A crise da dívida vem afetando as exportações da América Latina para a União Europeia (UE), mas seu impacto é limitado, disseram analistas ao Valor. Para eles, as vendas para o velho continente devem, inclusive, começar a se recuperar a partir do segundo semestre, a não ser que uma catástrofe de dimensões gregas se espalhe para outros países europeus – o que todos veem como improvável.

Países como o Brasil e o Chile viram suas exportações para a UE caírem nos últimos meses, por conta principalmente da demanda menor pelo minério de ferro brasileiro e o cobre chileno.

No Brasil, isso representou uma queda de 21,6% na receita das exportações para a União Europeia em janeiro, em relação ao mesmo mês de 2011 (veja quadro ao lado). No caso do Chile, o tombo foi semelhante: 17,6%, tendência que, diferentemente do Brasil, vem se repetindo desde os últimos meses do ano passado. Outros países, porém, vêm apresentando melhora ou pelo menos mantendo os níveis de comércio com a Europa, como é o caso de Colômbia e Argentina.

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Em relatório divulgado na semana passada, o Instituto de Finanças Internacionais (IIF) minimizou o impacto da crise da dívida nas exportações latino-americanas. "A exposição direta a um crescimento europeu mais fraco via canal de comércio não é significativa, dado que a Europa representa somente 16% das exportações latino-americanas", disse o documento. Mas, para o instituto, a situação pode ficar mais grave se a crise europeia "se tornar um obstáculo ao crescimento global e chinês".

"A queda nas exportações do Chile não é significativa, não é algo preocupante, por enquanto", diz Christian Espinosa, professor da Faculdade de Economia da Universidade Diego Portales, do Chile.

Para ele, a redução no comércio com a Europa não foi causada somente pela crise, mas é "um produto de situações que estão ocorrendo nos últimos meses". "A principal preocupação é o preço do petróleo. A indústria exportadora, seja de vinho, de celulose ou de cobre, requer esse insumo como combustível em larga medida" diz. "Isso está afetando as exportações de commodities, assim como a questão cambial. Aqui no Chile, assim como no Brasil, a sobrevalorização do peso também tem provocado a intervenção do governo."

David Lea, analista da consultoria Control Risks, em Londres, concorda que "a crise na Europa não é motivo de pânico para a America Latina". "Mas eu não diria que não há motivos para preocupação. Nenhum dos países mais afetados até agora, Grécia, Portugal, e Irlanda, é grande comprador de commodities. Mas, se a crise se aprofundar em países como a Itália e a Espanha, a história será outra."

Para Alberto Ramos, economista para América Latina do banco Goldman Sachs, em Nova York, o mercado vê hoje uma probabilidade menor de agravamento da crise na Europa do que no final de 2011 "Algum efeito [sobre a América Latina] a crise já teve, quando o risco global subiu entre agosto e novembro, o fluxo de investimento global caiu, os preços das commodities foram ajustados e houve uma desaceleração global", diz. "Mas, em termos de expansão do fluxo de comércio, a Ásia é hoje o mercado mais importante."

Para Raphael Martello, da consultoria Tendências, a região precisa "observar como a crise europeia atingirá a China" e qual reflexo isso terá no preço das commodities. Já Rodrigo Branco, analista da Funcex (Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior), lembra que as chuvas de janeiro afetaram a extração de minérios no Brasil.

Na Argentina, o aumento de exportações para a UE está relacionado ao crescimento da produção e da venda do biodiesel derivado da soja. O país tem um dos maiores parques industriais de processamento de soja do mundo, e grande capacidade ociosa desde que a China deixou de comprar óleo de soja argentino, há alguns anos. "A demanda europeia por biodiesel é crescente porque os países da União Europeia assumiram o compromisso legal de substituir parte das importações de combustível fóssil", disse o economista Mauricio Claveri, da consultoria argentina Abeceb. As exportações argentinas de biodiesel aumentaram 70% em 2011, atingindo US$ 2 bilhões, sobretudo para a Europa.

O país também se beneficiou da elevação média da cotação da soja no mercado internacional em 2011. No caso da UE, o principal item de importação da Argentina é o da farinha de soja, usado para a alimentação de suínos.