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 O Brasil tem miopia à sua vocação industrial, com um parque automobilístico moderno, precisa de redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). No setor têxtil, fomos ultrapassados pelos chineses, coreanos e países latino-americanos. Olhando os  números do PIB dá para saber onde o Brasil deveria apostar: na agroindústria.

 
A economia brasileira cresce por mais de uma década com a agropecuária sustentando essa alta, diga-se, muito aquém do que se esperava. O setor expande mais de 5% ao ano, com destaque para uma safra recorde de milho e uma colheita abundante de café. Se tivéssemos escolhido a agroindústria como uma de suas prioridades, já teríamos ultrapassado os EUA como maior produtor mundial de alimentos. Ter um parque industrial diversificado é importante, mas cada nação deve focar os setores em que pode ser mais forte para competir com vantagem no mundo globalizado. O Brasil  seria uma superpotência do campo, pois já tem quase 400 milhões de hectares cultiváveis, alta produtividade e mais de 90 milhões ainda por cultivar. Terras que eram improdutivas, como o Cerrado, se tornaram produtivas graças à tecnologia desenvolvida pela Embrapa, por exemplo. Quase 13% da água doce disponível no planeta está no Brasil, clima é diversificado e o regime de chuvas, regular, sendo possível colher ate três safras por ano.
 
Condições temos para liderar produção e venda de alimentos no mundo. Nós devemos aproveitar esses atributos para criar uma indústria capaz de agregar valor à carne bovina, ao suco de laranja, ao frango, ao café. Exportamos esses produtos como simples commodities, com preço muito mais baixo do que o pago pelo produto industrializado.
 
Agronegócio sempre foi considerado uma atividade "menor" entre os setores da indústria, um problema cultural entre nós, uma espécie de preconceito velado, que vem causando prejuízo ao longo dos anos. Agricultura, para a elite, é uma atividade inferior à produção de automóveis ou maquinário. Os EUA criaram um parque industrial sofisticado, mas a agricultura nunca foi deixada em segundo plano. Projeções do Agronegócio mostra que a expectativa é de que a safra de grãos cresça 23% em uma década, com o incremento de 32,9 milhões de toneladas, para um total de 175,8 milhões de toneladas em 2020/2021, dá para recuperar o prejuízo. O governo precisa investir em infraestrutura para que os produtos agrícolas sejam postos com rapidez no mercado internacional, falta de ferrovias e as estradas ruins fazem nossos produtos perderem competitividade. É preciso corrigir essa miopia em relação ao agronegócio.
 
Alta recorde no preço da soja e milho, causada pela seca nos Estados Unidos, colocou em cheque contas de milhares de produtores de frangos e suínos no Brasil. O problema é mais grave entre os cada vez mais raros criadores independentes, mas lideranças do setor dizem que a crise atinge também fornecedores ligados às grandes companhias. Nas gôndolas, o reflexo será a alta de preços das carnes. Empresas que não têm certo lastro financeiro passam por situação difícil, operando com margens de lucro baixas, produtores afirmam que não têm como absorver aumento de custos. Alta no preço da soja e milho, o dinheiro reservado para bancar a ração dos animais – constituída basicamente por esses dois grãos – acaba no meio do caminho e o repasse do aumento dos custos é inevitável. Agroindústrias com abates de menos de 100 mil frangos por dia já têm dificuldades, maiores ainda têm alguma margem por causa do volume de abate, essa crise fortalece a necessidade de revermos nossa vocação agroindustrial tendo lideranças do setor e políticas focados em levarmos esse pais à superpotência de alimentos logo.
 
Valter Bampi, médico veterinário, professor universitário e especialista avícola.
 
Fonte: Avicultura Industrial