A ministra da Agricultura, Katia Abreu, encerrou ontem visita de cinco dias à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos convencida de que abriu as portas para a captação de "alguns bilhões" de petrodólares para o agronegócio brasileiro.
"Estou com raiva de não ter vindo antes. Aqui só se fala em segurança alimentar", afirmou a ministra. Segundo ela, os empresários árabes mostraram grande interesse sobretudo nos segmentos de grãos, carne bovina e frutas. "Eles querem fornecimento estável e seguro de alimentos, através de compra direta ou de parcerias com empresas brasileiras".
Conforme Katia Abreu, o Abu Dhabi Investment Authority (Adia), maior fundo soberano do Oriente Médio, com cerca de US$ 800 bilhões, é um dos investidores que enviarão missão ao Brasil para avaliar negócios na agricultura.
Outras três tradings da Arábia Saudita (Almunajen, Arasco e Salic) e duas dos Emirados Árabes Unidos (Al Dahara e Al Ghurair) deverão seguir o mesmo caminho. O Ministério da Agricultura vai mobilizar o setor privado para os contatos.
Autoridades da Arábia Saudita disseram à ministra, por exemplo, que já desistiram de produzir 3 milhões de toneladas de trigo por ano no país para evitar consumo de água, e querem assegurar sua segurança alimentar com acordos no exterior. Mesmo que o Brasil não possa atender a essa demanda por trigo, já que é um dos maiores importadores do cereal do mundo, haverá oportunidades em outras frentes. Segundo Kátia Abreu, os empresários árabes querem depender menos das grandes tradings e fazer negócios diretamente com produtores brasileiros.
"O Brasil é parceiro preferencial, porque eles acham que a Austrália é muito quente para a produção [de certos produtos agrícolas] e os EUA muito caros", disse. Ela relatou que a reação foi muito boa quando foi apresentado o potencial de produção e exportação do Matopiba (confluência entre os Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). E destacou oportunidades de investimentos em infraestrutura, principalmente para estimular o escoamento pelo Norte do Brasil.
De acordo com a ministra, os árabes demonstraram grande interesse sobre a estratégia do governo brasileiro para estimular a logística no Norte, mas não perguntaram nada sobre política ou Petrobras.
O presidente do banco de investimento Emirates Capital, Erik Essinger, que há alguns anos anunciou a intenção de investir na agropecuária brasileira, disse ontem que desistiu já na primeira tentativa de estabelecer uma parceria com uma companhia brasileira para criar gado. "O idioma foi um problema, e o Brasil fica muito longe". Essinger disse estar investindo no setor na Rússia.
Kátia Abreu agora visita a Índia e depois segue para a China. Na bagagem, leva a abaia, um dos trajes típicos em países muçulmanos, que usou em algumas visitas.
 
Fonte: Valor Econômico