O dólar valorizado em relação ao real foi fundamental para fazer frente aos baixos preços dos grãos na bolsa de Chicago em 2015 e sustentar a receita das três empresas de produção agrícola do país com capital aberto na BM&FBovespa. Mas esse talvez seja um dos únicos pontos em comum entre BrasilAgro, SLC Agrícola e Vanguarda Agro este ano, marcado pelo desempenho bastante distinto das ações dessas companhias. 
    Os papéis da BrasilAgro e da SLC Agrícola encerraram 2015 no azul, mas com uma diferença significativa: a primeira em alta de 35,66%, e a segunda, de 18,56 %. Já a Vanguarda aponta para baixo: as ações recuaram 74,02% no ano. "Essas empresas estão em momentos diferentes. A SLC já nasceu como empresa agrícola e está crescendo em função disso. A Vanguarda virou empresa agrícola, teve problemas com terras, e com toda essa questão do câmbio e da queda dos preços das commodities, acabou sofrendo mais", avaliou Catarina Pedrosa, analista do banco Haitong. 
   Nos nove primeiros meses de 2015, a Vanguarda Agro reportou uma receita de R$ 802,95 milhões, 22,4% acima do mesmo intervalo de 2014. Mas a última linha do balanço piorou: o prejuízo líquido passou de R$ 50,55 milhões para R$ 87,55 milhões. A Vanguarda acelerou a busca pelo aumento de rendimento: neste ciclo 2015/16, espera elevar sua produtividade da soja de 54,6 para 55,4 sacas por hectare. Para isso, priorizou terras mais produtivas e reduziu em 19% sua área na atual safra, para 200,6 mil hectares, devolvendo arrendamentos em Mato Grosso, na Bahia e no Piauí – onde a companhia já não opera mais.  
    Não fossem as baixas relacionadas a essas devoluções, a Vanguarda fecharia o ano "com uma pequena rentabilidade", disse Arlindo Moura, CEO da empresa, em encontro com investidores em dezembro. A empresa ainda avalia se ficará na Bahia. "Temos que gerar resultados, e são esses resultados que reduzirão nosso endividamento", afirmou. No fim do terceiro trimestre de 2015, a Vanguarda tinha uma dívida líquida de US$ 242,59 milhões e até os últimos dias do ano renegociava o pagamento de US$ 15 milhões a bancos. 
    A BrasilAgro está em posição mais confortável. Sem dívidas em dólar, absorveu apenas os efeitos positivos da desvalorização do real, que inflou a receita. No ano fiscal de 2015, que terminou em 30 de junho, o faturamento cresceu 167%, para R$ 440,74 milhões, e o lucro líquido somou R$ 180,8 milhões. 
    Os resultados da BrasilAgro foram turbinados pela venda da fazenda Cremaq, em Baixa Grande do Ribeiro (PI). O valor do negócio, fechado em junho, foi de R$ 270 milhões. Mas a boa produtividade da safra 2014/15 e a otimização de custos ajudaram no desempenho, diz a companhia. Já no primeiro trimestre do ano fiscal de 2016 (encerrado em 30 de setembro), as altas na receita e no lucro foram de 19% e 2.711%, respectivamente, para R$ 67,22 milhões e R$ 44,47 milhões. Julio Piza, CEO da BrasilAgro, tem reafirmado a intenção de novas compras de fazendas em até seis meses. O interesse são áreas consolidadas, como Mato Grosso. "Esperem aquisições interessantes", disse ele, no mês passado. 
    Para Catarina, do Haitong, a SLC também pode comprar terras em 2016, mas apenas se o negócio não pressionar o caixa. "E não necessariamente seria via SLC, pode ser pela LandCo [subsidiária da companhia dedicada ao investimento em terras]". Nos nove primeiros meses de 2015, a SLC teve um lucro líquido de R$ 85,8 milhões, 62% acima de igual período de 2014. Já a receita cresceu 11%, a R$ 1,177 bilhão. 
    Aurélio Pavinato, CEO da SLC, ressaltou as dificuldades climáticas na Bahia e no Piauí, onde estão as lavouras mais novas da empresa. "Apesar desses ventos contrários, e graças à nossa diversificação geográfica, forte controle de custos e política de hedge bem consolidada, conseguiremos atingir nossas principais metas financeiras e entregar um resultado superior a 2014", disse. 
    Para 2016, o executivo reiterou o foco no ganho de eficiência e mostrou confiança em margens melhores. "Compramos insumos a preços mais baixos e já temos boa parte das vendas efetivadas para 2016, então o desafio agora é entregar uma boa performance operacional". A SLC elevará sua área em 2015/16 de 370 mil para 377 mil hectares. 
    O fato é que o bom desempenho desta safra ainda dependerá muito do clima, e Catarina lembra que há regiões em Mato Grosso com chuvas de 25% a 30% abaixo da média. As poucas chances de reação nos preços dos grãos corroboram um 2016 "mais difícil", previu. 
 
FONTE: JORNAL O VALOR ECONÔMICO