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Há mais de 30 anos, a física indiana Vandana Shiva começava um dos movimentos ecológicos mais importantes de preservação da agrobiodiversidade em seu país, a criação da fazenda agroecológica Navdanya e um banco de sementes que protege milhares de variedades ameaçadas de extinção. 
 
Naquela época, o país passava por catástrofes ambientais, como o acidente de Bopal e uma grande seca que atingiu a região Sudoeste. Mas foi o advento da agricultura intensiva, que coloca em risco as formas de cultivo tradicionais, o maior motivo de preocupação. "Passei a frequentar feiras para coletar sementes e alertar os agricultores sobre a situação", conta Vandana Shiva. "Cheguei a guardar sementes embaixo da minha cama." 
 
Hoje, seu banco, com 711 variedades de arroz, 200 de trigo e 126 de feijões, ajuda agricultores sem condições econômicas ou que pretendem se tornar orgânicos. As sementes são enviadas mediante a promessa que serão devolvidas na próxima colheita. Esse trabalho ajudou a criar outros 150 bancos similares espalhados pela Índia e uma rede de um milhão de produtores orgânicos que, graças ao movimento, continuam a trabalhar na terra. 
 
Grão-de-bico negro, folhas da árvore moringa e a semente reetha, utilizada como sabão, dificilmente encontradas em mercados convencionais, aparecem nesse circuito. A rede Navdanya compartilha informações e comercializa variedades que há muito desapareceram – ou nunca chegaram – aos supermercados. O movimento encoraja seus membros a serem autônomos, produzindo primeiro para suprir as necessidade da família e depois para a comunidade e a vila. 
 
"A agricultura intensiva estimula o cultivo de apenas algumas variedades comerciais, enquanto outras correm o risco de desaparecer", afirma Vandana. "Existe um mito que a alimentação atual oferece uma ampla variedade de produtos. No entanto, a base dos alimentos encontrados nos supermercados limita-se ao milho, arroz, trigo e aveia", afirma Vandana. Um estudo do Rural Advancement Foundation International mostrou que, em 1983, haviam desaparecido 93% das variedades de sementes existentes no comércio em 1903 nos Estados Unidos. Por exemplo, das 307 variedades de milho e 544 de repolho, sobraram, 80 anos depois, apenas 12 e 28, respectivamente. Ainda que os dados tenham mais de três décadas, o estudo continua relevante até hoje. Segundo a publicação "The Story of Seed", lançada pela Navdanya, o avanço das monoculturas de arroz e de trigo provocou a diminuição da produção de leguminosas, cereais e oleaginosas na Índia. 
 
A queda de produção desses produtos – parte essencial da dieta indiana – resultou no aumento dos preços desses itens e comprometeu a nutrição das famílias. Entre 1956 e 1987, o consumo de grãos per capita caiu pela metade, de 70 gramas para 36 gramas por dia. Ainda que o Brasil não tenha dados oficiais sobre a perda da agrobiodiversidade, especialistas afirmam que as mudanças são visíveis. "Estima-se que 70% do milho no Brasil das comunidades tradicionais e de agricultores familiares perdeu suas variedades ou está em processo de erosão genética. Para o feijão, esse número está entre 40% e 60%", afirma Altair Machado, pesquisador de melhoramento genético da Embrapa Cerrados. 
 
A partir do ano 2000, com o incentivo de políticas sociais, os bancos de sementes locais se multiplicaram no Brasil e hoje existem mais de mil espalhados em comunidades tradicionais e entre agricultores familiares. Essa estratégia é importante para garantir a segurança alimentar das comunidades de agricultores e evitar perdas significativas de suas variedades. No entanto, a Lei de Sementes ainda causa entraves à produção de sementes agroecológicas e orgânicas para a comercialização. 
 
Uma saída, na opinião do pesquisador, seria um adendo à lei criando uma exceção para as variedades agroecológicas e orgânicas em relação aos critérios de homogeneidade, uniformidade e distinguibilidade. "Os bancos de sementes são a salvaguarda para riscos climáticos como seca, enchentes e ataques de pragas. Mas é fundamental integrar a conservação de sementes com seu uso", diz Altair Machado. 
 
"Os bancos locais são instrumentos de autonomia muito importantes. Sem eles, os camponeses teriam uma forte dependência da indústria de sementes, menor diversidade, uma padronização da produção e um aumento do uso de agrotóxicos", afirma Renato Maluf, professor do departamento de desenvolvimento, agricultura e sociedade, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. "Para a segurança alimentar, que valoriza as variedades na dieta e alimentos enraizados em costumes locais, os bancos são instrumentos valiosos", afirma Maluf.
 
Fonte Jornal O Valor