Depois de uma semana de máquinas paradas devido às chuvas, os trabalhos de colheita da soja estão sendo retomados no norte de Mato Grosso. As produtividades das lavouras, contudo, permanecem frustrantes para boa parte dos agricultores, reflexo do tempo seco que atingiu a região desde o início desta safra 2015/16, em meados de setembro, até o início deste ano. 
   "Estamos colhendo soja com 50% de grãos avariados, e muitas áreas
com expectativa de fechar com rendimentos de 15 a 20 sacas por hectare", afirma Gilmar de Cezare, gerente da Fazenda Aeroporto, que tem 8,5 mil hectares semeados com a oleaginosa na cidade de Sinop. O Valor visitou a propriedade durante roteiro do "Rally da Safra", expedição técnica realizada pela consultoria Agroconsult por áreas de produção do Brasil. 
   Conforme Cezare, até 20 de dezembro, a área havia recebido apenas 200 milímetros (mm) de chuvas, quando o normal é que a região registre um acumulado pelo menos 9 ou 10 vezes superior. "Foram 30 dias sem quase nada de chuva", lembra. 
   Entretanto, em outras fazendas do grupo, que sofreram menos com a estiagem e onde o período de plantio e o manejo foram mais certeiros, Cezare acredita que há possibilidade de colher até 60 sacas por hectare, acima da média de pouco mais de 50 sacas prevista para o Estado pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). 
   Os produtores de Sinop já colheram em torno de 2% da área plantada, estima Adelmo Zuanazzi, diretor do Sindicato Rural da cidade. Muitos agricultores, segundo ele, já abandonaram alguns talhões, condenados pela seca. "Baixou de 15 sacas por hectare de soja boa [sem avarias], já não vale mais a pena colher porque não vai mais cobrir o custo", afirma Zuanazzi. 
   Essas perdas de produtividade no norte de Mato Grosso têm relação com o El Niño, fenômeno climático que provocou escassez de precipitações na região. Ocorre que nas primeiras semanas de janeiro as chuvas voltaram e aumentaram o temor de que a umidade atrapalhe a colheita de soja, já tão combalida pelo clima. 
   Assim, os agricultores aproveitam as brechas de tempo firme para acelerar o ritmo da retirada da soja de campo e diminuir os atrasos no plantio da segunda safra (safrinha) de milho, feito em seguida. Os preços elevados do milho no mercado doméstico, embalados pelo dólar firme e pelas exportações aquecidas, aumentam a ansiedade do produtor com a semeadura do grão. "Quem tiver condições, vai plantar até fora da janela ideal [que se encerra em meados de fevereiro]", avalia Zuanazzi. 
   O Valor participa esta semana do segundo roteiro do "Rally da Safra". Entre 25 e 29 de janeiro, a reportagem percorrerá o trajeto de Sinop a Cuiabá, que concentra as lavouras de soja do Estado de Mato Grosso, principal produtor nacional da commodity. 
 
Fonte  Jornal O Valor