro, as vendas de etanol no mês de novembro sejam 10% menores. O declínio do etanol deve empurrar o ciclo otto para uma queda mensal de 3,5%, afirmam especialistas.
No acumulado deste ano até outubro, o saldo ainda é de crescimento de 1% nas vendas (em termos equivalentes) dos dois combustíveis no país. Até dezembro, esse percentual deve permanecer em 1%, na projeção do Sindicom. Se for confirmado, esse aumento, apesar de ainda positivo, está muito aquém dos patamares de 6% dos anos anteriores.
Os desaquecimento do mercado de combustíveis começou em fevereiro deste ano, após um aumento dos preços da gasolina e do retorno de cobrança da Cide sobre o derivado fóssil. Antes disso, em janeiro, um motorista do Estado de São Paulo gastava, em média, R$ 174,18 para encher o tanque de seu veículo (considerando uma capacidade de tancagem de 60 litros) ­ dados os preços médios da gasolina apurados pela ANP. Na última semana, esse gasto já havia superado os R$ 200, alcançando R$ 207,48.
 
Por isso, nos últimos meses, os consumidores iniciaram uma forte migração da gasolina para o etanol hidratado, seu concorrente direto no mercado de carros flex. Conforme dados da ANP, de janeiro a outubro, as vendas do biocombustível acumulam alta de 42,5%, sendo que, somente em outubro, o volume atingiu o maior nível do ano (1,7 bilhão de litros), 44,60% de alta na comparação com o mesmo período de 2014.
 
"O que vem acontecendo é que a relação favorável do etanol sobre a gasolina vinha se reduzindo e, agora em novembro, deixou de existir nos principais Estados consumidores", disse o diretor do sindicato que representa as distribuidoras do país (Sindicom), César Guimarães.
 
O fato é que abastecer com etanol também está mais caro. Desde janeiro, o motorista do Estado de São Paulo está pagando 30% mais para encher o tanque com o produto ­ em janeiro eram R$ 114 e, na última semana, estava em R$ 149,43, conforme dados da ANP.
 
É difícil no atual cenário econômico e político projetar o que vai acontecer com o consumo, avalia o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires. "Já estamos com inflação de dois dígitos, com aumento forte de despesas básicas, como energia elétrica. Pode ser que o brasileiro passe a deixar o carro mais em casa, pois ele tem alternativa. O transporte público é ruim, mas existe", analisou.
 
Já para as usinas produtoras de etanol, Pires vê um cenário positivo, ainda que as vendas não cresçam. "O preço da gasolina vai ter que subir de novo por causa do rombo da Petrobras e a margem do etanol vai continuar aumentando", avalia o diretor do CBIE.
 
 
Fonte: Valor Econômico